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PBH promete reforma de praça na Pampulha idealizada por Burle Marx

Modificações na praça devem levar em conta os aspectos originais da construção, para que sejam preservadas as características que fizeram o tombamento ser feito

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A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), finaliza a etapa de orçamento e preparo da licitação que promete a reforma da Praça Dino Barbieri, na Avenida Otacílio Negrão de Lima, na Região Pampulha. O projeto promete reformas no jardim idealizado por Roberto Burle Marx, com o replantio de plantas e reforma do parque. A obra tem custo estimado de cerca de R$ 824 mil.

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Parte do recurso a ser utilizado será captado através do Novo PAC – Edital de Chamamento Público Iphan n° 9/2023, com aporte de R$ 350 mil. A outra parcela do valor será arcada pelo município. A data para o início das reformas não foi informada.

De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura de BH, a praça encontra-se descaracterizada, o que faz com que haja a necessidade de uma reforma que se aproxime do projeto original. As reformas que serão feitas devem levar em conta os princípios da época para que as certidões de tombamentos sejam respeitadas.

O urbanista Davi Machado, professor de arquitetura do Centro Universitário Dom Helder, enfatiza o caráter histórico da Pampulha e relembra que ela é tombada em todas as instâncias possíveis: municipal, estadual, federal e reconhecida como patrimônio pela Unesco.

“Qualquer intervenção que vá ser feita tem de levar em conta as características históricas do lugar. Por isso, é preciso muito critério em qualquer obra que será feita no lugar”, afirma Machado.

Ele também enfatiza a peculiaridade do local em decorrência da proximidade com outros lugares de importância histórica e social na região.

“Qualquer obra feita acima do solo pode interferir na fruição daquele conjunto urbano tombado. Vai ter novos banheiros? Se sim, como vão construir esses sanitários? Vai ser acima do solo? Como vai ser o diálogo dessa nova edificação com a igreja que é uma das grandes obras do modernismo brasileiro?”, indaga o arquiteto.

Sobre a possibilidade de futuras obras na igrejinha, a Arquidiocese de BH informou que a prefeitura fez contato com a instituição para agendar uma conversa formal nesta semana e apresentar um projeto. Eles não sabem ao certo como serão feitas as reformas e preferem esperar a proposta da PBH antes de opinar.

A cobertura arbórea é valorizada por David Machado. “Tem árvores ali que são muito antigas e são muito significativas para aquela área. O grande desafio é adequar um novo projeto à pré-existência dessas espécimes”, afirma.

Para manter os jardins floridos no parque, é necessário o plantio e o cuidado recorrente com as plantas. A arquiteta e paisagista Laura Mourão, foi a responsável por desenvolver o viveiro Burle Marx, localizado no Jardim Botânico, para o armazenamento de mudas usadas no entorno da Pampulha.

Ela destaca o papel político do artista no desenvolvimento da obra paisagista. “Burle Marx cortou esse nosso ciclo complexo colonialista de achar que tudo que vem de fora é melhor e começou a valorizar nossa flora brasileira”, diz. “Ele usava essas espécies — plantas nunca antes utilizadas nos jardins, tanto pela forma, quanto pela floração, o volume ou estrutura. Depois disso, as vegetações usadas pelo paisagista começaram a ganhar valor comercial”, afirma Laura.

Neste momento, a praça tem problemas estruturais e no plantio. Os corrimões estão degradados, com tinta desgastada e ferrugem aparente. É possível ver o desgaste dos jardins no parque, com solo ruim e baixa qualidade dos espécimes plantadas.

Patrimônio

O Conjunto Arquitetônico da Pampulha foi reconhecido pela Unesco em 2016 como patrimônio cultural da humanidade. A ideia foi desenvolvida por Juscelino Kubistchek no decorrer da década de 1940, enquanto JK era prefeito de BH, para ser mais um local de lazer e turismo na cidade.

Composto pela Igreja São Francisco de Assis, o Iate Tênis Clube, a Casa do Baile e o Museu de Arte, as obras arquitetônicas são assinadas por Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx e Portinari.

Segundo o Iphan, o projeto a ser contratado tem como base um estudo preliminar desenvolvido pelo próprio instituto em 2017, à época apresentado à Unesco, com diretrizes para a recuperação dos jardins e da praça.

Técnicos do órgão patrimonial e paisagistas do Sítio Burle Marx ficaram responsáveis pelo respaldo especializado. Segundo o órgão, a contratação do projeto está sendo conduzida pela Prefeitura, e o Iphan acompanha o desenvolvimento das propostas, conforme suas atribuições legais sobre bens tombados em âmbito federal.

Praça Dino Barbieri

A praça Dino Barbieri foi inaugurada em 1943 com um nome diferente do que vemos atualmente. Na ocasião, o lugar era chamado de Praça das Mangueiras, por causa da espécie de árvores naquela área. O nome da praça foi alterado em 27 de novembro de 2003, em homenagem ao Padre Dino Barbieri =, sacerdote importante nas ações religiosas e comunitárias na região da Pampulha.

O eclesiástico veio da Itália e se radicou em Minas Gerais. Ele recebeu o título de cidadão honorário de Belo Horizonte, em decorrência das participações do padre nos movimentos sociais da cidade e nas obras da igreja, especialmente na Paróquia Nossa Senhora da Divina Providência, na Pampulha.

Na praça, há a presença de um jardim projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx com espécimes de origem brasileira.

Viveiro

Para manter viva a ideia de plantio de mudas nacionais na região, foi construído um viveiro que leva o nome do paisagista no Jardim Botânico de BH. 

A paisagista Laura Mourão fez estágio com Burle Marx no Rio de Janeiro e foi lá que ela desenvolveu as habilidades artísticas relacionadas ao design típico do paisagista.

Ela destaca que o viveiro é fundamental para a continuidade do processo de replantio e perpetuação dos jardins pela cidade. A arquiteta foi a responsável pelo desenvolvimento do lugar no período em que esteve à frente da Fundação Municipal de Parques de BH.

“No viveiro, montamos um ripado que é usado na produção de mudas e uma estrutura com estufa, em que é posto as sementes e etc (…)”, aponta a paisagista.

Ela relembra que esse processo de deterioração dos jardins, seja pelas forças do tempo ou por intervenções humanas, são recorrentes. Sobre essas interferências, Laura relembra a última visita de Burle Marx à praça na Pampulha e o choque do artista ao ver que o design produzido pelo paisagista havia sido obliterado.

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“Fui testemunha ocular da última visita dele ao jardim em 1992. Ele quase teve um ‘infarto’ ao ver a descaracterização do lugar. Ficou tão furioso, que nem sequer conseguiu fechar o tour até a igrejinha e tiveram que levá-lo até o hotel. Os jardins estavam desmantelados, cheio de cactos na beira do lago, e Burle Marx ficou indignado”.

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