O barroco brasileiro tem endereço, e ele fica no alto de um morro no centro de Minas Gerais. Em Congonhas, um santuário erguido por um português que prometeu uma igreja em troca de uma cura acabou concentrando doze estátuas de profetas talhadas em pedra-sabão e dezenas de figuras de madeira em tamanho natural. O conjunto rendeu à cidade um lugar na lista de Patrimônio Mundial e o apelido de Cidade dos Profetas.
O que a UNESCO enxergou no alto do Morro Maranhão?
A raridade está na soma: escadaria, capelas e basílica formam um mesmo cenário concebido como obra única. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as 66 esculturas de madeira policromada em tamanho natural, distribuídas em seis capelas que reúnem os sete grupos dos Passos da Paixão de Cristo, compõem um dos conjuntos escultóricos sacros mais completos do mundo, e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos foi inscrito no Livro do Tombo de Belas Artes em 1939 antes de ser reconhecido como Patrimônio Cultural Mundial em dezembro de 1985.
A justificativa registrada pela UNESCO descreve uma igreja de interior rococó de inspiração italiana, uma escadaria externa decorada com as estátuas dos profetas e as capelas com as estações da Via Sacra, tratadas como obras-primas de uma forma de barroco original e expressiva. Não é só o santuário que tem proteção federal: o conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade foi tombado pelo Iphan em 1941, o que congela o casario colonial das ladeiras ao redor.

Quem foi o escultor por trás dos profetas?
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, chegou ao canteiro já no fim da vida e debilitado por uma doença degenerativa que lhe tirava o uso das mãos. Ainda assim, entregou o repertório que o consagrou. O Iphan aponta que o santuário, realizado em várias etapas a partir de 1757, é considerado a obra-prima do artista e reúne o maior conjunto de arte colonial do país.
Os doze profetas ocupam o adro em posições calculadas para serem vistos de baixo, com gestos e planejamentos que criam uma cena teatral a céu aberto. Dentro da basílica, o repertório se amplia com trabalhos de escultores como Jerônimo Félix Teixeira e Vieira Servas e pinturas de Manuel da Costa Ataíde, o mesmo nome que decorou os tetos mais famosos do barroco mineiro. A cidade tem parentesco direto com os arraiais do ouro, tema que aparece também no vilarejo mineiro que nasceu do ouro e virou refúgio.

Quanto o patrimônio congonhense recebeu em obras recentes?
Os valores explicam por que o centro histórico está diferente de uma década atrás. De acordo com o Iphan, a restauração do Centro Cultural da Romaria, prédio circular erguido em 1932, consumiu R$ 6 milhões, dentro de um pacote de R$ 19 milhões que incluiu a construção do teatro municipal.
O investimento continuou. Em dezembro, o instituto informou a inauguração do Parque Natural Municipal da Romaria Helvio Vitarelli, que integra cerca de 30 mil metros quadrados de mata ao complexo cultural com aproximadamente R$ 7 milhões do Novo PAC, conforme registrou o Iphan na mesma ocasião. A basílica também passou pela maior restauração de sua história, e o município integra a lista de cidades mineiras contempladas pelo PAC Cidades Históricas.

O que visitar na Cidade dos Profetas?
Tudo gira em torno da colina do santuário, e a maior parte do roteiro se resolve a pé, em um bate e volta desde Belo Horizonte, a pouco mais de 80 km pela BR-040. Confira abaixo o que merece parada:
- Santuário do Bom Jesus de Matosinhos: a basílica, o adro com os profetas e a sala dos ex-votos, onde fiéis depositam objetos em agradecimento por graças alcançadas.
- Capelas dos Passos: seis construções ao longo da subida que abrigam as cenas da Paixão em madeira policromada, cada uma com um episódio diferente.
- Museu de Congonhas: inaugurado em 2015 ao lado do santuário, funciona como centro de referência do barroco e dos estudos da pedra.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: templo do século XVIII com portal em pedra-sabão atribuído a Aleijadinho e uma das maiores naves de Minas.
- Igreja do Rosário: a mais antiga da cidade, ligada às irmandades negras e à tradição do congado que ainda sai às ruas.
- Complexo da Romaria: centro cultural restaurado, teatro e o parque natural recém-aberto no entorno do santuário.
A cidade também é ponto de carimbo do Caminho Velho da Estrada Real e mantém a economia girando em torno da mineração de ferro, o que dá ao lugar uma mistura pouco comum de romaria, arte barroca e caminhões de minério.
Quem se interessa por história em Minas Gerais vai curtir este vídeo do canal Na Mala, que percorre Congonhas e mostra as obras de Aleijadinho que marcaram a cidade.
Como é o clima de Congonhas ao longo do ano?
A cidade fica acima dos mil metros de altitude, e isso aparece na diferença entre o dia e a noite: tardes amenas, madrugadas frias e um inverno bastante seco. Veja abaixo o comportamento típico de cada estação em Congonhas:
Temperaturas aproximadas. As médias variam de um ano para outro por influência de fenômenos como o El Niño e a La Niña, então vale checar a previsão atualizada de Congonhas no Climatempo antes da viagem.
Vale subir a ladeira até o adro dos profetas
Poucos lugares no Brasil permitem ver, em uma única manhã, o auge técnico de um artista colonial e a fé popular que sustenta a mesma colina há mais de dois séculos. O santuário funciona como igreja viva, não como sala de museu, e é isso que muda a experiência.
Você precisa reservar um dia para Congonhas e olhar os profetas de baixo para cima, exatamente do ângulo para o qual eles foram talhados.




