No fim da tarde de 20 de janeiro de 1996, três jovens caminham por uma rua de terra no bairro Jardim Andere, em Varginha, no Sul de Minas. As irmãs Liliane e Valquíria Silva e a amiga Kátia de Andrade Xavier voltavam para casa quando algo incomum chamou a atenção em um terreno baldio. Encostada a um muro, estava uma criatura que nenhuma delas conseguiria esquecer.

Segundo o relato das jovens, o ser tinha cerca de um metro e meio de altura, corpo magro, pele escura com aspecto oleoso, olhos grandes e avermelhados, cabeça desproporcional e protuberâncias na região craniana, descritas como pequenos calombos ou chifres. A criatura estava agachada e emitia um som baixo, semelhante a um zumbido. Em choque, as jovens correram. 

Aquele encontro, aparentemente isolado, transformaria Varginha em um dos nomes mais conhecidos da ufologia mundial. Trinta anos depois, o chamado Caso ET de Varginha segue cercado de mistério, investigações independentes, versões oficiais contestadas — e silêncio institucional. Além disso, se tornou parte do imaginário popular do brasileiro.

Antes das meninas

Para os pesquisadores que acompanham o caso desde o início, o episódio do terreno baldio não foi o começo de tudo. Meses antes, moradores de Varginha e de cidades vizinhas já relatavam uma intensa movimentação de objetos voadores não identificados no céu do Sul de Minas.

Cidades como Três Corações, Campanha, Alfenas, São Gonçalo do Sapucaí e São Bento Abade registraram fenômenos semelhantes. Para Vitório Pacaccini, um dos primeiros ufólogos a investigar o caso e autor do livro “Incidente em Varginha”, o avistamento das jovens foi apenas o momento em que a história ganhou visibilidade nacional.

“Aquilo que parecia um episódio isolado já fazia parte de um contexto maior, com aparições constantes e movimentações estranhas na região”, afirma.

Captura

Antes mesmo do avistamento, os ufólogos afirmam que, na madrugada de 20 de janeiro, uma criatura foi capturada em uma zona rural próxima à cidade de Varginha. Os relatos indicam que o ser estava debilitado e foi transportado em veículo fechado. Naquela noite, Varginha foi atingida por uma forte chuva de granizo, mas isso não impediu que ocorresse a segunda captura de uma criatura não identificada.

De acordo com relatos reunidos por Pacaccini, uma criatura teria sido avistada em uma área de mata próxima ao bairro Jardim Andere. Militares descaracterizados teriam participado da operação. Durante a tentativa de contenção, um deles, o soldado Marco Eli Cherese, teria tido contato direto com o ser, sem o uso de luvas ou qualquer equipamento de proteção.

Dias depois, o policial adoeceu e morreu de forma repentina, alimentando teorias de que ele tinha sido infectado pela criatura. O sepultamento ocorreu sem velório e com orientação para que o caixão não fosse aberto — procedimento que jamais foi detalhado oficialmente.

Dias depois, surgiram relatos envolvendo o zoológico de Varginha. Pesquisadores afirmam que uma criatura foi vista nas proximidades do local e que, na mesma época, animais morreram de forma considerada atípica, incluindo uma anta, uma jaguatirica e veados. Uma terceira criatura foi capturada segundo os ufólogos. 

As criaturas teriam sido encaminhadas para o Exército, que as levou para análises em hospitais locais e, posteriormente, em Campinas (SP). Ainda de acordo com os especialistas, os seres foram levados para os Estados Unidos.

A versão oficial

Escultura mostra criatura avistada por Liliane e Valquíria Silva e Kátia de Andrade Xavier em janeiro de 1996

Memorial do ET

Apesar das acusações, o Exército nunca emitiu um parecer sobre o assunto. Em resposta ao Estado de Minas, o Centro de Comunicação Social do Exército informou que, à época dos acontecimentos, foram abertos processos investigatórios nos anos de 1996 e 1997.

Segundo a nota, esses procedimentos resultaram na instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM), encaminhado à Auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar, em Juiz de Fora (MG). O Exército afirma que o caso foi encerrado com a conclusão do inquérito.

No documento do processo, o Exército nega qualquer fator extraterrestre, destacando que o avistamento das meninas foi uma confusão. "O provável 'ser' avistado no Jardim Andere [...] tratava-se, na verdade, de um cidadão conhecido por 'Mudinho', que apresenta problemas mentais e cuja compleição física, agachado no local, sob chuva e penumbra, coincidia com a descrição das testemunhas”, diz um trecho.

O relatório reforça que as atividades militares no período foram de rotina e que os deslocamentos de comboios observados pela população faziam parte de manutenções programadas de viaturas e treinamentos regulares, e não de uma operação secreta de recolhimento de criaturas. 

Para os pesquisadores, a existência do IPM não encerra as dúvidas. Edison Boaventura Jr., ufólogo e autor do livro “ETs de Varginha: montando o quebra-cabeça”, destaca que, apesar da confirmação do inquérito, os documentos nunca foram tornados públicos.

“Não se trata de negar que houve investigação. A questão é que nenhum desses registros foi apresentado. Uma operação desse porte gera relatórios, ordens, laudos médicos. Até hoje, nada disso veio a público”, afirma.

Marco Antonio Petit, coeditor da Revista UFO e membro fundador da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), reforça que o acesso limitado aos documentos alimenta a desconfiança. “Quando um caso é classificado como encerrado, mas seus arquivos permanecem inacessíveis, o mistério não se dissipa — ele se aprofunda”, avalia.

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