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Machado de Assis colocou um narrador morto para falar com o leitor em Memórias póstumas: a frase que muda o sentido de uma autobiografia

Guilherme Araújo Por Guilherme Araújo
04/11/2026
Em Curiosidades
O escritor brasileiro surpreende ao entregar a narrativa a alguém que já não faz parte do mundo dos vivos

O escritor brasileiro surpreende ao entregar a narrativa a alguém que já não faz parte do mundo dos vivos

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Em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, o narrador começa pelo próprio funeral e conta a vida depois de morto.↓ Ver no artigo
Brás Cubas diz ser um “defunto autor”, e não um “autor defunto”, invertendo a lógica de uma autobiografia comum.↓ Ver no artigo
O romance foi publicado em capítulos na Revista Brasileira em 1880 e lançado em livro em 1881.↓ Ver no artigo

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Imagine receber uma autobiografia escrita por alguém que já morreu. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis entrega a narração a um homem que começa pelo próprio funeral. A estranheza ganha outro sentido quando o personagem relembra a vida com humor e expõe, sem perceber, suas próprias vaidades.

Como um homem morto começa a contar a própria vida?

No capítulo primeiro, chamado “Óbito do autor”, Brás Cubas explica que preferiu começar pela morte, e não pelo nascimento. O narrador descreve o próprio funeral e relembra a vida que levou, fazendo uma escolha impossível para uma autobiografia comum.

A edição histórica do Project Gutenberg conserva a grafia antiga do romance de 1881. O ponto decisivo é a diferença entre ter escrito um livro e estar morto ou, como acontece aqui, ser um morto que só depois conta a própria história.

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A expressão defunto autor muda o ponto de vista

Brás Cubas afirma que não é propriamente um “autor defunto”, mas “um defunto autor”. A inversão parece simples, porém muda a regra da narrativa: ele não escreve antes de morrer. Na ficção, é a morte já ocorrida que lhe permite contar tudo.

A frase é do personagem Brás Cubas, criado por Machado de Assis. Ela não descreve a vida do escritor. O recurso também ajuda a entender por que o narrador interrompe lembranças, comenta pessoas e fala diretamente com quem acompanha sua versão.

Por que essa autobiografia não segue a ordem comum?

Em vez de apresentar uma vida desde a infância, o personagem começa pelo fim e depois percorre acontecimentos anteriores. A história foi publicada em capítulos na Revista Brasileira em 1880 e virou livro em 1881, conforme explica a Editora da Universidade Federal da Fronteira Sul.

Essa estrutura aparece em escolhas concretas:
  • Começo: primeiro vêm a morte e o enterro.
  • Memórias: a infância e os amores são contados depois.
  • Interrupções: Brás Cubas comenta a forma de narrar.
  • Ironia: suas justificativas revelam interesses próprios.

Essas escolhas fazem o livro parecer uma conversa cheia de desvios. Quem conta o passado não é um juiz imparcial: é o próprio protagonista, que seleciona cenas, valoriza conquistas e tenta orientar a imagem que deixará de si.

O narrador expõe vaidades e privilégios

Brás Cubas pertence a uma família rica do Rio de Janeiro e fala de amores, ambições políticas e vontade de ser lembrado. Ao contar essas experiências, deixa aparecer a vida de uma elite que convivia com grandes diferenças sociais no Brasil do século XIX.

Suas relações e atitudes também mostram a presença da escravidão na sociedade retratada. É importante não tomar suas opiniões como verdades do romance: a distância entre o que ele pensa e o que suas ações revelam faz parte da crítica construída por Machado.

O humor e a ironia aparecem desde as primeiras páginas e ajudam a definir o tom da obra

Como o romance de 1881 mistura humor e desconforto?

Na história de Memórias Póstumas de Brás Cubas, aparecem tanto a publicação original quanto o lugar do romance na literatura brasileira. A linguagem mistura observações engraçadas com episódios difíceis, e a liberdade do narrador torna as duas sensações possíveis.

Até a dedicatória é incomum: Brás Cubas se dirige ao verme que primeiro consumiu seu corpo. A imagem prepara um mundo em que morte e humor convivem. O exagero não apaga o peso das desigualdades e das relações humanas apresentadas no decorrer da obra.

A primeira frase importante continua provocando dúvidas

A ideia de um defunto que escreve ajuda a entender por que o livro não funciona como relato fiel de uma vida real. O narrador escolhe o que mostrar, faz comentários inconvenientes e dá ao próprio passado uma forma que pode favorecê-lo.

Ao trocar a ordem das palavras, Machado cria uma diferença enorme entre duas posições: um escritor morto e um morto que escreve. É essa voz, ao mesmo tempo próxima e difícil de confiar, que sustenta a ironia de Memórias póstumas de Brás Cubas até o fim.

Sua história pode virar reportagem

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Tags: Brás CubasliteraturaMachado de Assisromance

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