Neste domingo (25/1), familiares e amigos das vítimas do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, se reuniram na Praça Orides Parreiras, no Centro de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte, para participar da sétima edição da Romaria pela Ecologia Integral, com o tema “Memória, Justiça e Esperança”.
“Todo ano, venho participar da missa para rezar e clamar por justiça. Até hoje não houve justiça, não houve nada, está tudo impune”, conta Malvina Firmina Nunes, mãe de Peterson Firmino Nunes, que tinha 34 anos no dia da tragédia. Ele era pai de três filhos, que sentem sua falta todos os dias.
Com lágrimas nos olhos, Malvina afirma que a mineradora só trouxe destruição para sua vida. “A Vale é assassina, matou 272 pessoas. Todas estavam trabalhando para levar o pão para dentro de casa. Eu perdi meu Peterson, e foi como perder a mim mesma. Meu tempo parou, eu não vivo mais. Todos os dias peço a Deus por ele, chamo por ele”, desabafa.
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Refletindo as lágrimas daqueles que perderam seus entes queridos, uma missa aconteceu sob um céu cinza e chuvoso. A celebração foi presidida por Dom Joel Maria dos Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, e por Dom Francisco Cota, bispo referencial para a Comissão de Ecologia Integral e Mineração do Regional Leste 2 da CNBB.
“Esta é uma oportunidade para não perder a memória da tragédia/crime que ceifou a vida de 272 pessoas. É também uma oportunidade para clamar por justiça, que ainda não se deu como esperado, e para celebrar a esperança, que não nos decepciona, que nos fortalece e nos mobiliza para que, juntos, possamos continuar sendo cuidadores da casa comum e da vida humana. Que sejamos profetas da esperança em um mundo que tenta, pelo modelo econômico vigente, fazer imperar e reinar a morte”, disse Dom Joel.
Depois da missa, houve um momento de acolhida dos romeiros, e foram distribuídas 272 mudas, em referência às vidas perdidas. Por fim, os presentes seguiram em caminhada até a Praça das Joias ao som da música “Noites traiçoeiras”, executada por uma banda local. Na praça, os familiares ficaram de mãos e deram um abraço simbólico nas cruzes que simbolizam as vítimas.
Exatamente às 12h28, horário de rompimento da barragem, foi feito um minuto de silêncio, e 272 balões foram soltos no céu de Brumadinho: 270 amarelos, simbolizando aqueles que foram identificados, e dois brancos, representando as duas vítimas ainda não encontradas.
Tragédia de Brumadinho
No dia 25 de janeiro de 2019, o mar de lama que irrompeu da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão interrompeu bruscamente a vida de 272 pessoas, dentre elas funcionários da Vale, residentes locais, turistas e dois nascituros que viriam a se chamar Maria Elisa e Lorenzo. Depois de sete anos de buscas, duas vítimas ainda não foram encontradas.
O tenente Henrique Barcelos, porta-voz do Corpo de Bombeiros, informou ao Estado de Minas que os mais de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos já foram vistoriados e que o trabalho de identificação segue com a Polícia Civil.
“Estamos aqui hoje para renovar nosso compromisso com todo cidadão, principalmente de Brumadinho, e prestar nossa homenagem aos familiares das vítimas. Atingimos 100% de vistoria no rejeito, um parâmetro que era muito importante para nós, e agora a gente tem a continuidade de um trabalho muito importante da Polícia Civil, de continuar a análise perícia no segmento encontrado pela nossa corporação”, disse Barcelos.
Além das vidas que foram ceifadas, houve um imenso impacto ambiental que atingiu profundamente a vida das comunidades que dependiam das águas do córrego Ferro-Carvão e do Rio Paraopeba. A cacica Agohó, da antiga aldeia Naô Xohã Pataxó Hãhãhae, viu seu povo ser obrigado a deixar sua terra para sobreviver e viver em uma área doada em São Joaquim de Bicas.
“A gente tinha um rio limpo, uma geladeira que não precisava contar quantos peixes a gente ia pescar. Há sete anos, nossas crianças não fazem batizado, sete anos que a gente não come um peixe, sete anos que a gente não cultiva nossa espiritualidade. Nossas vidas não são mercadorias. Tem que respeitar as famílias dessas 272 vítimas, e nós, os povos originários, que também fomos impactados, estamos esperando pelo direito de ter um território para morar”, declarou a cacica.
A líder indígena ainda aponta a demora da Justiça em condenar os responsáveis pelo rompimento da barragem. “Infelizmente, no nosso país, não tem justiça. Se tivesse, essas mães e, nós que somos comunidades impactadas, não estaríamos aqui gritando por justiça. A gente pede aos países aí fora, às Cortes Internacionais, à ONU, aos países onde o minério chega, que vocês estão tendo lucro, mas nós estamos perdendo vida”, diz.
Espera por Justiça
Danilo Chammas, advogado da Avabrum e membro do Instituto Cordilheira comemorou o avanço no processo movido contra os responsáveis pelo desastre de Brumadinho. Segundo ele, uma série de audiências de instrução terá início no dia 23 de fevereiro. Mais de 180 pessoas serão ouvidas, entre testemunhas de acusação, testemunhas de defesa e os próprios réus.
“A gente fez um balanço de 2025, e houve muitos avanços. Parte graças à dedicação, à persistência das famílias das vítimas. São 17 réus que respondem por esse processo atualmente, 15 pessoas físicas e duas pessoas jurídicas. É o início de uma nova fase, que demorou para chegar, mas que finalmente chegou”.
Uma das grandes feridas ainda aberta para as famílias é a lentidão do processo na Justiça, que dá a essas pessoas a sensação de impunidade dos responsáveis. Sobre a demora, Chammas explica que esse tipo de processo é raro no Brasil, o que leva a discussões, por exemplo, da competência para julgar a ação.
“A demora decorre de diversos fatores, um deles é a própria falta de estrutura do sistema de justiça para lidar com casos tão complicados como esse, com centenas de vítimas, dezenas de réus. A gente tem trabalhado para superar essas dificuldades, encontrar soluções, porque há problemas, inclusive, estruturais do sistema justiça para lidar com um processo desse tamanho”, explica o advogado.
Chammas afirma que a expectativa em relação ao processo é positiva, e espera que os teus sejam submetidos a júri popular e julgados pelo crime de homicídio doloso, quando se assume a possibilidade de matar. “A gente espera uma decisão judicial que leve esses réus à júri, que confirme a acusação que já foi feita de homicídio doloso, porque essas pessoas conheciam a situação crítica, deplorável da barragem, o risco altíssimo de rompimento, elas sabiam qual era a mancha de inundação e tinham poder e o dever de tomar medidas para evitar as consequências e optaram por não fazer”, declara.
Para o deputado federal Pedro Aihara (PRD-MG), que ganhou notoriedade nacional como porta-voz do Corpo de Bombeiros durante os resgates em 2019 e hoje atua no Congresso Nacional, o sentimento que prevalece é o de uma Justiça que caminha em passos lentos demais.
“Sete anos se passaram e a gente não tem ninguém responsabilizado”, lamenta o parlamentar. Aihara, que hoje ocupa a posição estratégica de relator da comissão externa de fiscalização de barragens, destaca que a impunidade envia uma mensagem perigosa para o setor mineral e para a sociedade: a de que a vida humana tem pouco valor frente aos interesses econômicos.
No relatório da comissão que acompanha as situações de Brumadinho e Mariana, Aihara enfatiza a necessidade de prisões efetivas. Para ele, a punição dos réus possui um caráter pedagógico fundamental para evitar novas catástrofes.
"Se a gente passa uma mensagem de que a vida não vale nada, a gente acaba fazendo com que essas situações possam se repetir. Nossa luta é pela não repetição", diz o deputado.
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A transição de bombeiro para deputado não apagou as memórias do "dia zero". Aihara recorda que a tragédia não se resume a estatísticas, mas as histórias de vida que ele conhece de perto. "A maior parte dessas vítimas eu conheço pelo nome. Conheço as famílias, sei das histórias. Eram mulheres grávidas, pessoas prestes a casar, trabalhadores que estavam cobrindo o turno de colegas", relembra. Para ele, o componente mais doloroso após sete anos é ver o desinteresse público crescer enquanto a dor das famílias permanece intacta.
