Em 1987, um episódio envolvendo material radioativo mudou para sempre a forma como o país enxerga a segurança nuclear fora de usinas. O acidente radioativo em Goiânia, causado pela perda de controle de uma fonte de Césio-137 em área urbana, tornou-se referência mundial em estudos sobre contaminação radiológica. Mesmo assim, muitos ainda sabem apenas que “algo aconteceu com radiação em Goiás”, sem compreender o encadeamento de fatos e as lições que ficaram na saúde, na legislação e na cultura de prevenção.
O que aconteceu em Goiânia em 1987, em termos práticos?
Com a clínica de radioterapia fechada e desativada, o imóvel ficou vulnerável à retirada de itens considerados reaproveitáveis. O aparelho de radioterapia, pesado e complexo, foi removido por pessoas interessadas em materiais como ferro e chumbo, sem qualquer noção de que continha uma cápsula altamente perigosa de Césio-137.
Ao abrir o equipamento com ferramentas simples, a blindagem que mantinha a fonte isolada foi danificada e o pó radioativo começou a escapar. Parte desse material exibia um brilho azulado em ambientes escuros, o que despertou curiosidade e encantamento em quem o via, fazendo o pó circular por casas, objetos e espaços de convivência, espalhando a contaminação por trechos da cidade em poucas horas.

Como a radiação do Césio-137 atua em um acidente desse tipo?
O acidente com Césio-137 em Goiânia evidenciou que a radiação ionizante não é percebida pelos sentidos humanos: não tem cheiro, não tem sabor e não causa dor imediata no momento da exposição. O Césio-137 emite, principalmente, radiação gama, capaz de atravessar o corpo, atingir órgãos internos e alterar estruturas celulares de forma silenciosa.
Pessoas permaneceram próximas ao material durante dias, algumas guardando porções do pó em locais de descanso e outras manuseando a substância diretamente sobre a pele. Com o tempo, surgiram sintomas como enjoo, vômitos, fraqueza, tonturas, febre e lesões cutâneas, inicialmente confundidos com problemas comuns, até que a hipótese de exposição à radiação ganhou força e levou à busca por diagnóstico especializado.
Como foi organizada a resposta à emergência radioativa em Goiânia?
Após a confirmação de que se tratava de um acidente radioativo em Goiânia, a situação passou a ser tratada como emergência de grande porte. Autoridades de saúde, defesa civil, Corpo de Bombeiros e a então Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foram mobilizados para localizar a fonte remanescente, interromper a exposição e orientar a população.
Para estruturar a resposta, foram planejadas ações integradas que buscavam, ao mesmo tempo, cuidar das vítimas, conter a contaminação e garantir a segurança das equipes envolvidas. Entre as principais medidas adotadas, destacam-se:
- instalação de postos de triagem para avaliar pessoas possivelmente expostas, com exames clínicos e de radioproteção;
- uso de equipamentos de detecção para medir níveis de radiação em indivíduos, roupas, veículos e objetos;
- monitoramento sistemático de casas, terrenos, sucateiros e vias públicas para localizar focos de contaminação;
- transferência dos pacientes mais graves para unidades de referência em Goiânia, Brasília e Rio de Janeiro;
- isolamento e, quando necessário, demolição de áreas com índices de radiação acima dos limites considerados seguros.
Em muitos locais, não bastou limpar superfícies: foi preciso remover solo, demolir estruturas e tratar todo o entulho como rejeito radioativo. Esses materiais foram acondicionados em tambores ou contentores especiais e enviados para instalações projetadas para armazenamento de longo prazo, sob vigilância contínua e monitoramento ambiental permanente.
Quais falhas de segurança o caso de Goiânia evidenciou?
A tragédia de Goiânia revelou falhas em diferentes etapas do ciclo de vida de fontes radioativas. Um aparelho de radioterapia permaneceu em um prédio desativado, sem inventário atualizado, sem fiscalização efetiva e sem plano claro de descomissionamento, permitindo que a fonte de Césio-137 fosse tratada como sucata comum.
Entre os pontos críticos discutidos por especialistas, destacam-se a ausência de destinação imediata para o equipamento após o fim das atividades, a fragilidade no acompanhamento regulatório de fontes fora de uso, a falta de informação para trabalhadores de sucata e a carência de protocolos locais para reconhecer rapidamente uma possível contaminação radiológica.
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Que mudanças e aprendizados o acidente com Césio-137 trouxe para o Brasil?
Após o episódio, normas de controle passaram por revisões significativas, tornando o registro de fontes radioativas mais rigoroso e exigindo rastreamento desde a fabricação até o descarte definitivo. A CNEN e outras instituições fortaleceram a fiscalização e implantaram programas de inspeção periódica em clínicas, hospitais e indústrias que utilizam radiação.
Também se ampliou a oferta de capacitação em segurança radiológica para profissionais da saúde, trabalhadores de sucata metálica, equipes de emergência e forças de segurança pública. Esses treinamentos passaram a enfatizar o reconhecimento de equipamentos suspeitos, o uso correto de detectores de radiação e a comunicação rápida com autoridades técnicas especializadas.
Por que a história do Césio-137 em Goiânia ainda é relevante hoje?
A história do Césio-137 em Goiânia continua presente em cursos, manuais e simulados de resposta a desastres no Brasil e no exterior. O caso mostra que a radiação não está restrita a grandes usinas nucleares; ela pode surgir no cotidiano por meio de equipamentos médicos e industriais se não houver controle e responsabilidade contínua sobre seu ciclo de vida.
Relembrar o que aconteceu em 1987 reforça a importância de sistemas de fiscalização capazes de identificar equipamentos abandonados, da educação em segurança radiológica para profissionais e comunidades e da transparência na gestão de rejeitos radioativos. O episódio permanece como marco na discussão sobre radiação no Brasil, funcionando como alerta permanente sobre os riscos do invisível quando fontes perigosas são tratadas como simples sucata.




