Há cerca de 250 mil anos, um antigo lago ocupou parte do atual Saara egípcio quando águas do Nilo alcançaram a depressão de Tushka. Modelos de radar indicam uma superfície de aproximadamente 68,2 mil km² no nível mais alto estudado, com o lago se estendendo por cerca de 350 km dentro de uma região hoje desértica.
Como um lago no Saara pôde ser alimentado pelo Nilo?
O cenário depende de um norte da África muito diferente do atual. Durante fases úmidas do Pleistoceno, descargas maiores do Nilo poderiam transbordar por Wadi Tushka e alcançar depressões a oeste do vale. Assim, água fluvial entrava no deserto e alimentava grandes áreas rebaixadas.
A região faz parte do atual Deserto do Saara, hoje extremamente seco. Naquele período, porém, a combinação entre cheias do Nilo e alguma chuva local oferecia água suficiente para formar lagos temporários ou recorrentes em setores que atualmente parecem incapazes de sustentar grandes superfícies aquáticas.

Como o radar revelou um lago que desapareceu há milhares de anos?
Os pesquisadores analisaram dados de topografia produzidos pela missão de radar do ônibus espacial. O levantamento permitiu identificar canais antigos, depressões e níveis compatíveis com margens lacustres. Essas formas permanecem registradas no relevo mesmo depois que a água desaparece e sedimentos passam a cobrir parte da superfície.
A síntese publicada pelo Smithsonian Institution relaciona o antigo sistema ao transbordamento do Nilo há aproximadamente 250 mil anos. O próprio estudo ressalta incertezas nas idades absolutas, por isso o período deve ser entendido como uma reconstrução geológica, não como uma data exata.
Qual era o tamanho estimado desse antigo lago?
O trabalho original calculou que o nível de 247 metros poderia produzir uma superfície de 68,2 mil km², estendendo água desde a fronteira com o Sudão até áreas próximas aos oásis de Kharga e Dakhla. O comprimento aproximado desse conjunto chegaria a 350 km pelo deserto.
Alguns números ajudam a visualizar a escala da reconstrução:
- 68,2 mil km²: área modelada para o nível mais alto analisado pelos pesquisadores.
- 350 km: extensão aproximada do lago de sul a norte.
- 4.090 km³: limite superior estimado para o volume de água nesse cenário de maior nível.

Que outras pistas sustentam a existência de água nessa região?
O modelo não depende apenas do formato do terreno. O estudo disponível no repositório científico do Smithsonian relaciona o nível de 247 metros a fósseis de peixes do Nilo, canais antigos e vestígios arqueológicos encontrados em diferentes pontos da depressão.
Essas peças reforçam a hipótese de episódios repetidos de inundação. Os autores também identificaram um segundo nível de lago, a cerca de 190 metros, que teria coberto aproximadamente 30,4 mil km². Isso sugere que a paisagem aquática aumentava e diminuía conforme clima e descarga fluvial variavam.
Por que esse antigo lago muda a imagem que temos do Saara?
O deserto atual transmite sensação de permanência, mas o registro geológico mostra mudanças profundas. Durante períodos mais úmidos, rios, lagos e áreas habitáveis podiam ocupar espaços hoje dominados por areia e rocha, criando corredores de água e recursos em uma região que atualmente recebe pouca precipitação.
O antigo lago no Saara mostra essa transformação. O leste do deserto passou por fases nas quais o Nilo alcançou depressões distantes de seu curso atual, deixando marcas que ainda podem ser reconstruídas por radar centenas de milhares de anos depois.



