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Há 5,33 milhões de anos, o Atlântico rompeu a barreira de Gibraltar e uma inundação colossal pode ter preenchido o Mediterrâneo rebaixado em apenas 2 a 16 anos

Paulo Por Paulo
27/08/2026
Em Curiosidades
Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo

Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo

Há 5,33 milhões de anos, uma ruptura em Gibraltar reconectou o Atlântico ao Mediterrâneo após forte rebaixamento do mar. Modelos estimam que a megainundação despejou 68 a 100 milhões de m³ por segundo e pode ter preenchido grande parte da bacia em apenas 2 a 16 anos, deixando marcas preservadas na Sicília.

Por que o Mediterrâneo estava tão rebaixado antes da megainundação Zancleana?

Antes da reconexão, o Mediterrâneo atravessava a Crise de Salinidade Messiniana, período em que ficou fortemente isolado do Atlântico. A evaporação superava a reposição de água, favorecendo grandes depósitos de sal e um rebaixamento do nível do mar em escala quilométrica dentro da bacia.

A mudança terminou por volta de 5,33 milhões de anos atrás, quando a inundação Zancleana restabeleceu a ligação oceânica. O cenário mais aceito envolve água atlântica ultrapassando uma barreira próxima ao atual estreito de Gibraltar e avançando primeiro pelo Mediterrâneo ocidental.

Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo
Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo

Como o Atlântico conseguiu atravessar Gibraltar e acelerar a própria inundação?

A água começou a transpor o relevo e a escavar o caminho de entrada. O estudo Land-to-sea indicators of the Zanclean megaflood reúne evidências de que esse processo terminou em uma inundação catastrófica, capaz de transportar volumes extraordinários de água.

Quanto maior ficava o canal, mais água conseguia passar, aumentando a erosão e ampliando novamente a passagem. As estimativas usadas pelos pesquisadores apontam 68 a 100 Sverdrups, sendo um Sverdrup igual a um milhão de metros cúbicos por segundo, e duração total estimada entre 2 e 16 anos.

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Quais marcas na Sicília indicam que a água passou com força extrema?

Pesquisadores encontraram mais de 300 cristas alongadas e assimétricas no sudeste da Sicília, alinhadas com a direção prevista do fluxo. A Universidade de Southampton também descreve um canal erosivo de cerca de 20 km de largura conectado ao cânion submarino de Noto.

As principais evidências geológicas aparecem em diferentes escalas:

  • Cristas erodidas: centenas de formas do relevo apontam na direção esperada para a passagem da água.
  • Brecha mal selecionada: uma camada de fragmentos rochosos indica deposição rápida e muito energética.
  • Canal submarino: a estrutura larga conecta as marcas em terra ao caminho seguido rumo ao Mediterrâneo oriental.
Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo
Megainundação Zancleana e o retorno do Mediterrâneo

O que significa uma vazão de até 100 milhões de m³ por segundo?

Esse número não representa um rio estável, mas um pico modelado para uma megainundação. As simulações indicam que o fluxo se intensificou quando a água cruzou a soleira da Sicília, passagem elevada que separava as bacias ocidental e oriental, alcançando velocidades de até 32 metros por segundo.

O volume ajuda a explicar a escala das marcas preservadas. Uma corrente desse porte poderia escavar canais, arrancar sedimentos e remodelar o relevo durante o avanço. Por isso, a inundação é apontada como possivelmente a maior conhecida no registro geológico terrestre, embora detalhes de sua evolução ainda sejam investigados.

Leia também: Há 2.400 anos, um navio grego afundou no Mar Negro e a falta de oxigênio a mais de 2 km de profundidade preservou a embarcação praticamente inteira

Como essa inundação transformou o Mediterrâneo no mar que existe hoje?

A reconexão encerrou uma fase em que a bacia acumulava enormes depósitos de sal e apresentava níveis muito inferiores aos atuais. Com a entrada do Atlântico, condições marinhas profundas voltaram a ocupar o Mediterrâneo, alterando sedimentos, circulação da água e ambientes que haviam se desenvolvido durante o isolamento.

As novas evidências da Sicília tornam mais consistente um processo extremamente rápido em termos geológicos. A megainundação Zancleana mostra como uma passagem estreita entre dois grandes corpos d’água pode desencadear uma transformação continental quando erosão, diferença de nível e vazão passam a reforçar umas às outras.

Tags: geologiaGibraltarinundaçãomediterrâneo

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