Aline deixou quatro filhos: Emanuelle, de 11 anos; Levi e Luisa, de 4, e Rael, de 3. As crianças ficarão sob tutela dos avós, pois o pai das crianças morreu -  (crédito: Acervo pessoal)

Aline deixou quatro filhos: Emanuelle, de 11 anos; Levi e Luisa, de 4, e Rael, de 3. As crianças ficarão sob tutela dos avós, pois o pai das crianças morreu

crédito: Acervo pessoal

Aline Morais Silva, de 34 anos, morreu em Itabirito, Região Central de Minas, no último sábado (27/4), por complicações de dengue grave. Familiares dela relataram dificuldades para conseguir vaga para interná-la no Centro de Terapia Intensiva (CTI), apesar de recomendação médica.

 

Na quinta-feira (25/4) anterior, Aline chegou a ser transportada do hospital em Itabirito para atendimento especializado em Contagem, na Grande BH, mas teve a internação negada. Ela retornou ao hospital no município em que morava e faleceu dois dias depois. Aline era servidora da educação pública e deixou quatro filhos pequenos, um deles, autista.

 

Aline estava sob atendimento desde o dia 17 de abril, quando foi à UPA Celso Matos Silva, em Itabirito, e foi diagnosticada com dengue. Dois dias depois foi encaminhada ao Hospital São Camilo, também no município, onde teve uma piora significativa.

 

“Ela não estava respondendo ao tratamento, fizeram transfusão de plasma, mas não foi suficiente”, disse Ana Eliza, irmã mais velha da professora. Os batimentos de Aline estavam entre 30 e 40 bpm e a médica que a atendia, também suspeitando de um edema cerebral, solicitou que ela fosse encaminhada ao CTI, onde teria o atendimento adequado, mas não tinha vaga pelo SUS Fácil, disse a irmã de Aline.

 

Diante da espera, o pai de Aline, Espedito Berto da Silva, contatou o Ministério Público de Minas Gerais, que entrou com Ação Civil Pública para conseguir tutela de urgência no caso. Em 23 de abril, a 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Itabirito acatou o pedido e determinou “a transferência imediata da paciente conforme indicação médica, ou, sucessivamente, custear todos os custos do tratamento junto à instituição de saúde particular”.

 

Atendimento recusado

No dia 25 de abril, após o Município de Itabirito informar que o Hospital e Maternidade Santa Rita, em Contagem, que não atende pelo SUS, possuía capacidade técnica para recebimento da paciente e vagas para atendimento, uma ação judicial determinou a transferência. Além disso, determinou que o Estado de Minas Gerais e o Município de Itabirito efetuassem o valor do internamento e procedimentos de acordo com a tabela da Agência Nacional de Saúde Suplementar.

 

No fim da tarde de quinta-feira (25/4), Aline foi levada de Itabirito para Contagem, mas ao chegar no hospital teve o atendimento negado. “O responsável pelo hospital disse que a prefeitura não tinha feito o pagamento”, disse Ana Eliza.

 

De acordo com documento de decisão do juizado da comarca de Itabirito, o Hospital e Maternidade Santa Rita informou que foi surpreendido pela chegada da paciente, visto que a prefeitura não havia entrado em contato e não tinha leitos disponíveis para o atender as necessidades da paciente.

 

“A dor maior foi ela ter chegado na porta do hospital e ficar duas horas esperando. Ela não teve chance, não deixaram ela lutar”, disse Ana Eliza. Após a espera, a ambulância que transportava Aline precisou levá-la de volta ao hospital em Itabirito, onde ela morreu por dengue grave dois dias depois.

 

O que diz a prefeitura 

Em nota, a Prefeitura de Itabirito disse que "não procede a informação de que há qualquer empecilho ou dívida do município de Itabirito junto ao Hospital Santa Rita, o que poderia, em hipótese equivocada, ter motivado o não acolhimento da paciente". Além disso, ressaltou que o hospital em Contagem descumpriu a ordem judicial e afirmou que não houve nenhuma divergência, como foi dito à família de Aline na tentativa de internação.

 

"Segundo a instituição de saúde, as vagas disponíveis foram ocupadas por outros pacientes porque o Município não teria informado se a transferência seria efetivamente realizada. Durante todo o dia 25/04, a Secretaria de Saúde manteve contato comprovado com o Hospital Santa Rita. A paciente chegou à instituição às 18h do dia 25/4. O próprio hospital informa que a paciente chegou às 18h, mas que as vagas disponíveis foram ocupadas, respectivamente, às 18h30 e 21h20, ou seja, depois que a paciente já havia chegado ao local", informa o executivo municipal, que lamentou o ocorrido.


A reportagem entrou em contato com  a Secretaria de Estado de Saúde, que não retornou até a publicação desta reportagem. Ao Estado de Minas, o hospital Santa Rita disse que "não houve aceite de transferência e por isso não tem nada a relatar".

 

*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice