Quase todas as vilas do ouro nasceram torto, seguindo trilhas de mula e o curso dos córregos. Mariana foi exceção: teve planta, ruas retas e praças desenhadas antes de crescer. Essa origem planejada, somada ao peso político de ter sido a primeira capital e o primeiro bispado do estado, deixou na cidade um acervo que atravessou três séculos praticamente intacto.
Por que essa foi a primeira cidade projetada do estado?
Porque nasceu como peça de poder, não como acampamento de garimpo. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Mariana é a única cidade colonial mineira de traçado planejado, projetada pelo arquiteto português José Fernandes Pinto Alpoim, com ruas retas e praças retangulares, e teve o centro histórico tombado em 1945.
O reconhecimento veio em duas camadas. Conforme a Prefeitura de Mariana, a cidade foi elevada a Monumento Nacional e reúne uma sequência de pioneirismos: primeira vila, primeira capital, primeira sede de bispado e primeira cidade projetada de Minas Gerais. Tudo começou em 16 de julho de 1696, quando bandeirantes paulistas acharam ouro no ribeirão que batizaram de Nossa Senhora do Carmo.

Como um órgão alemão de 1701 foi parar na catedral?
Como presente da Coroa portuguesa à diocese recém-criada. De acordo com o registro de tombamento municipal reunido pelo Ipatrimônio, o instrumento foi construído na Alemanha na primeira década do século XVIII, passou um tempo em Portugal, foi comprado pelo rei Dom João V em 1747 e chegou à cidade como doação de Dom José I, já com a Sé mantendo organista e mestre de capela em 1748.
O detalhe que torna a peça rara é a assinatura. Trata-se do único exemplar saído da oficina de Arp Schnitger, um dos maiores construtores de órgãos da história, que existe fora do continente europeu. O instrumento passou por restauração recente e voltou a soar na Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção, onde continua sendo usado em concertos e celebrações.

O que a UNESCO reconheceu nos arquivos da cidade?
Um acervo de papéis, não de pedras. Conforme o IPHAN, a documentação do Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana recebeu chancela do programa Memória do Mundo, criado pela organização em 1992 para reconhecer arquivos e bibliotecas de valor internacional.
Esse material conta o cotidiano da capitania de dentro para fora. Desde 2005, o instituto mantém cooperação com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) para digitalizar os acervos dos antigos cartórios guardados ali, e o conjunto reconhecido pela UNESCO já está disponível para consulta online.
O que ver entre igrejas, praças e galerias subterrâneas?
O centro cabe em uma caminhada, e o passado da mineração fica a poucos km dele. A Praça Minas Gerais concentra o conjunto mais fotografado, com duas igrejas de irmandades rivais quase lado a lado.
Confira abaixo o que costuma entrar no roteiro de quem visita a cidade:
- Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção: a Sé marianense, construída a partir de 1713, com pintura, prataria e o órgão histórico.
- Igrejas de São Francisco de Assis e do Carmo: templos das ordens terceiras erguidos a poucos metros um do outro na praça principal.
- Casa de Câmara e Cadeia: prédio colonial com escadaria de pedra que abrigava a administração no andar de cima e a prisão embaixo.
- Rua Direita: fileira de sobrados com sacadas, incluindo a casa onde viveu o poeta Alphonsus de Guimaraens.
- Mina da Passagem: no distrito de Passagem de Mariana, galeria subterrânea aberta à visitação, com descida de trolley até o lago interno.
- Trem da Vale: composição turística que liga Ouro Preto a Mariana, com vagão panorâmico e vista do vale.
Quem quer descobrir o charme histórico de Mariana vai curtir este vídeo do canal Por onde andei, com Fernanda Götz, com mais de 41 mil inscritos, onde Fernanda Götz explora a cidade.
Como o clima de Mariana se comporta ao longo do ano?
A cidade fica em região de serra, com verão úmido e inverno seco e frio pela manhã. Julho registra média mensal de apenas 14 mm de chuva, conforme séries do Climatempo, enquanto o verão concentra pancadas fortes que deixam as ladeiras de pedra escorregadias.
Veja abaixo como cada estação costuma se comportar no município:
Temperaturas aproximadas. As condições mudam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo.
A primeira de Minas continua contando a história do estado
Poucas cidades brasileiras conseguem reunir um traçado colonial planejado, um instrumento musical único fora da Europa e um arquivo com chancela internacional dentro do mesmo perímetro. Em Mariana, o século XVIII não é cenário de museu: ele segue funcionando como igreja, praça e sala de concerto.
Você precisa reservar um dia inteiro na primeira capital mineira, ouvir o órgão da Sé e descer até uma galeria de mina para entender de onde saiu toda essa riqueza.




