Uma lua em quarto crescente e uma estrela talhada em um paredão de um vermelho intenso dão as boas-vindas a quem desce as escadarias em direção ao mar. Canoa Quebrada, no litoral leste do Ceará, veio ao mundo como uma simples vila de pescadores, foi revelada ao mundo por cineastas que faziam parte da Nouvelle Vague francesa lá nos anos 1960, transformou-se em um refúgio hippie na década seguinte e, hoje em dia, recebe gente de todos os cantos do planeta sem jamais ter perdido aquele ar de liberdade que a marcou desde o seu começo.
O naufrágio de 1650 que batizou a praia
A explicação para o nome da praia nos leva de volta ao século XVII. No ano de 1650, o navegador português Francisco Soares da Cunha viu sua embarcação encalhar na costa que fica entre Ponta Grossa e Aracati, enquanto ele se dedicava a mapear aquela região. Sem ter a menor condição de consertar o barco, a tripulação decidiu entregá-lo a um morador do lugar que atendia pelo nome de Simão. Quando outros pescadores vieram ajudar a desmontar a embarcação, a frase que se ouviu foi: “vamos quebrar a canoa”. O nome grudou de tal forma que nunca mais foi retirado do mapa.
A vila seguiu mergulhada em um isolamento que durou mais de três séculos. Até os anos 1960, o acesso era de uma precariedade enorme e a população tirava o seu sustento quase que exclusivamente da pesca que se fazia com as jangadas. A estrada que faz a ligação entre Canoa Quebrada e Aracati só foi receber o asfalto em 1995.

De onde vem a lua e a estrela das falésias?
O símbolo que é o mais clicado de todo o Ceará tem pelo menos três versões diferentes para contar a sua origem. Uma delas diz que os cineastas franceses que estavam ligados ao movimento da Nouvelle Vague filmaram por ali algumas cenas do longa-metragem Le Grabuge (1968), uma obra que era dirigida por Édouard Luntz e que teve locações tanto na vila quanto em Aracati. Na equipe de filmagem havia um marroquino que professava a fé muçulmana e que, de acordo com o que reza a tradição local, teria sido o responsável por mandar esculpir a lua e a estrela nas falésias como uma forma de fazer referência à sua religião.
Uma outra versão aponta para o artesão Chico Eliziário, que nos anos 1970 começou a gravar a meia-lua e a estrela nas peças de artesanato que produzia, atendendo a um pedido que havia sido feito por um visitante que vinha do Paquistão. Mais tarde, o arquiteto Carlos Limaverde (que era conhecido como Kako) decidiu esculpir o desenho diretamente na parede da falésia em 1977 e passou os dez anos seguintes da sua vida restaurando a obra para que ela resistisse à ação combinada do vento e da chuva. Desde 1986, o símbolo é a marca que está registrada como a identidade da praia. Hoje em dia, já existem quatro versões da lua e da estrela espalhadas ao longo daquele imenso paredão.

A Broadway que homenageia um herói abolicionista
A rua principal de Canoa Quebrada é conhecida como Broadway pelo movimento noturno que mistura forró, reggae e música ao vivo até o amanhecer. O nome oficial, porém, é Rua Dragão do Mar, em homenagem a Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, nascido na região em 1839. Ele liderou a greve dos jangadeiros em 1881 e impediu o embarque de pessoas escravizadas no porto de Fortaleza, ajudando o Ceará a se tornar a primeira província brasileira a abolir a escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.
A calçada de pedra portuguesa chegou à Broadway só em 2003. Hoje, o calçadão reúne pousadas, restaurantes, lojas de artesanato e barracas que servem de ponto de encontro entre moradores e turistas.
O que fazer entre falésias e dunas em Canoa Quebrada?
A paisagem combina paredões avermelhados de até 30 metros com dunas brancas, lagoas e um mar esverdeado. A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (SEMACE) classifica toda a região como Área de Proteção Ambiental desde 1998. Dentro dessa área protegida, os passeios mais procurados incluem:
- Passeio de buggy pelas dunas: roteiros de uma a três horas com paradas para esquibunda e tirolesa sobre lagoas. A maior tirolesa tem 300 metros de extensão.
- Duna do Pôr do Sol: ponto mais alto da região, com vista panorâmica de toda a costa. A Prefeitura de Aracati promove luaus e apresentações musicais no local.
- Passeio de jangada: navegação tradicional que permite ver as falésias coloridas do mar e acompanhar o trabalho dos pescadores locais.
- Kitesurf e parapente: os ventos alísios constantes e as correntes térmicas das falésias fazem de Canoa um dos melhores pontos do Brasil para esportes de vento, segundo o Governo do Ceará.
- Ponta Grossa: passeio de buggy que segue pelo litoral até o município vizinho de Icapuí, passando por falésias ainda mais preservadas e praias quase desertas.
Quem planeja viajar para o Ceará, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Dream Big, que conta com mais de 95 mil visualizações, onde Daniel e Renata mostram as falésias, a famosa Broadway e o pôr do sol em Canoa Quebrada:
A cidade colonial a 13 km da praia
Canoa Quebrada pertence ao município de Aracati, fundado como vila em 1747 e enriquecido pelo comércio de charque no período colonial. A sede municipal guarda mais de 2.500 edificações com fachadas de azulejos portugueses dos séculos XVIII e XIX, tombadas como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2001. O Museu Jaguaribano, instalado no Solar do Barão de Aracati, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário são paradas obrigatórias para quem quer entender como o interior do Ceará financiou parte da economia colonial brasileira.
Como chegar a Canoa Quebrada
A praia está a uns 160 quilômetros de distância de Fortaleza, e o acesso se faz pela rodovia CE-040, que é conhecida como Rota do Sol Nascente, e depois pela BR-304. A viagem de carro não leva mais do que duas horas, e o trajeto é feito por uma estrada que é duplicada e que está muito bem sinalizada. Para quem vai de ônibus, a Viação São Benedito mantém linhas que saem todos os dias da rodoviária de Fortaleza e que têm como destino final Canoa Quebrada. A região também é servida pelo Aeroporto Regional Dragão do Mar, que está localizado em Aracati, a uma distância de 20 quilômetros da praia, e que opera voos de caráter regional.
O lugar onde o vento sopra e vai contando as histórias que estão gravadas nas falésias
Canoa Quebrada guarda camadas de história em cada paredão vermelho: um naufrágio do século XVII no nome, um símbolo de inspiração islâmica nas falésias, um herói abolicionista no nome da rua e a herança de cineastas e hippies que transformaram uma vila de pescadores em destino internacional.
Você precisa subir até o alto da Duna do Pôr do Sol, deixar que o vento que sopra sem parar no litoral cearense bata com força em seu rosto e, então, conseguirá entender por que é que tanta gente, desde aqueles já distantes anos 1960, chega a Canoa e simplesmente resolve que é ali que vai ficar.




