Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume a passagem do tempo numa máxima incômoda. “Matamos o tempo; o tempo nos enterra” lembra que podemos preencher as horas, nunca controlar seu avanço. A ideia junta ironia, finitude e a percepção de que o tempo vivido desaparece irreversivelmente.
Onde aparece a frase de Machado de Assis?
O trecho está no capítulo CXIX de Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance publicado em livro em 1881. Ali, Brás Cubas abre um parêntese para reunir pequenas máximas. A frase sobre o tempo surge nesse conjunto, cercada por observações curtas, irônicas e deliberadamente provocadoras.
A Academia Brasileira de Letras também registra a máxima ao comentar a obra machadiana. Isso importa porque a frase não nasceu como conselho motivacional isolado: ela faz parte da voz de um narrador que observa a vida com humor, distância e pessimismo.

Por que o verbo “matar” muda o peso da frase?
O primeiro movimento usa uma expressão comum: “matar o tempo” significa preencher horas vazias ou esperar algo passar. Machado pega essa fala cotidiana e a devolve de modo literal. De repente, o tempo deixa de ser algo passivo e aparece como força maior que continua avançando, independentemente do que fazemos.
O segundo movimento inverte a relação: quem parecia controlar as horas termina controlado por elas. A força está nessa troca rápida de posições. Em poucas palavras, a frase lembra que distrações podem ocupar o dia, mas não suspendem envelhecimento, mudanças, perdas nem o limite da própria existência.
O que a frase diz sobre desperdiçar o tempo?
A máxima não afirma que todo descanso é desperdício. O alvo é mais amplo: a ilusão de que o tempo pode ser tratado como algo descartável. Quando dizemos que queremos “matar” alguns minutos, a frase machadiana chama atenção para o valor de algo que não pode ser recuperado depois.
Por isso, a leitura mais útil está em observar prioridades, não em transformar cada minuto em produtividade. O tempo pode ser usado para trabalhar, conversar, descansar ou simplesmente estar presente. O ponto é perceber que ele passa em qualquer cenário e não retorna para ser usado outra vez.
A seguir listamos 4 sinais práticos que ajudam a reconhecer como esse sentido aparece no cotidiano:
- Esperas vazias: preencher minutos sem perceber pode virar hábito e consumir horas inteiras.
- Adiamentos: deixar sempre para depois faz o futuro carregar tarefas e escolhas que poderiam ter começado antes.
- Descanso consciente: parar por escolha é diferente de perder tempo sem perceber onde ele foi.
- Prioridades: dar atenção ao que importa reduz a sensação de que os dias simplesmente desapareceram.
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Como a ironia transforma uma ideia simples em reflexão?
A construção funciona porque coloca duas imagens opostas na mesma linha: matar e ser enterrado. A primeira parece leve, quase uma expressão automática. A segunda lembra morte e finitude. O salto entre as duas provoca surpresa e faz a frase parecer maior do que seu tamanho.
Um estudo publicado na Machado de Assis em Linha destaca justamente essa máxima ao discutir escolhas de tradução de Memórias Póstumas. A atenção dada ao contraste mostra como poucas palavras carregam ritmo, reversão e ironia ao mesmo tempo.
A seguir listamos 4 relações centrais que organizam a ideia discutida nessa parte:
| Trecho | Imagem | Efeito |
|---|---|---|
| “Matar o tempo” | Ocupar horas vazias | Sensação de controle |
| “O tempo” | Força que continua avançando | Perda desse controle |
| “Nos enterra” | Fim inevitável da vida | Choque e finitude |
| Frase completa | Inversão em duas partes | Ironia memorável |
Por que a frase continua fácil de reconhecer hoje?
A frase permanece atual porque a sensação de que os dias passam rápido atravessa épocas. Mudam as distrações, os trabalhos e as tecnologias, mas continua familiar a experiência de chegar ao fim de um período e perceber que ele parece ter desaparecido antes que pudéssemos acompanhá-lo.
O valor da máxima está menos em mandar fazer algo e mais em mudar a perspectiva. Machado transforma uma expressão banal em lembrete de finitude: podemos escolher como ocupar o tempo, mas não podemos pará-lo. Essa tensão explica por que a frase continua voltando quando pensamos na passagem dos dias.
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