Morre Ivo Lopes, médico que fundou o Hospital Sofia Feldman
Fundador do Hospital Sofia Feldman, médico foi referência na defesa do parto humanizado e da saúde pública.
compartilhe
SIGA
Um dos nomes mais importantes da história da saúde pública em Minas Gerais e referência na defesa do atendimento humanizado às mulheres e às famílias, o ginecologista e obstetra Ivo de Oliveira Lopes, um dos fundadores do Hospital Sofia Feldman, morreu na noite de segunda-feira (2/2), em Belo Horizonte, aos 79 anos. Pai de cinco mulheres e um homem, ele nasceu em 5 de setembro de 1946, em Santana do Paraíso. Ivo esteve internado em dezembro e, segundo a família, após a passagem pelo hospital ficou debilitado nos últimos meses. A causa da morte não foi informada.
Reconhecido como pioneiro na humanização da assistência obstétrica no Brasil, Ivo dedicou sua trajetória à construção de um modelo de cuidado baseado no acesso universal à saúde, no respeito às mulheres, aos recém-nascidos e às famílias e na defesa do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a filha, Raquel Rabelo de Sá Lopes, Ivo começou a passar mal no período do Natal e foi internado para uma cirurgia de urgência por causa de uma obstrução intestinal. Durante o procedimento, os médicos identificaram que se tratava de um tumor , um câncer de intestino já em estágio avançado e que, devido à idade e ao quadro clínico, ele não suportaria uma cirurgia de grande porte.
Após a internação, o médico recebeu alta e passou a ser acompanhado em casa pela equipe do Emad (serviço domiciliar do SUS), em cuidados paliativos. “Ele foi cuidado com muito carinho pela equipe e pela família”, afirmou. Ivo morreu em casa, às 22h15, nos braços da família, cercado de amor, da forma como ele queria. “Ele, que tanto lutou pela humanização do parto e do nascimento, teve também uma passagem digna e humanizada, como sempre defendeu”, completou a filha.
Para a filha, ele foi “um homem que dedicou sua vida ao SUS e ao seu projeto de vida: o Hospital Sofia Feldman e a enfermagem obstétrica do Brasil, de forma incansável e vocacionada”. Segundo ela, o pai “tocou a vida de muita gente, dos usuários do SUS aos trabalhadores, que ele fazia questão de conhecer e ajudar a crescer”.
Raquel também lembrou quem ele era fora do hospital: “Nunca tirou férias, gostava de ficar em casa, em família. Era duro por fora, mas extremamente amoroso. Gostava de todos os tipos de animais e a paixão dele eram os netos”. Para ela, o maior legado deixado é a prova de que “é possível, sim, fazer saúde de forma digna e humanizada”. Diante das homenagens, resume: “A certeza é que ele esteve sempre do lado certo: o da vida, da dignidade humana e do amor”.
A origem do Sofia Feldman e a atuação do médico
A história do Hospital Sofia Feldman começa ainda na década de 1970, durante a Ditadura Militar, quando o acesso à saúde no Brasil era restrito a quem contribuía com o INAMPS. Nesse cenário, grande parte da população ficava desassistida e dependia de hospitais filantrópicos.
Leia Mais
Foi nesse contexto que três pessoas com trajetórias diferentes se uniram para pensar uma instituição voltada à população mais vulnerável: José de Souza Sobrinho, ligado à Sociedade São Vicente de Paulo; Marx Golgher, pediatra e neto de Sofia Feldman; e Ivo Lopes, ginecologista e obstetra, atuante no movimento da reforma sanitária e influenciado pela Declaração de Alma-Ata sobre cuidados primários em saúde.
A proposta era criar um hospital que não negasse atendimento a ninguém. O nome foi uma homenagem a Sofia Feldman, avó de Marx Golgher, conhecida por seu trabalho filantrópico em Belo Horizonte. A partir desse projeto, nascia uma instituição que, anos depois, se tornaria referência nacional e internacional no cuidado humanizado ao parto e nascimento.
Segundo Lélia Maria Madeira, presidente da FAIS – Fundação de Assistência Integral à Saúde. “Desde o início da formação, ele já tinha um ‘pezinho’ na medicina social, com foco na atenção à população mais vulnerável”, afirma.
Ela explica que, logo após se formar, Ivo se associou a uma liderança comunitária do Bairro Tupi, região muito pobre na época, e começou ali o trabalho que daria origem ao hospital. “Ele foi agregando pessoas ao projeto, mobilizando a comunidade e construindo, pouco a pouco, a instituição com uma forte visão social e de atendimento à população carente, isso antes mesmo de existir o SUS como conhecemos hoje”, diz.
Mesmo nos últimos anos, já com a saúde fragilizada, Ivo Lopes mantinha vínculo com a instituição. “Ele é um grande ídolo para todos nós, porque foi o idealizador do hospital e da proposta que ele representa”, resume Lélia.
Para a presidente da FAIS, a principal contribuição de Ivo foi o pioneirismo na humanização da assistência. “Antes mesmo do SUS, o hospital já atendia todo mundo, já garantia mãe acompanhante na pediatria e acompanhante na maternidade. Essas práticas foram inovadoras e depois se tornaram modelo para o Ministério da Saúde, para outros sistemas de saúde e até para experiências em outros países”, afirma.
Dentro do hospital, Ivo é lembrado com carinho e reconhecimento. “Ele foi homenageado como presidente de honra da instituição. Existe uma comoção muito grande entre os profissionais pela perda dele. É uma pessoa extremamente querida e de enorme relevância não só para a saúde de Belo Horizonte, mas de Minas Gerais, do Brasil e até de outros países”, diz Lélia.
“Um homem generoso, acolhedor e à frente do seu tempo”
O impacto do trabalho de Ivo aparece também nos relatos de quem foi atendido ou trabalhou no hospital. Raquel Santiago conheceu o médico primeiro como paciente e depois como profissional da instituição. Mãe de três meninas,Maria Cecília, Maria Flor e Maria Alice , ela teve as filhas em partos humanizados no Hospital Sofia Feldman, em 2015, 2016 e 2018.
“Foi ali que eu conheci de perto a filosofia do hospital e o jeito dele de entender o cuidado com as mulheres”, conta.
Dois anos após o nascimento da caçula, Raquel passou a integrar a equipe da instituição, atuando na comunicação e na captação de recursos. Foi o próprio Ivo quem a entrevistou e a contratou. “Ele me disse: ‘Raquel, eu quero que você venha trabalhar aqui no Sofia Feldman porque você é uma pessoa que tem muito a contribuir e conhece a filosofia do hospital’. Aquilo me marcou muito”, lembra.
Raquel descreve Ivo como um homem muito à frente do seu tempo, que priorizava as mulheres, o atendimento humanizado e o respeito às escolhas reprodutivas. “Ele não fazia distinção entre as pessoas. Para ele, o próximo podia ser qualquer um. Ele via o outro como um irmão mesmo.”
Se tivesse que resumir Ivo em poucas palavras, ela não hesita: "Um homem generoso, acolhedor e totalmente dedicado ao outro. Ele se doava 100% e exigia que todo mundo fosse tratado com dignidade. Queria que cada pessoa que entrasse ali se sentisse em casa".
Comoção e homenagens
A morte de Ivo gerou grande comoção nas redes sociais, com mensagens de profissionais da saúde, ex-pacientes e colaboradores destacando o impacto do médico na vida de milhares de pessoas. “Aprendi tanto e carrego no meu DNA o cuidado humanizado”, escreveu uma internauta.
A Sociedade Mineira de Pediatria (SMP) também divulgou nota lamentando a morte do ginecologista e obstetra e ressaltou seu compromisso com a dignidade humana e com o cuidado humanizado à mulher, à criança e às famílias, além da defesa da saúde pública e do direito ao bem nascer.
Velório e sepultamento
O velório de Ivo de Oliveira Lopes acontece a partir das 19h desta terça-feira (3), no Cemitério Bosque da Esperança, em Belo Horizonte. O sepultamento está marcado para quarta-feira (4), às 9h, na Quadra Bougainville.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
* Estagiária sob supervisão da editora Ellen Cristie.