Modelos com rostos 'pós-cirurgia' chocam desfile em Paris
Coleção da Matières Fécales levou próteses, cicatrizes e rostos "pós-cirurgia" à passarela para criticar a obsessão por juventude e perfeição estética
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Um dos momentos mais comentados da Paris Fashion Week, que se encerrou nesta semana, veio do desfile da marca Matières Fécales, que levou à passarela modelos com rostos aparentemente deformados, com cicatrizes de cirurgias plásticas e curativos expostos. A estética perturbadora causou contraste com o ambiente, que tradicionalmente celebra juventude e beleza clássica.
Diversos modelos desfilaram com maquiagem e próteses que simulavam intervenções estéticas exageradas, como pele esticada, hematomas, curativos e expressões artificialmente rígidas. Entre as figuras que mais chamaram atenção estava uma modelo alta e loira com o rosto repuxado e marcado por cicatrizes.
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Por trás da caracterização estava o maquiador e drag queen britânico Alexis Stone, conhecido por suas transformações hiper-realistas em celebridades e personagens da cultura pop. Ao longo da carreira, Stone já surgiu caracterizado como Lana Del Rey, Cruella de Vil, a Mona Lisa, Miranda Priestly, Donatella Versace, Dorothy Gale, Anna Wintour, Morticia Addams e Madonna, entre outros.
Desta vez, a aparência criada por ele lembrava a socialite Jocelyn Wildenstein, conhecida mundialmente pelo apelido de “mulher-gato” após se submeter a inúmeras cirurgias plásticas que transformaram drasticamente suas feições.
Após o desfile, a própria marca publicou um carrossel de imagens nas redes sociais com os bastidores das caracterizações e a legenda: “o preço da beleza é dor”.
A maquiagem foi assinada pelos designers Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, criadores da Matières Fécales, em colaboração com a MAC Cosmetics. As próteses e efeitos especiais ficaram a cargo da equipe liderada por Alexis Stone.
Luxo distópico
Fundada em 2014 por Dalton e Bhaskaran, a Matières Fécales construiu reputação na moda por explorar o lado grotesco do corpo humano e provocar reflexões sobre comportamento, consumo e estética. A coleção de outono/inverno 2026, apresentada na temporada parisiense, foi batizada de “The One Percent” e funcionou como uma crítica à elite global e à obsessão contemporânea pela juventude eterna.
O desfile aconteceu no Palácio Brongniart, antiga bolsa de valores construída na época de Napoleão Bonaparte. O cenário reforçava a ideia de um “julgamento” simbólico da elite financeira.
Na passarela, a estética pós-humana característica da marca apareceu em diferentes formas. Além das maquiagens, algumas modelos usavam lentes completamente pretas e cabeças raspadas, elementos recorrentes da identidade visual da grife. Outras surgiam com máscaras feitas com notas de dólar.
Apesar do impacto visual das caracterizações, a coleção também apresentou peças mais discretas, que revelam a habilidade técnica dos designers. Entre elas estavam casacos de lã com zíper até o peito, suéteres canelados ajustados ao corpo, calças de corte reto e vestidos bomber de moletom com capuz. O tweed apareceu rasgado manualmente, em uma referência irônica à estética burguesa tradicional.
A coleção também trouxe detalhes de modelagem elaborados, como estruturas internas escondidas em saias e silhuetas aparentemente rígidas que, na prática, permitem mobilidade ao corpo. As referências dialogam com diferentes momentos da história da moda, incluindo ecos das criações de John Galliano na Dior e silhuetas que lembram o início da carreira de Demna Gvasalia na Balenciaga.
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