Uma placa romana de chumbo achada sob uma praça de Heerlen, nos Países Baixos, traz um pedido a deuses e demônios. Datada do século 2, apresenta escrita em grego antigo e sinais de magia de estilo egípcio. Fotografias com luz variável revelaram marcas invisíveis. O destinatário da maldição é incerto.
A placa romana apareceu sob uma praça atual
A peça surgiu numa escavação em uma cavidade sob a praça da prefeitura de Heerlen, nos Países Baixos. Na época romana, a região abrigava o assentamento de Coriovallum. O objeto mede apenas 9,3 por 4,8 centímetros e passou muito tempo escondido no solo.
Segundo a Universidade de Heidelberg, pesquisadores identificaram uma inscrição em grego antigo, algo pouco comum nas placas desse tipo achadas no norte da Europa. A descoberta amplia o conjunto de vestígios da vida romana fora da Itália, embora não revele quem enterrou o objeto.

Para que serviam essas placas de maldição?
Esses objetos eram conhecidos como placas de maldição. Muitas recebiam pedidos para prender simbolicamente um adversário, prejudicar um rival ou influenciar uma disputa. O chumbo era fácil de marcar, e seu uso estava ligado à ideia de limitar a ação de alguém.
As palavras gravadas não provam que a magia funcionasse. Elas mostram, porém, que algumas pessoas recorriam a práticas religiosas e mágicas para enfrentar conflitos. Competições, relações pessoais e disputas na Justiça aparecem entre os contextos conhecidos dessas peças em diferentes regiões do mundo antigo.
A inscrição mistura referências culturais distintas
A placa de Heerlen chama atenção pelo grego antigo usado em estilo egípcio. Entre os sinais existem três símbolos mágicos, chamados de characteres. Para os estudiosos, essa combinação sugere a circulação de crenças e modos de escrever por regiões distantes do Império Romano.
Na parte identificada pelos pesquisadores aparecem dois nomes masculinos latinos e dois femininos gregos. As quatro pessoas são descritas como escravizadas. Não está decidido se eram os alvos do pedido ou se a maldição foi feita em nome delas contra uma quinta pessoa.
Como fotografias revelaram riscos quase invisíveis?
O desgaste tornou várias marcas difíceis de observar diretamente. A equipe recorreu à fotografia com iluminação em diferentes direções, conhecida pela sigla RTI. O método reúne registros da mesma superfície sob várias luzes, deixando relevos finos mais fáceis de perceber na análise digital.
- Registro: fotografar a peça sem alterar seus sulcos.
- Iluminação: mudar a posição da luz para destacar os riscos.
- Comparação: observar as marcas em várias condições.
- Leitura: confrontar letras, nomes e símbolos com outros registros antigos.
O guia técnico da Historic England sobre imagens com luz variável explica esse tipo de documentação. A técnica torna marcas visíveis sem inventar letras; a interpretação do significado continua dependente do estudo da língua, do contexto e das partes preservadas.

O achado mostra contatos entre crenças antigas
As referências egípcias em uma inscrição grega encontrada no norte da Europa indicam que ideias religiosas circularam pelo Império Romano. Pessoas de diferentes origens conviviam em cidades e assentamentos, levando consigo nomes, símbolos e formas de procurar proteção ou agir contra adversários.
Isso não basta para apontar a origem de quem escreveu a maldição. Uma das hipóteses levantadas é que uma mulher envolvida conhecesse práticas ligadas ao Egito romano. Os pesquisadores apresentam essa possibilidade com cautela, pois a autoria e o motivo exato não foram demonstrados.
O que ainda falta descobrir sobre a placa?
A universidade informou que a inscrição deve integrar uma publicação científica e que havia planos de mostrar o objeto no museu de Heerlen. A pesquisa documental ainda pode esclarecer trechos, mas não há prova de que os nomes correspondam a autores, vítimas ou participantes de uma mesma disputa.
O valor da descoberta está no registro de crenças pessoais em uma cidade romana, preservado numa peça pequena e difícil de ler. Mesmo sem identificar o rival, ela oferece pistas sobre pessoas que tentavam lidar com problemas por meio de palavras e símbolos enterrados no chão.
Sua história pode virar reportagem
Conte por texto ou áudio — nomes e endereços viram fictícios antes de qualquer publicação.




