Quando a água baixou no reservatório de Mosul, o sítio de Kemune, uma cidade de 3.400 anos, voltou a ficar exposto. A janela para escavar era curta, porque o nível poderia subir de novo. Sob a lama surgiram edifícios preservados e um arquivo com mais de 100 tábuas cuneiformes.
Como uma cidade inteira voltou a aparecer sob a água?
O sítio fica na área do reservatório de Mosul, no Iraque. A seca extrema reduziu o nível da água, enquanto grandes volumes também eram retirados do reservatório para irrigação. Com isso, ruínas que estavam submersas havia décadas ficaram novamente acessíveis.
Em janeiro e fevereiro de 2022, arqueólogos aproveitaram essa janela para fazer uma escavação de emergência em Kemune. O trabalho precisava andar rápido, porque ninguém sabia quando a água cobriria o local outra vez.

O que os arqueólogos encontraram antes de o reservatório encher?
O levantamento revelou uma área urbana extensa ligada ao Império Mittani, que dominou partes do norte da Mesopotâmia e da Síria entre aproximadamente 1550 e 1350 a.C.. Os pesquisadores consideram que o local pode ser a antiga Zakhiku, mas essa identificação ainda é tratada como possibilidade.
Em pouco tempo, foi possível mapear construções grandes e diferentes entre si. Os principais achados foram:
Como paredes de barro sobreviveram mais de 40 anos submersas?
A preservação chamou atenção porque boa parte das construções era feita com tijolos de barro secos ao sol. Mesmo depois de mais de 40 anos sob a água, algumas paredes do grande armazém continuavam com vários metros de altura.
Os pesquisadores relacionam isso a um desastre muito mais antigo. Por volta de 1350 a.C., um terremoto destruiu parte da cidade. As partes superiores das paredes caíram sobre os cômodos e acabaram cobrindo estruturas que permaneceram enterradas durante séculos.
A sequência foi aproximadamente esta:
- A cidade foi ocupada durante o período do Império Mittani.
- Um terremoto atingiu o local por volta de 1350 a.C.
- Partes das construções desabaram e cobriram níveis inferiores.
- Décadas atrás, a área acabou submersa pelo reservatório.
- A queda da água em 2022 expôs novamente as ruínas.
Quando os arqueólogos chegaram, os tijolos estavam encharcados, mas ainda podiam ser reconhecidos e escavados. Isso permitiu documentar paredes, cômodos e a planta de grandes edifícios antes de a água retornar.

Por que mais de 100 tábuas de argila surpreenderam tanto?
Dentro de cinco vasos de cerâmica, a equipe encontrou um arquivo com mais de 100 tábuas cuneiformes. Elas pertencem ao período médio-assírio, posterior à destruição que atingiu a cidade, e algumas ainda estavam dentro de seus envelopes de argila.
A surpresa aumenta porque várias eram de argila não cozida. A escrita cuneiforme era produzida pressionando um estilete sobre argila úmida. Material desse tipo pode ser frágil, principalmente quando passa décadas em contato com água.
Os achados ajudam a separar diferentes momentos do sítio:
| Achado | O que foi encontrado | Período |
|---|---|---|
| Grandes edifícios Estruturas urbanas | Palácio, fortificação, armazém e área produtiva | Mittani |
| Paredes de barro Algumas com vários metros | Trechos preservados mesmo após décadas submersos | Bem preservadas |
| Cinco vasos Recipientes de cerâmica | Arquivo guardado dentro dos recipientes | Médio-assírio |
| Mais de 100 tábuas Algumas com envelopes | Registros em argila, possivelmente incluindo cartas | Após 1350 a.C. |
O que aconteceu quando a água começou a subir novamente?
A escavação não poderia deixar as paredes expostas. Depois da documentação, os edifícios foram cobertos com lonas plásticas ajustadas às estruturas e receberam uma camada de cascalho. A proteção foi instalada para reduzir os danos durante uma nova inundação do sítio.
A água acabou voltando e cobriu novamente Kemune. O curto período de seca, porém, permitiu registrar uma cidade com cerca de 3.400 anos, recuperar seu arquivo de argila e revelar como partes de construções frágeis conseguiram atravessar mais de quatro décadas debaixo de um reservatório.




