O pente cananeu de marfim encontrado em Laquis, com 3.700 anos, guardava um pedido: eliminar piolhos do cabelo e da barba. Escavado em 2017, teve a inscrição identificada somente em 2022. A mensagem preserva 17 sinais organizados em sete palavras, permitindo estudar a escrita alfabética em atividades cotidianas.
Por que a inscrição passou despercebida durante anos?
O pequeno pente foi retirado do sítio arqueológico de Tel Laquis, em Israel, por uma equipe internacional em 2017. As marcas eram tão rasas que não foram notadas de imediato. A pesquisadora Madeleine Mumcuoglu percebeu as letras durante o exame posterior da peça, em 2022.
Segundo a Universidade Hebraica de Jerusalém, o pente mede apenas 3,5 por 2,5 centímetros. Algumas letras têm entre um e três milímetros de largura. A limpeza e a observação cuidadosa ajudaram a revelar uma mensagem que havia sobrevivido apesar do desgaste do marfim.

O que estava escrito no pente cananeu?
A inscrição reúne 17 letras e sete palavras. Na tradução apresentada pelos pesquisadores, a frase pede que a presa de marfim elimine os piolhos do cabelo e da barba. Trata-se de um desejo ligado à higiene, e não de um relato de batalha ou de uma ordem oficial.
O estudo publicado no Jerusalem Journal of Archaeology apresenta a leitura e discute as formas antigas das letras. A descoberta é descrita como a primeira frase completa em cananeu encontrada em Israel. Isso não significa que seja a primeira frase escrita por qualquer povo da Antiguidade.
O objeto também mostra como se retiravam piolhos
O pente tinha dois lados com dentes diferentes. Um lado possuía seis dentes mais grossos para desembaraçar fios. O outro tinha 14 dentes finos, adequados à retirada de parasitas. As pontas se perderam na Antiguidade, mas as bases ficaram preservadas e permitem reconstruir seu formato.
- Material: marfim retirado de presa de elefante.
- Dentes grossos: seis posições usadas para desembaraçar fios.
- Dentes finos: 14 posições voltadas aos parasitas.
- Vestígio: restos microscópicos de um piolho jovem.
No exame microscópico, os pesquisadores identificaram restos do revestimento de um piolho com cerca de 0,5 a 0,6 milímetro. É uma evidência física compatível com o uso do objeto. O achado não permite saber quem era seu dono nem se o pedido gravado funcionou.
Por que uma frase comum importa para a história da escrita?
Na época do pente, a escrita alfabética da região ainda tinha formas antigas e pouco documentadas. Muitos registros conhecidos são curtos. Uma frase inteira permite observar palavras lado a lado, comparando estrutura, vocabulário e sinais. O sítio de Laquis, antiga cidade cananeia oferece contexto para essa pesquisa.
O tema também chama atenção: alguém escolheu gravar um pedido sobre piolhos num utensílio pequeno. Um exemplo de escrita cotidiana pode esclarecer aspectos da língua que não aparecem apenas em inscrições de reis. Outro objeto antigo com mensagem pessoal ilustra como palavras sobrevivem em peças simples.

O marfim revela uma preocupação compartilhada por diferentes grupos
O marfim era um material caro, e a equipe considera provável que o pente tenha sido um objeto de luxo importado. Isso sugere acesso a bens valiosos, mas não revela a identidade ou a posição exata de quem usava a peça. Piolhos atingiam diferentes pessoas, inclusive quem tinha recursos.
A existência dos dois tipos de dentes mostra uma resposta prática ao incômodo. Já a frase indica que a pessoa responsável pela gravação associava o objeto a um resultado desejado. Assim, a descoberta une uma preocupação corporal familiar à história de um dos primeiros alfabetos da região.
A descoberta segue aberta a novas comparações
Especialistas ainda podem comparar o formato dos sinais com outras inscrições cananeias e estudar o desgaste do pente. Métodos modernos também revelam marcas discretas em outros materiais, como nos desenhos antigos identificados por escaneamento em paredes de pedra. Cada registro acrescenta informações que um único objeto não consegue oferecer.
O mais revelador continua sendo o encontro entre linguagem e vida diária. Guardada em poucos centímetros de marfim, a frase de cerca de 3.700 anos registra um desejo compreensível hoje: tirar os piolhos do cabelo e da barba, sem que saibamos quem fez o pedido.
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