Imagine receber uma autobiografia escrita por alguém que já morreu. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis entrega a narração a um homem que começa pelo próprio funeral. A estranheza ganha outro sentido quando o personagem relembra a vida com humor e expõe, sem perceber, suas próprias vaidades.
Como um homem morto começa a contar a própria vida?
No capítulo primeiro, chamado “Óbito do autor”, Brás Cubas explica que preferiu começar pela morte, e não pelo nascimento. O narrador descreve o próprio funeral e relembra a vida que levou, fazendo uma escolha impossível para uma autobiografia comum.
A edição histórica do Project Gutenberg conserva a grafia antiga do romance de 1881. O ponto decisivo é a diferença entre ter escrito um livro e estar morto ou, como acontece aqui, ser um morto que só depois conta a própria história.

A expressão defunto autor muda o ponto de vista
Brás Cubas afirma que não é propriamente um “autor defunto”, mas “um defunto autor”. A inversão parece simples, porém muda a regra da narrativa: ele não escreve antes de morrer. Na ficção, é a morte já ocorrida que lhe permite contar tudo.
A frase é do personagem Brás Cubas, criado por Machado de Assis. Ela não descreve a vida do escritor. O recurso também ajuda a entender por que o narrador interrompe lembranças, comenta pessoas e fala diretamente com quem acompanha sua versão.
Por que essa autobiografia não segue a ordem comum?
Em vez de apresentar uma vida desde a infância, o personagem começa pelo fim e depois percorre acontecimentos anteriores. A história foi publicada em capítulos na Revista Brasileira em 1880 e virou livro em 1881, conforme explica a Editora da Universidade Federal da Fronteira Sul.
- Começo: primeiro vêm a morte e o enterro.
- Memórias: a infância e os amores são contados depois.
- Interrupções: Brás Cubas comenta a forma de narrar.
- Ironia: suas justificativas revelam interesses próprios.
Essas escolhas fazem o livro parecer uma conversa cheia de desvios. Quem conta o passado não é um juiz imparcial: é o próprio protagonista, que seleciona cenas, valoriza conquistas e tenta orientar a imagem que deixará de si.
O narrador expõe vaidades e privilégios
Brás Cubas pertence a uma família rica do Rio de Janeiro e fala de amores, ambições políticas e vontade de ser lembrado. Ao contar essas experiências, deixa aparecer a vida de uma elite que convivia com grandes diferenças sociais no Brasil do século XIX.
Suas relações e atitudes também mostram a presença da escravidão na sociedade retratada. É importante não tomar suas opiniões como verdades do romance: a distância entre o que ele pensa e o que suas ações revelam faz parte da crítica construída por Machado.

Como o romance de 1881 mistura humor e desconforto?
Na história de Memórias Póstumas de Brás Cubas, aparecem tanto a publicação original quanto o lugar do romance na literatura brasileira. A linguagem mistura observações engraçadas com episódios difíceis, e a liberdade do narrador torna as duas sensações possíveis.
Até a dedicatória é incomum: Brás Cubas se dirige ao verme que primeiro consumiu seu corpo. A imagem prepara um mundo em que morte e humor convivem. O exagero não apaga o peso das desigualdades e das relações humanas apresentadas no decorrer da obra.
A primeira frase importante continua provocando dúvidas
A ideia de um defunto que escreve ajuda a entender por que o livro não funciona como relato fiel de uma vida real. O narrador escolhe o que mostrar, faz comentários inconvenientes e dá ao próprio passado uma forma que pode favorecê-lo.
Ao trocar a ordem das palavras, Machado cria uma diferença enorme entre duas posições: um escritor morto e um morto que escreve. É essa voz, ao mesmo tempo próxima e difícil de confiar, que sustenta a ironia de Memórias póstumas de Brás Cubas até o fim.
Sua história pode virar reportagem
Conte por texto ou áudio — nomes e endereços viram fictícios antes de qualquer publicação.




