Há cerca de 3.200 anos, trabalhadores de Deir el-Medina já tinham faltas registradas por escrito. O ostracon EA5634 reúne 280 dias de controle, nomes, datas e motivos anotados em vermelho, incluindo doença, tarefas particulares e até produção de cerveja, num retrato raro da rotina de trabalho no Egito Antigo.
O que era esse registro de faltas do Egito Antigo?
O objeto veio de Deir el-Medina, aldeia de artesãos ligados às tumbas reais. O ostracon EA5634 é um fragmento de calcário escrito em hierático e usado como registro administrativo durante a 19ª Dinastia.
A peça traz quarenta nomes em colunas, datas em tinta preta e razões de ausência em vermelho. Esse arranjo permitia acompanhar quem trabalhava e por que alguém não aparecia, criando um retrato muito concreto da organização diária de uma equipe especializada.

Como sabemos que o documento cobria 280 dias?
A ficha do British Museum descreve o objeto como um registro de trabalhadores por 280 dias. O museu acrescenta que somente cerca de 70 desses dias parecem ter sido dias completos de trabalho, informação que mostra uma rotina muito diferente de uma semana moderna.
O documento não registra um episódio isolado. Ele acompanha meses de atividade, permitindo observar repetição de doenças, serviços particulares e outras ausências. Por isso, sua importância está tanto na idade quanto na continuidade das anotações ao longo de um período extenso.
Quais motivos aparecem nas faltas dos trabalhadores?
O estudo de Jac J. Janssen examina as ausências dos trabalhadores da necrópole tebana. No EA5634, doença aparece mais de cem vezes, incluindo problemas nos olhos e até uma picada de escorpião.
Também surgem cuidados com pessoas doentes, serviços para superiores e tarefas pessoais. Registros de Deir el-Medina incluem ainda produção de cerveja, lembrando que preparar alimentos e bebidas fazia parte das obrigações domésticas que podiam competir com o trabalho oficial.
A seguir listamos quatro tipos de justificativa que mostram como saúde, casa e serviço apareciam misturados nesses registros antigos:
- Doença: enfermidades formam o grupo de ausências mais frequente no documento.
- Cuidados: alguns trabalhadores faltavam para acompanhar outra pessoa doente.
- Serviços: tarefas particulares para superiores também podiam afastar alguém do trabalho.
- Cerveja: produzir a bebida aparece entre atividades documentadas na rotina de Deir el-Medina.
Leia também: Nova análise revela que um bumerangue de 72 centímetros feito de marfim de mamute pode ter até 42 mil anos

Isso funcionava como um ponto de funcionários moderno?
A comparação ajuda a visualizar o objeto, mas não era um cartão de ponto moderno. O controle fazia parte da administração de artesãos ligados às obras funerárias reais e obedecia a calendários, hierarquias e práticas próprias do Egito do Novo Império.
Ainda assim, a semelhança cotidiana chama atenção. Há nome, data e justificativa, elementos reconhecíveis em controles de trabalho atuais. A diferença principal está no suporte: em vez de aplicativo ou formulário, as informações foram preservadas num pedaço de calcário escrito à mão.
A seguir listamos quatro elementos do registro que aproximam esse documento antigo de controles administrativos reconhecíveis hoje:
| Elemento | Como aparecia | Função |
|---|---|---|
| Trabalhador | Lista de nomes | Identificar a pessoa |
| Data | Tinta preta | Marcar o dia |
| Motivo | Tinta vermelha | Explicar a ausência |
| Período | 280 dias | Acompanhar a rotina |
Por que esse ostracon revela tanto sobre a vida cotidiana?
Grandes monumentos mostram poder e religião, enquanto o EA5634 preserva problemas comuns de trabalhadores. Doenças, cuidados, tarefas particulares e produção doméstica aparecem lado a lado, permitindo reconstruir uma rotina que dificilmente caberia em inscrições oficiais feitas para celebrar reis.
O detalhe mais forte é sua familiaridade. O registro de 280 dias mostra que administrar pessoas também significava anotar por que alguém não apareceu. Entre doenças, picadas e produção de cerveja, o Egito Antigo surge menos distante e muito mais humano.
Sua história pode virar reportagem
Conte por texto ou áudio — nomes e endereços viram fictícios antes de qualquer publicação.




