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Quem cresceu nos anos 1960 conhece bem esta liberdade que desapareceu com o tempo e hoje desperta nostalgia em milhões de pessoas

André Rangel  Por André Rangel 
13/06/2026
Em Notícias, Saúde
Por que brincar na rua ajudava mais do que muitos imaginavam

Por que brincar na rua ajudava mais do que muitos imaginavam

Quem cresceu nos anos 1960 lembra com precisão estranha os detalhes daquele arranjo: sair depois do café, negociar com a turma do quarteirão o que jogar, resolver brigas sem adulto por perto e voltar quando a iluminação pública acendia. Não havia GPS, celular, nem supervisão adulta. Havia confiança. E, segundo o psicólogo social Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa (2024), o desaparecimento desse modelo de infância não foi um progresso em segurança. Foi uma das causas mais documentadas da crise de saúde mental que aflige a geração nascida depois de 1995.

Como funcionava a estrutura daquela infância livre

A brincadeira não supervisionada dos anos 1960 tinha lógica interna precisa. Crianças de idades diferentes conviviam no mesmo grupo: os mais velhos desenvolviam autoridade e responsabilidade real sobre os menores, e estes aprendiam com quem tinha mais experiência. Conflitos eram resolvidos na hora, por quem estava presente. Tédio se transformava em invenção sem adulto intermediando. Segundo Haidt, em entrevista à American Medical Association, a pesquisa aponta que a brincadeira mais saudável para o desenvolvimento é exatamente essa: não supervisionada, ao ar livre, com grupos de idades mistas, em que conflitos e riscos são administrados pelas próprias crianças.

Por que brincar na rua ajudava mais do que muitos imaginavam
Por que brincar na rua ajudava mais do que muitos imaginavam

O que a pesquisa diz sobre o impacto dessa brincadeira no desenvolvimento

A Harvard T.H. Chan School of Public Health, ao analisar o trabalho de Haidt, destaca que uma infância com autonomia real “configura o cérebro em modo de descoberta, com sistema de vinculação bem desenvolvido e capacidade de lidar com riscos do cotidiano”. O oposto produz o que Haidt chama de quatro danos fundamentais: privação social, fragmentação da atenção, perturbação do sono e comportamento aditivo digital. Os dados são claros: ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes mais que dobraram em muitas métricas após 2012, ano em que a infância baseada em brincadeiras começou a ser substituída em escala pela infância baseada em telas.

Por que a liberdade de brincar foi desaparecendo gradualmente

A liberdade não foi retirada por decreto. Ela se esvaziou, família por família. Haidt localiza a virada nos anos 1990, quando cobertura jornalística 24 horas, o pânico em torno do perigo de estranhos e uma cultura de parentalidade intensiva alteraram a percepção de risco. O que é crítico: as taxas reais de sequestro infantil não mudaram significativamente naquele período. O medo mudou. O comportamento seguiu. Uma vez que a proteção excessiva se normalizou, sair dela passou a ser lido como irresponsabilidade e não como escolha embasada em evidências. O sistema dependia de participação coletiva: quando famílias suficientes pararam, o bairro esvaziou de crianças. As luzes da rua continuaram acendendo. Não havia mais ninguém esperando por elas.

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Por que brincar na rua ajudava mais do que muitos imaginavam
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O que foi perdido e não se recupera sem condições reais para isso

A habilidade que aquela infância construía não tem equivalente adulto fácil: ser responsável pelo próprio dia, pelo próprio entretenimento, pelos próprios conflitos. Segundo análise publicada no SAGE Journals, crianças em infância baseada em brincadeiras operam em “modo de descoberta”, explorando relações e ambiente físico por atividades não supervisionadas. Esse modo produz adultos que toleram o tédio sem desestabilizar, navegam conflitos sem árbitro e encontram algo útil para fazer com uma tarde sem agenda.

O que os pais podem fazer diante desse diagnóstico em 2026

Haidt propõe quatro normas concretas: sem smartphone antes do ensino médio, sem redes sociais antes dos 16 anos, escolas livres de celular e mais autonomia e brincadeira não supervisionada. A organização The Anxious Generation Movement, cofundada por ele, trabalha para que essas normas se tornem padrão social e não apenas escolhas individuais isoladas, porque o problema, como o arranjo das luzes da rua, sempre foi coletivo por natureza.

Se você tem filhos em idade de brincar e há espaço físico seguro perto de casa, o primeiro passo não é uma conversa difícil: é abrir a porta e deixar sair. A pesquisa é clara sobre o que acontece com crianças que têm esse espaço. E é igualmente clara sobre o que acontece com as que não têm.

Tags: anos 60Ansiedadeansiedade infantilCriançasinfânciapsicologiasaúde mental

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