As sandálias de fibras vegetais encontradas na Cueva de los Murciélagos, no sul da Espanha, têm cerca de 6.200 anos. Uma pesquisa de 2023 examinou como o esparto foi trabalhado para fabricar esses calçados e mostrou por que o ambiente da caverna conservou materiais que normalmente desaparecem com o tempo.
Por que havia sandálias tão antigas nessa caverna espanhola?
A Cueva de los Murciélagos, próxima a Albuñol, na província espanhola de Granada, guardava sandálias confeccionadas no Neolítico. O estudo publicado em 2023 na revista Science Advances reexaminou peças de uma coleção arqueológica que também inclui cestos, cordas e objetos de madeira.
A investigação reuniu 76 objetos orgânicos recuperados durante atividades de mineração do século XIX. Pesquisadores das universidades de Alcalá e Autônoma de Barcelona analisaram matérias-primas, técnicas e datas. Os calçados não foram fabricados há 9.500 anos: essa idade corresponde a peças de cestaria mais antigas do conjunto.

Como o esparto era transformado em calçados resistentes?
Para montar as sandálias, os artesãos utilizavam esparto, uma fibra obtida de gramíneas da região mediterrânea. Torcer e entrelaçar feixes vegetais permitia formar solas, laços e pontos de fixação. A aparência ainda lembra calçados simples usados em diferentes épocas.
O estudo The earliest basketry in southern Europe: Hunter-gatherer and farmer plant-based technology in Cueva de los Murciélagos (Albuñol) compara formas de trabalho da fibra. As análises identificaram variações de preparo e trançado, indicando conhecimento técnico acumulado, não uma simples amarração improvisada.
O que permitiu preservar fibras vegetais durante milênios?
Essas fibras teriam se degradado com facilidade em um ambiente úmido. Na caverna de Albuñol, condições secas favoreceram a permanência de materiais frágeis. A preservação permitiu observar detalhes da confecção que geralmente não aparecem em escavações de assentamentos pré-históricos.
Nem todos os exemplares estão igualmente conservados, e a presença de um calçado não informa, sozinha, quem o vestiu. O valor científico está na estrutura das fibras e na comparação com os demais artefatos, que ajudam a identificar escolhas de matéria-prima e de fabricação.
A seguir listamos quatro condições e cuidados de análise que ajudam a explicar a conservação dos calçados:
- Ambiente seco: reduziu processos que costumam degradar fibras e outros vestígios vegetais depois do descarte.
- Material orgânico: o esparto conservado permite estudar o preparo das fibras, algo normalmente perdido em solos úmidos.
- Documentação histórica: registros antigos ajudam a reconstruir a origem de peças retiradas durante a mineração.
- Datação por carbono: permite diferenciar as sandálias neolíticas de cestas mais antigas da mesma coleção.

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Que detalhes da trama revelam o trabalho dos artesãos?
As tramas mostram que preparar a fibra era parte do trabalho, não apenas entrelaçá-la. O comprimento dos feixes, o modo de uni-los e os pontos destinados a segurar o pé influenciavam o resultado. Esses sinais podem ser reconhecidos mesmo após milhares de anos.
A mesma coleção contém peças associadas a períodos diferentes. As cestas mesolíticas chegam a aproximadamente 9.500 anos, enquanto as sandálias pertencem a fases neolíticas posteriores. A comparação aponta mudanças nas técnicas, sem afirmar que todos os objetos foram produzidos pela mesma comunidade.
A seguir listamos quatro vestígios e suas pistas sobre o domínio de materiais vegetais na pré-história:
| Vestígio | O que foi observado | O que permite investigar |
|---|---|---|
| Sandálias | Solas e amarrações de esparto | Construção e fixação no pé |
| Cestos | Tramas vegetais de períodos anteriores | Técnicas de coleta e armazenamento |
| Cordas | Fibras torcidas ou entrelaçadas | Maneiras de unir materiais |
| Peças de madeira | Objetos associados ao conjunto | Diversidade de utensílios |
O que essas sandálias mudam no conhecimento da pré-história?
Os calçados demonstram que a tecnologia pré-histórica também estava presente em objetos feitos para necessidades diárias. Antes das máquinas e dos tecidos industriais, pessoas conheciam as propriedades de plantas e conseguiam convertê-las em peças ajustadas ao corpo.
Ao conservar solas e amarrações reconhecíveis, a caverna espanhola aproxima a pesquisa arqueológica de algo familiar: proteger os pés. O achado não revela o nome de quem usou as sandálias, mas preserva decisões práticas tomadas por artesãos há cerca de 6.200 anos.
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