Festa de cidade pequena raramente movimenta público de capital. Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, reúne cerca de 100 mil visitantes em três dias de Festival da Jabuticaba e ainda guarda o segundo teatro mais antigo do Brasil em funcionamento, uma capela do século XVIII com pinturas orientais e 19 bens tombados pelo patrimônio federal.
Como uma fruta virou patrimônio e principal motor do turismo local
Por decisão oficial da própria cidade. Segundo a Prefeitura de Sabará, o festival é organizado pelas secretarias municipais de Cultura e Turismo em parceria com a Associação dos Produtores de Derivados da Jabuticaba (Asprodejas), e homenageia um fruto reconhecido como patrimônio imaterial e cultural do município.
Criado em 1987, o evento chega em 2026 à quadragésima edição e ocupa quatro praças do centro histórico com geleias, licores, molhos, sorvetes e pratos assinados por chefs locais. É um caso raro de festa gastronômica de interior que virou item de calendário estadual e sustenta uma cadeia de pequenos produtores o ano inteiro.

O que faz um teatro em forma de ferradura funcionar desde 1819?
Teimosia local, basicamente. De acordo com a Prefeitura de Sabará, o Teatro Municipal foi inaugurado em 2 de junho de 1819 e substituiu uma casa primitiva erguida em 1770, o que o mantém como o segundo prédio teatral mais antigo do país ainda em atividade, atrás apenas do de Ouro Preto.
A construção saiu em plena decadência da mineração, sem ajuda oficial. Conforme o Turismo em Minas Gerais, portal oficial do governo estadual, o desenho segue a influência dos teatros ingleses do reinado de Elizabeth I, o que rendeu o apelido de teatro elisabetano, e a acústica é considerada uma das melhores da América Latina. Pela plateia passaram os dois imperadores brasileiros, Dom Pedro I em 1831 e Dom Pedro II em 1881.

Por que uma capela mineira ganhou decoração vinda do Oriente?
Porque quem pintou provavelmente veio de lá. A Capela de Nossa Senhora do Ó foi erguida entre 1717 e 1720, e a própria prefeitura registra a suspeita de que artesãos vindos das possessões portuguesas do Oriente trabalharam ali, responsáveis pelas chamadas chinesices que cobrem o interior.
O contraste é o que impressiona: fachada branca, quase sem ornamento, e um interior de talha dourada da primeira fase do barroco mineiro. Todo esse acervo tem respaldo oficial. Conforme o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a cidade reúne 19 bens tombados em âmbito federal, quatro pelo instituto estadual e 23 pelo município, um conjunto protegido que muita capital brasileira não tem.
Quanto do roteiro histórico cabe em um único dia?
Quase tudo, porque os principais pontos ficam a poucos minutos de caminhada uns dos outros, ao longo da antiga Rua Direita, hoje Rua Dom Pedro II. Confira abaixo o que concentra as visitas no centro histórico:
- Teatro Municipal: interior de madeira em três galerias de camarotes, eleito uma das Sete Maravilhas da Estrada Real.
- Capela de Nossa Senhora do Ó: talha dourada e motivos orientais em uma das igrejas mais antigas de Minas Gerais.
- Museu do Ouro: instalado na antiga Casa de Intendência, de 1730, administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: portada em pedra-sabão e esculturas atribuídas a Aleijadinho.
- Igreja do Rosário dos Pretos: erguida por escravizados e deixada inacabada, hoje uma ruína preservada em plena praça central.
- Chafariz do Kaquende: fonte colonial em pedra, cercada pela lenda de que quem bebe da água sempre volta.
Fora do calendário do festival, a cidade tem outro trunfo de público. A Prefeitura de Sabará projetou 80 mil pessoas no Carnaval de 2026, com tema dedicado ao patrimônio e impacto estimado de R$ 2,4 milhões na economia local, um dos carnavais de rua mais tradicionais do estado. Quem quer emendar mais barroco costuma seguir para Congonhas, no mesmo circuito histórico.
Quem gosta de cidades históricas vai curtir este vídeo sobre Sabará do canal De fora em Juiz de Fora, com mais de 88 mil visualizações, onde Tati Marmon explora a cidade.
Como é o clima de Sabará ao longo do ano
O município fica no vale do Rio das Velhas, em altitude menor que a de outras cidades históricas mineiras, o que deixa as tardes mais quentes. O calendário se divide entre um verão de chuva concentrada e um inverno bastante seco, quando quase não chove. Veja abaixo como as estações se comportam na cidade:
Valores aproximados com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos naturais como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de programar o passeio.
A cidade histórica que a capital quase engoliu
Sabará poderia ter virado apenas mais um bairro da região metropolitana, e no entanto manteve de pé o casario, o teatro, as igrejas, o prédio onde o ouro colonial era pesado e uma tradição gastronômica que sustenta produtores locais. É patrimônio de primeira linha com preço de bate e volta.
Você precisa reservar um sábado e conhecer Sabará, a cidade colonial que fica logo ali, do outro lado do anel rodoviário.




