Há mais de sete milênios, as cinco canoas de La Marmotta ficaram soterradas sob um lago, protegidas por água e sedimento. O conjunto inclui peças feitas de troncos inteiros e recursos de construção pouco esperados para a época. A maior delas ainda mede 10,43 metros.
Como as canoas ficaram preservadas por tanto tempo?
Madeira costuma apodrecer quando fica exposta por muito tempo, então encontrar cascos neolíticos ainda reconhecíveis parece improvável. Nesse caso, o antigo povoado acabou coberto e isolado no fundo do lago, o que criou uma proteção natural para materiais que normalmente desapareceriam.
O sítio arqueológico de La Marmotta está hoje a cerca de 300 metros da margem moderna e a 11 metros de profundidade, contando água e sedimento. A conservação excepcional também preservou madeira, fibras, cestos e outros restos orgânicos.

Como um tronco virava uma embarcação tão grande?
Os cascos eram escavados diretamente em troncos. As marcas encontradas nas ferramentas indicam uso de enxós, peças com lâmina transversal usadas para desbastar madeira, e machados de pedra polida durante o trabalho.
Em alguns barcos, partes do próprio tronco foram deixadas no fundo como reforços transversais. Na canoa maior, havia quatro reforços desse tipo, uma solução que podia proteger o casco, aumentar sua durabilidade e ajudar no controle da embarcação.
Os detalhes mais claros da construção são:
Para que serviam as peças presas aos cascos?
A canoa de 10,43 metros tinha três peças em forma de T presas ao lado direito. Elas possuíam dois, três e quatro furos, e a posição desses objetos levou os pesquisadores a propor usos ligados à navegação.
As hipóteses levantadas incluem:
- Prender cordas ligadas a uma possível vela.
- Conectar um estabilizador lateral ao casco.
- Unir outra embarcação e criar uma configuração de casco duplo.
- Dar mais estabilidade para transportar pessoas, animais ou carga.
Há ainda uma peça diferente associada à segunda canoa, com um furo central, que pode ter funcionado como ponto de amarração quando o nível da água subia. São interpretações baseadas no formato e na posição dos objetos, não funções comprovadas de forma definitiva.

As cinco embarcações tinham o mesmo tamanho?
Não. Os cascos variam bastante em comprimento e também foram feitos com madeiras diferentes. Duas canoas usaram amieiro, enquanto as outras foram talhadas em carvalho, choupo e faia, sinal de que os construtores conheciam mais de uma matéria-prima disponível.
A comparação das medidas preservadas ajuda a perceber essa diferença:
| Canoa | Comprimento preservado | Situação |
|---|---|---|
| Canoa 1 Carvalho | 10,43 m | Maior |
| Canoa 2 Amieiro | 5,4 m | Menor |
| Canoa 3 Amieiro | 8,35 m | Fraturada |
| Canoa 4 Choupo | Não preservado | Fragmentária |
| Canoa 5 Faia | 9,5 m atuais | Fragmentária |
O que esse conjunto mostra sobre a navegação neolítica?
As datações colocam as cinco canoas numa faixa entre aproximadamente 5620 e 5085 a.C., embora elas não tenham sido construídas todas ao mesmo tempo. O estudo estima que o conjunto se distribuiu por cerca de 200 a 485 anos, atravessando poucas gerações.
Esse nível de construção ajuda a explicar por que elas são tratadas como as mais antigas embarcações neolíticas conhecidas. O tamanho, os reforços e as peças de ligação mostram que comunidades de mais de sete mil anos já dominavam soluções náuticas elaboradas.




