Há 5,33 milhões de anos, uma ruptura em Gibraltar reconectou o Atlântico ao Mediterrâneo após forte rebaixamento do mar. Modelos estimam que a megainundação despejou 68 a 100 milhões de m³ por segundo e pode ter preenchido grande parte da bacia em apenas 2 a 16 anos, deixando marcas preservadas na Sicília.
Por que o Mediterrâneo estava tão rebaixado antes da megainundação Zancleana?
Antes da reconexão, o Mediterrâneo atravessava a Crise de Salinidade Messiniana, período em que ficou fortemente isolado do Atlântico. A evaporação superava a reposição de água, favorecendo grandes depósitos de sal e um rebaixamento do nível do mar em escala quilométrica dentro da bacia.
A mudança terminou por volta de 5,33 milhões de anos atrás, quando a inundação Zancleana restabeleceu a ligação oceânica. O cenário mais aceito envolve água atlântica ultrapassando uma barreira próxima ao atual estreito de Gibraltar e avançando primeiro pelo Mediterrâneo ocidental.

Como o Atlântico conseguiu atravessar Gibraltar e acelerar a própria inundação?
A água começou a transpor o relevo e a escavar o caminho de entrada. O estudo Land-to-sea indicators of the Zanclean megaflood reúne evidências de que esse processo terminou em uma inundação catastrófica, capaz de transportar volumes extraordinários de água.
Quanto maior ficava o canal, mais água conseguia passar, aumentando a erosão e ampliando novamente a passagem. As estimativas usadas pelos pesquisadores apontam 68 a 100 Sverdrups, sendo um Sverdrup igual a um milhão de metros cúbicos por segundo, e duração total estimada entre 2 e 16 anos.
Quais marcas na Sicília indicam que a água passou com força extrema?
Pesquisadores encontraram mais de 300 cristas alongadas e assimétricas no sudeste da Sicília, alinhadas com a direção prevista do fluxo. A Universidade de Southampton também descreve um canal erosivo de cerca de 20 km de largura conectado ao cânion submarino de Noto.
As principais evidências geológicas aparecem em diferentes escalas:
- Cristas erodidas: centenas de formas do relevo apontam na direção esperada para a passagem da água.
- Brecha mal selecionada: uma camada de fragmentos rochosos indica deposição rápida e muito energética.
- Canal submarino: a estrutura larga conecta as marcas em terra ao caminho seguido rumo ao Mediterrâneo oriental.

O que significa uma vazão de até 100 milhões de m³ por segundo?
Esse número não representa um rio estável, mas um pico modelado para uma megainundação. As simulações indicam que o fluxo se intensificou quando a água cruzou a soleira da Sicília, passagem elevada que separava as bacias ocidental e oriental, alcançando velocidades de até 32 metros por segundo.
O volume ajuda a explicar a escala das marcas preservadas. Uma corrente desse porte poderia escavar canais, arrancar sedimentos e remodelar o relevo durante o avanço. Por isso, a inundação é apontada como possivelmente a maior conhecida no registro geológico terrestre, embora detalhes de sua evolução ainda sejam investigados.
Como essa inundação transformou o Mediterrâneo no mar que existe hoje?
A reconexão encerrou uma fase em que a bacia acumulava enormes depósitos de sal e apresentava níveis muito inferiores aos atuais. Com a entrada do Atlântico, condições marinhas profundas voltaram a ocupar o Mediterrâneo, alterando sedimentos, circulação da água e ambientes que haviam se desenvolvido durante o isolamento.
As novas evidências da Sicília tornam mais consistente um processo extremamente rápido em termos geológicos. A megainundação Zancleana mostra como uma passagem estreita entre dois grandes corpos d’água pode desencadear uma transformação continental quando erosão, diferença de nível e vazão passam a reforçar umas às outras.




