Por milhares de anos, os cestos de 9.500 anos da Cueva de los Murciélagos ficaram protegidos num ambiente seco, onde fibras vegetais quase nunca sobrevivem. A mesma coleção guardou sandálias, cordas e madeira. As peças atravessaram dois momentos diferentes da Pré-História.
Como materiais tão frágeis conseguiram sobreviver?
Palha, madeira e fibras costumam desaparecer muito antes de pedra ou cerâmica. Na Cueva de los Murciélagos de Albuñol, porém, a dessecação preservou materiais orgânicos. Dessecação é a perda de umidade que deixa o ambiente muito seco.
A caverna fica na região de Granada, na Espanha, e seus objetos foram encontrados durante atividades de mineração no século XIX. Parte importante do conjunto acabou no Museo Arqueológico Nacional, onde pôde ser estudada novamente com técnicas modernas.

O que apareceu entre os 76 objetos estudados?
Os pesquisadores analisaram 76 peças feitas de materiais que normalmente se perdem com o tempo. Para entender a idade do conjunto, foram produzidas 14 datações por carbono-14, método que mede alterações em carbono antigo para estimar quando um material orgânico deixou de viver.
O conjunto guarda objetos ligados ao transporte, ao vestuário e a atividades do cotidiano:
Por que os cestos são muito mais antigos que algumas sandálias?
O novo estudo cronológico mostrou que os objetos não foram deixados na caverna de uma só vez. Há uma fase ligada a caçadores-coletores do Mesolítico e outra associada às primeiras comunidades agrícolas do Neolítico.
Essa separação muda bastante a leitura do conjunto:
- Alguns cestos remontam a cerca de 9.500 anos.
- Esses exemplares estão ligados a sociedades de caçadores-coletores.
- As sandálias pertencem à fase neolítica posterior.
- O calçado e outros objetos ficam numa faixa de cerca de 7.200 a 6.200 anos.
Antes das novas análises, boa parte do material orgânico era tratada como pertencente ao Neolítico. As datas mais antigas revelaram que técnicas sofisticadas de cestaria já existiam na região antes da agricultura se estabelecer ali.

O que as peças mostram sobre essas duas fases?
O esparto, uma planta resistente comum em áreas secas do Mediterrâneo, aparece repetidamente no conjunto. Os artesãos escolhiam folhas e tratavam as fibras de modos diferentes conforme o objeto. Nas sandálias, por exemplo, o esparto era esmagado para ficar mais flexível.
As diferenças ficam mais fáceis de comparar desta forma:
| Objeto | Idade ou fase | Ligação |
|---|---|---|
| Cestos Esparto | Cerca de 9.500 anos | Mesolítico |
| Sandálias Esparto esmagado | Entre cerca de 7.200 e 6.200 anos | Neolítico |
| Maço de madeira Ferramenta | Fase neolítica | Agricultores |
| Cordas Fibras torcidas ou trançadas | Conjunto neolítico | Fragmentadas |
O que esses objetos mudam na visão sobre a vida pré-histórica?
A cestaria mais antiga do sul da Europa mostra que caçadores-coletores já dominavam escolhas de matéria-prima e técnicas trabalhosas muito antes das comunidades agrícolas que vieram depois.
As sandálias ampliam esse retrato. Fibras eram preparadas para ficar mais confortáveis e algumas peças apresentam marcas de uso. O ambiente seco da caverna preservou justamente uma parte da vida pré-histórica que quase sempre desaparece, os objetos leves usados no corpo e nas tarefas diárias.




