Alimentação

Entre benefícios e controvérsias: o impacto de pular o café da manhã no jejum intermitente

Nos últimos anos, o jejum intermitente ganhou espaço nas redes sociais, em consultórios e até em pesquisas acadêmicas. Em especial, na forma em que a pessoa passa a pular o café da manhã. Veja benefícios e controvérsias.

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Nos últimos anos, o jejum intermitente ganhou espaço nas redes sociais, em consultórios e até em pesquisas acadêmicas. Em especial, na forma em que a pessoa passa a pular o café da manhã. A promessa costuma ser simples: emagrecer, acordar o metabolismo e melhorar a saúde apenas concentrando as refeições em uma parte do dia. Na prática, o que acontece dentro do organismo é mais complexo e depende de fatores como idade, rotina de trabalho, nível de atividade física e histórico de saúde.

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Especialistas em nutrição chamam a atenção para um ponto central: não se trata apenas de comer menos, mas de alterar a janela em que o corpo recebe energia. Essa mudança mexe com hormônios ligados à fome, com a forma como o organismo usa a glicose e com o padrão de alimentação ao longo do dia. Assim, há estudos apontando benefícios em situações específicas, enquanto outras pesquisas sugerem que pular o café da manhã pode estar associado a desequilíbrios metabólicos em determinados grupos.

Nos últimos anos, o jejum intermitente ganhou espaço nas redes sociais, em consultórios e até em pesquisas acadêmicas. Em especial, na forma em que a pessoa passa a pular o café da manhã – depositphotos.com / Milkos

Jejum intermitente e metabolismo: o que muda quando a primeira refeição é adiada?

A palavra-chave em discussão é jejum intermitente, um padrão alimentar em que períodos sem comer se alternam com janelas de alimentação. Quando a pessoa pula o café da manhã, o corpo prolonga o período de jejum iniciado na noite anterior. Durante essas horas, o organismo reduz a liberação de insulina e passa a usar mais os estoques de glicogênio no fígado para manter a glicemia estável. Em jejum um pouco mais prolongado, há maior mobilização de gordura como fonte de energia.

Estudos publicados até 2026 indicam que esse ajuste hormonal pode favorecer um leve aumento da sensibilidade à insulina em algumas pessoas, pelo menos no curto prazo. No entanto, a resposta não é igual para todos. Em indivíduos com rotina muito ativa pela manhã ou em quem já tem resistência à insulina, pular a primeira refeição pode gerar quedas de glicose, sensação de fraqueza e dificuldade de concentração. Assim, a forma como a última refeição do dia é feita também influencia, já que um jantar muito pesado tende a piorar a qualidade do sono e interferir no controle metabólico no dia seguinte.

O que dizem as pesquisas sobre peso, saciedade e níveis de energia?

Parte da popularidade do jejum intermitente liga-se ao potencial para o controle de peso. Alguns ensaios clínicos comparando jejum com dietas tradicionais apontam que, quando a ingestão calórica é semelhante, a perda de peso costuma ser parecida. Em muitos casos, o que muda é a facilidade de reduzir calorias ao concentrar as refeições em menos horas do dia, algo que ajuda certas pessoas a comerem menos sem contar cada porção.

Em relação à saciedade, hormônios como grelina (ligada à fome) e leptina (associada à sensação de estar satisfeito) também sofrem ajustes. Em quem se adapta bem ao jejum, a fome matinal tende a diminuir após algumas semanas, e o organismo passa a responder melhor a refeições mais volumosas no meio do dia. Já em outras pessoas, especialmente quem tem histórico de compulsão alimentar, pular o café da manhã pode levar a episódios de alimentação exagerada no fim da tarde ou à noite, com preferência por alimentos mais gordurosos e açucarados.

Quanto aos níveis de energia e concentração, o quadro é variado. Alguns relatos clínicos sugerem que, após um período de adaptação, há sensação de maior foco nas primeiras horas do dia. Por outro lado, estudos observacionais mostram que parte dos indivíduos que não tomam café da manhã relata mais cansaço, irritação e queda de desempenho em tarefas que exigem atenção contínua, especialmente em jornadas de trabalho ou estudo muito longas.

Jejum intermitente faz mal à glicemia e ao cérebro ao pular o café da manhã?

O impacto do jejum intermitente na glicemia ainda é tema de debate. Em adultos saudáveis, com rotina organizada e alimentação equilibrada nas demais refeições, algumas pesquisas indicam melhora discreta na resposta à insulina e em marcadores de inflamação. Já em pessoas com diabetes tipo 2, pré-diabetes ou uso de certos medicamentos hipoglicemiantes, o prolongamento do jejum sem acompanhamento profissional pode aumentar o risco de hipoglicemias, tonturas e queda de desempenho cognitivo.

O cérebro depende de suprimento constante de energia. Em jejum curto, o organismo costuma dar conta de manter essa oferta por meio do glicogênio e, progressivamente, de corpos cetônicos, compostos produzidos a partir das gorduras. Em algumas pessoas, isso se traduz em sensação de clareza mental. Já em outras, principalmente em adolescentes, idosos e indivíduos com sono insuficiente, o prolongamento do jejum ao pular o café da manhã pode se associar a dor de cabeça, dificuldade de concentração e menor disposição para atividades intelectuais e físicas.

Como pular o café da manhã pode mudar o resto do dia?

Ao estender o jejum e adiar a primeira refeição, muitas pessoas acabam comprimindo as calorias diárias no período entre o meio do dia e a noite. Isso pode levar a um padrão de comer grandes volumes em poucas refeições, o que sobrecarrega a digestão e, em parte dos casos, favorece azia, refluxo e sensação de estufamento, sobretudo quando o jantar se torna a refeição mais pesada.

Em relação aos hábitos alimentares, pesquisas em nutrição comportamental mostram que horários irregulares de alimentação podem aumentar a tendência a beliscar alimentos ultraprocessados, especialmente no fim do dia, quando o cansaço é maior. Por outro lado, quem segue protocolos de jejum intermitente com orientação costuma organizar melhor o planejamento das refeições, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados para evitar sensação de fome extrema na janela de alimentação.

  • Em pessoas jovens e fisicamente ativas, o jejum tende a ser melhor tolerado.
  • Entre idosos, há maior risco de perda de massa muscular se a ingestão proteica não for adequada.
  • Em indivíduos com rotina noturna, a janela de alimentação precisa ser ajustada ao horário de sono.
  • Para quem faz exercícios intensos pela manhã, pular o café pode exigir adaptação específica.
quem segue protocolos de jejum intermitente com orientação costuma organizar melhor o planejamento das refeições, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados para evitar sensação de fome extrema na janela de alimentação – depositphotos.com / Piscine

Por que o jejum intermitente virou tendência e quem deve ter mais cuidado?

A popularização do jejum intermitente se explica por diversos fatores: disseminação em redes sociais, promessa de resultados rápidos, simplicidade aparente (comer em menos horas do dia) e conexão com uma ideia de retorno a padrões alimentares ancestrais. A literatura científica, no entanto, ainda está em construção, com muitos estudos de curto prazo e amostras específicas, o que exige cautela na generalização dos resultados.

Nutricionistas e médicos costumam destacar grupos que merecem atenção redobrada ao pular o café da manhã de forma regular:

  1. Gestantes e lactantes: maior demanda energética e de nutrientes.
  2. Adolescentes: fase de crescimento acelerado e alta carga escolar.
  3. Idosos: risco aumentado de desnutrição e perda de massa muscular.
  4. Pessoas com diabetes ou uso de medicamentos que alteram a glicemia.
  5. Indivíduos com histórico de transtornos alimentares.

Nesses casos, a restrição de horários pode agravar desequilíbrios já existentes. Mesmo em adultos saudáveis, especialistas costumam enfatizar que a qualidade do que se come fora do período de jejum é tão relevante quanto o intervalo sem alimentos. Planejamento das refeições, consumo adequado de proteínas, fibras, vitaminas e minerais, além de sono regular e prática de atividade física, aparecem como pontos decisivos para que o jejum intermitente, com ou sem café da manhã, seja avaliado de forma segura.

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Diante das evidências atuais, o ato de pular o café da manhã no contexto do jejum intermitente não apresenta o mesmo efeito para todas as pessoas. O que se observa é um conjunto de respostas metabólicas que variam conforme rotina, genética, estado de saúde e estilo de vida. Por isso, a adoção desse padrão alimentar costuma ser discutida caso a caso, com acompanhamento profissional, evitando promessas únicas e considerando tanto os potenciais benefícios quanto os riscos e controvérsias descritos na literatura científica.

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