Uma nota de repúdio assinada por cinco entidades de representação de blocos carnavalescos da capital mineira, Liga Belorizontina, Santa Tereza Independente (Si Liga), Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Bruta), Associação dos Blocos de Rua de BH (Abra) e Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro), questiona a realização de grandes shows, com músicos de expressão nacional, durante o período da folia. Para essas organizações, essas atrações enfraquecem a cultura carnavalesca da cidade e os artistas locais.
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Em 2026, no carnaval da capital mineira, pelo menos seis grandes atrações nacionais têm shows confirmados em Belo Horizonte: Xamã, Zé Felipe, Michel Teló, Nattan, Luísa Sonza e Banda Eva. A expectativa da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) é de mais de 6 milhões de foliões para as festividades e gerar uma receita de aproximadamente R$ 1 bilhão para a economia da cidade.
"O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões", diz a nota. "Tais escolhas não apenas descaracterizam nossa festa, como ameaçam a sustentabilidade econômica e cultural dos agentes que verdadeiramente a constroem. Os blocos e artistas locais convivem com escasso apoio público e a falta de patrocínios privados, mesmo com empresas lucrando enormemente com a cidade lotada de foliões locais e turistas", prossegue o texto.
A nota lembra ainda a realização de um show do DJ Alok no Carnaval de 2025, no hipercentro da capital. A nota das ligas lembra a ocorrência de alguns episódios violentos durante a atração: "duas pessoas esfaqueadas na Avenida Afonso Pena, pânico coletivo pela aglomeração sem controle, esmagamento de foliões em função do local escolhido como trajeto", destaca.
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Por fim, as entidades pedem maior clareza por parte da administração pública, no que diz respeito aos recursos utilizados na realização da folia. "Exigimos transparência nos critérios de aplicação dos recursos, participação social nas decisões e um modelo de carnaval que valorize e invista nos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos, que fazem a festa acontecer nas ruas, de forma descentralizada e popular."
"Os blocos querem ser consultados, até porque o exemplo que a gente teve no ano passado não foi positivo", opina Polly Paixão, presidente da Liga Belorizontina. Ela salienta que os patrocinadores preferem investir em shows de artistas de maior projeção, que, assim, constituem uma espécie de concorrência desleal com os blocos locais. "A gente está muito preocupada com isso," sintetiza. "Daqui a pouco, estaremos falando em camarotização e venda de abadás", complementa.
Para completar, a presidente da Liga Belorizontina afirma que os recursos para os blocos da capital ficaram mais escassos após o ano de 2023, quando o Carnaval foi retomado após a pandemia de Covid-19. "Vários blocos que já foram patrocinados pela Belotur, neste ano, não conseguiram patrocínio", assegura. Por outro lado, os artistas reclamam que os custos estruturais, com trios elétricos, por exemplo, ficaram mais altos durante esse período.
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Polly lembra ainda que o ressurgimento do Carnaval em Belo Horizonte, quase duas décadas atrás, ocorreu por iniciativa dos artistas locais, sem qualquer fomento do poder público. Os blocos só começaram a receber incentivos financeiros em 2017, quando a folia já estava consolidada. "Foi um trabalho muito grande para ter essa verba", pontua.
Integrante de outra liga, a Bruta, Stefanio Marques dá declarações semelhantes. "Os blocos verdadeiramente não têm recebido o recurso e a atenção necessária. Os grandes eventos estão chegando, ocupando esse espaço, e quem dialoga com a comunidade durante o ano inteiro, quem constrói o carnaval, quem faz a festa da cidade, está sendo colocado de lado", explica.
Stefanio também reclama da falta de recursos: "A Prefeitura de BH, através do seu edital para o carnaval, contemplou 105 blocos. O edital é de 3 milhões de reais, para a maioria dos blocos não representa o que é o custo de um cortejo. Um trio elétrico, em média, para um bloco (de porte) médio ou grande, custa 35 mil, 40 mil, 50 mil reais", lamenta. Além disso, ele ressalta que mais de 600 blocos desfilarão na capital mineira durante o Carnaval, de modo que apenas uma pequena minoria recebeu verbas municipais.
O que diz a prefeitura
Contatada pela reportagem, a PBH informou, por meio de nota da Belotur, que "não há qualquer priorização aos megaeventos" e que "o principal instrumento de fomento do poder público ao carnaval é o Edital de Auxílio Financeiro, voltado exclusivamente para os blocos de rua".
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Ainda segundo o executivo municipal, "as contratações de artistas de fora da cidade ou do estado são realizadas pelos organizadores dos blocos, com recursos próprios ou de parceiros privados". Por fim, a PBH afirma que "não compete ao poder público municipal interferir ou vetar escolhas artísticas feitas pelos organizadores, desde que estejam em conformidade com a legislação vigente e com as regras estabelecidas para o carnaval".
