Servas completa 75 anos, com lançamento de livro que resgata sua história
Desde sua criação passou a ser o centro da assistência social do estado e desde então tem sido um grande celeiro de ideias
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Foi D. Sarah Kubitschek, mulher do saudoso Juscelino Kubitschek, que mudou o papel das primeiras-damas de Minas Gerais. Assim que o marido assumiu o cargo de governador do estado, em 1951, ela, que tinha um coração e um olhar carinhoso para as crianças mais necessitadas criou o Servas, instituição dedicada à assistência social, na época chamado Pioneiras Sociais. Foi com D. Berenice Catão Magalhães Pinto que a instituição passou a se chamar Servas, mas desde sua criação passou a ser o centro da assistência social do estado e desde então tem sido um grande celeiro de ideias na área de assistência e investimento social, exportando iniciativas que hoje são políticas públicas do estado, tendo se transformado em programas das secretarias de Desenvolvimento Social e de Desenvolvimento Econômico.
Christiana Renault, atual primeira-dama do estado, assumiu o cargo de presidente do Servas, em janeiro de 2023, a convite do então governador Romeu Zema. Advogada, especializada em direito público, mestra em direito empresarial e professora de história do Direito, assim que assumiu buscou a história da instituição para ter um norte do que fazer ou propor.
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Resgate
“Gosto de fazer as coisas de uma forma muito metódica, apesar de essa não ser minha característica pessoal, mas quando abordo um assunto novo, quero organizar de uma maneira muito detalhada. Quando cheguei, queria ter a história do Servas para eu pensar no que eu faria aqui. Quando o governador Romeu Zema me chamou pensei, 'meu Deus, eu não sou assistente social, não sou administradora de empresas, o que vou trazer de mim para o Servas? De que o Servas precisa?'”, relembra.
Porém a história não existia. Ela estava esparsa, desorganizada, era alguma coisa no Arquivo Público Mineiro, outras nos arquivos do Servas e alguns álbuns de fotos antigas. Uma professora sabe a importância da história. “Não temos lucidez para viver o presente e para se projetar no futuro se não temos uma história em que se espelhar. É com a história que aprendemos com os acertos e os erros. Como não ter registrada a história de uma instituição com mais de sete décadas?”, diz.
Assim nasceu a ideia do livro “20 Mulheres de História – a travessia do cuidado”, de Christiana Renault e escrito por Iana Coimbra, que será lançado nesta segunda-feira, 15, às 15h, no Palácio da Liberdade, abrindo as comemorações dos 75 anos do Servas. Na mesma tarde terá a 2ª edição da entrega da Medalha D. Sarah Kubitschek, instituída para premiar personalidades que desenvolveram trabalho relevante na área da assistência social em colaboração com o Servas ou não. Este ano, entre os premiados está o Sr. Jairo Siqueira de Azevedo, da Divina Providência; os provedores dos quatro maiores hospitais filantropos de Belo Horizonte, e pessoas que colaboraram em programas do Servas. As comemorações continuam no dia 26, com a abertura de uma exposição no Foyer do Palácio das Artes com o resumo dos capítulos do livro, que ficará aberta para visitação por 30 dias, seguida de um concerto no Grande Teatro.
Respeito
O livro traz a história das 20 presidentes do Servas, a partir de sua fundadora, mostrando com muita admiração, delicadeza e respeito os desafios que cada uma delas enfrentou e sua criatividade nas ações para arrecadar recursos para programas sociais ou mesmo para ações em momentos emergenciais. É importante destacar que o trabalho de todas sempre foi voluntário.
Christiana queria fazer um livro que despertasse nas pessoas o desejo e o prazer da leitura e conseguiu. A escolha da escritora, jornalista e pesquisadora Iana Coimbra foi assertiva. Iana fez uma grande e detalhada pesquisa, inclusive nos arquivos do jornal Estado de Minas, tanto no que diz respeito a matérias quanto ao acervo fotográfico. A autora soube transformar tudo em um texto de leitura muito agradável, daquelas que desperta no leitor a vontade de conhecer a história seguinte.
Infelizmente, muitas pessoas ainda não percebem a importância deste trabalho. Christiana relatou que na primeira entrevista que deu, assim que assumiu o cargo, um jornalista perguntou se o Servas era um lugar onde as mulheres vinham se reunir para tomar chá. “Fiquei muito brava, mas depois o jornalista pediu desculpas”. Era o mínimo.
O começo
Provavelmente, muitas das primeiras-damas convidavam as mulheres da alta sociedade para um chá, para convocá-las para o trabalho voluntário.
“Talvez tenha sido assim que começou, com D. Sarah no Palácio, reunida com mulheres dos secretários e da alta sociedade de Belo Horizonte, chamando a todas para trabalhar porque a infância estava desvalida, muitas mulheres morriam no puerpério, a maternidade estava desassistida. Esse era o ambiente dela e era com elas que ela podia contar. A partir dela, várias ações criadas aqui se tornaram políticas públicas que estão hoje nas secretarias de desenvolvimento social, econômico e de cultura”, comenta a presidente do Servas.
“A ideia de que o poder público deveria exercer um papel mais atuante em termos de cultura veio depois de o Servas resgatar a cultura popular. Só depois de muitos anos dessa valorização aqui, foi criada a Secretaria de Cultura. O Servas funcionou como matriz para políticas públicas, e para criação de muitas secretarias”, completa.
Evolução
Depois de resgatar a linda história dessas mulheres, alguns pontos chamaram a atenção de Christiana Renault. Um ponto foi como o conceito de assistência social mudou ao longo dos anos. Foram surgindo ideias de direitos que as pessoas têm, que antes não existiam. Com isso a assistência social teve que se enriquecer e se diversificar para cobrir outras vulnerabilidades. “A história do Servas é muito criativa porque o conceito se ampliou. Essa mudança é um processo de enriquecimento conceitual, que se intensificou com a Constituição de 1988. Quando a vulnerabilidade ganha fôlego para falar de direito social o Servas tem que se reinventar”.
Devemos abrir um parênteses. Depois da Constituição de 1988, foi sancionada a Lei Orgânica de Assistência Social, a Loas, em 7 de dezembro de 1993. Coube a Heloísa Azeredo a responsabilidade de trazer novos parâmetros e diretrizes para o Servas, já que seu marido assumiu o governo em janeiro de 1994. Sem desmerecer nenhuma delas, este foi um grande desafio que ela enfrentou com muita competência com a criação do Programa de Mobilização de Comunidades, o PMC. Fecha o parênteses.
Outro ponto que chamou a atenção da atual presidente do Servas foi o número de programas criados na instituição que se tornaram programas do governo. “Como já disse, muito do que foi criado no Servas se tornou política pública. Um exemplo foi o trabalho que D. Coracy criou com os artesãos mineiros, hoje, está na Secretaria de Desenvolvimento Econômico que tem uma área só de artesanato que encara este ofício como uma forma de dar dignidade a uma grande parcela da população de Minas Gerais sem tirar a pessoa da sua terra. Com isso não há evasão, os filhos e os netos aprendem o ofício e mantêm viva a cultura.”
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Questionada sobre qual das presidentes mais se destacou, Christiana afirma não conseguir identificar quem deu uma contribuição maior para isso. “Não quero ser injusta. Cada uma delas, dentro de suas condições e formação teve seu grande desafio. Algumas responderam de uma forma mais vigorosa que outras. Elas sempre encontravam soluções mais domésticas para conseguir recursos e criar programas. Não era possível contratar CEOs para ajudar, a solução era trazer algum familiar que se destacava em determinada área para ajudar porque o serviço sempre foi voluntário. Cada uma imprimiu uma parte de sua personalidade ao seu mandato. É uma mistura de uma resposta à necessidade da época de um lado, e de outro, um misto de personalidades. D. Lia arrecadou recursos fazendo saraus porque ela era cantora lírica”, exemplifica.
Destaques
As que mais surpreenderam Christiana foram Maria Coeli Porto, pelo programa Promam, de profissionalização de jovens e adolescentes. Ele não existe mais no Servas, mas existem iniciativas no estado que lembram esse programa. Outra foi D. Marina Pacheco, criadora da Feira da Paz, um grande sucesso por anos, mobilizando grande parte de jovens e adultos da cidade. Cibele Pinto Coelho teve um gestão curta e precisou responder a uma enchente arrasadora na Zona da Mata e no Sul de Minas, transformando o Servas em um braço da Defesa Civil. E D. Coracy pela forma tão criativa na abordagem do artesanato.
Mas Christiana não é mulher de ficar parada. Enquanto o projeto do livro tomava forma ela tinha um Servas para administrar. Advogada que é, resolveu profissionalizar o Servas e conseguiu. Começou reorganizando a instituição juridicamente porque tinha uma lei estadual de 2017/2018 que mudava um pouco o seu formato de atuação. Seguiu com consultoria de uma equipe da Secretaria de Planejamento para mapear os processos internos.
Iso 9001
Foi aí que ela resolveu tornar o Servas em ISO. “Entendi que o Servas não pode se tornar mais uma entidade de assistência social, o papel que cabe a ele é o de ser um grande catalizador de todas as instituições de assistência social de Minas Gerais, porque Minas é grande e diversa e os problemas são muitos, e quem trabalha na ponta, seja da assistência de pessoas com deficiência, criança, idoso, etc é que conhece a realidade nos seus mais íntimos detalhes. O que o Servas pode fazer melhor é mapear todas as instituições e ajudar a mantê-las”, detalha. Em sua gestão o Servas alcançou o ISO9001.
Para Renault, o outro grande papel do Servas, que se manteve mesmo depois da criação da Secretaria de Desenvolvimento Social, é atuar nas emergências, o que não pode ser feito pelo poder público pela dificuldade de agir rapidamente por causa da necessidade de licitação. N emergência não consegue dar uma resposta criativa rápida, por estar atado a normas para disciplinar o uso do recurso público.
Duas frentes
O Servas está dividido em dois grandes eixos: a ação social e o investimento social.
“A ação social atua com um público vulnerável, que vai continuar vulnerável e precisará sempre da assistência. Não é assistencialismo, assistencialismo e excesso, é querer prender a pessoa em uma vulnerabilidade dando recursos para ela. Assistência social é dar ao vulnerável que não vai deixar de ser vulnerável aquilo que ele precisa”, esclarece.
Há perfis que são vulneráveis e a tendência é se tornarem mais vulneráveis ainda, como por exemplo a população idosa. “Alguns portadores de deficiência não consegum ser autônomos, mas outros conseguem. Precisamos ajudar a ambos, uns com assistência, os que podem ser autônomos, ajudamos a ser. Temos que tomar cuidado para não tornar o vulnerável mais vulnerável ainda”, explica Christiana.
O investimento social é atuar com o vulnerável que tem alguma autonomia para que ele saia da vulnerabilidade, ou reduza essa vulnerabilidade. “O Servas tem o programa Reciclando Dignidade que paga a contribuição previdenciária dos catadores papel. Eles são uma população vulnerável, mas não são uma população que precisa ser suprida de todas as suas necessidades. A ideia é dar o máximo de autonomia para que consigam se formar de uma maneira cada vez melhor, se fortalecerem como classe, terem condições de se aposentar, receber tratamento médico, poderem se licenciar caso precisem”.
A primeira-dama do estado não esconde o orgulho e felicidade de dizer como é maravilhoso ver e mostrar aos outros o quanto de contribuição o Servas deu nessa área. Uma instituição que sempre foi muito mais orgânica do que formal, que para muitos era uma função honorária da primeira-dama, mas que agora, com a história publicada fica comprovado o quanto foi feito de fato.
No livro, através das histórias de Sarah, Lia, Queridinha, Berenice, Coracy, Marina, Vivi, Cybele, Latife, Risoleta, Édila, Maria Lúcia, Maria Coeli, Heloísa, Andrea, Célia, Carolina, Alexia, Elizabeth e Christiana é possível ver a constribuição de cada uma e muito do que o Servas fez, lembrando que muito da história se perdeu, mas pode ser resgatada a partir dessa publicação, com a contribuição de pessoas que fizeram parte dela.
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Fica o nosso parabéns para essa iniciativa tão bonita e importante de dar protagonismo a essas mulheres que teceram a solidariedade no nosso estado.