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Uma seca fez uma cidade de 3.400 anos reaparecer sob um reservatório e revelou muralhas de barro com vários metros e mais de 100 tábuas cuneiformes

Guilherme Araújo Por Guilherme Araújo
24/08/2026
Em Casa
A queda no nível da água abriu uma oportunidade rara para arqueólogos investigarem as ruínas

A queda no nível da água abriu uma oportunidade rara para arqueólogos investigarem as ruínas

Quando a água baixou no reservatório de Mosul, o sítio de Kemune, uma cidade de 3.400 anos, voltou a ficar exposto. A janela para escavar era curta, porque o nível poderia subir de novo. Sob a lama surgiram edifícios preservados e um arquivo com mais de 100 tábuas cuneiformes.

Como uma cidade inteira voltou a aparecer sob a água?

O sítio fica na área do reservatório de Mosul, no Iraque. A seca extrema reduziu o nível da água, enquanto grandes volumes também eram retirados do reservatório para irrigação. Com isso, ruínas que estavam submersas havia décadas ficaram novamente acessíveis.

Em janeiro e fevereiro de 2022, arqueólogos aproveitaram essa janela para fazer uma escavação de emergência em Kemune. O trabalho precisava andar rápido, porque ninguém sabia quando a água cobriria o local outra vez.

Construções monumentais permaneceram escondidas durante décadas sob as águas do reservatório

O que os arqueólogos encontraram antes de o reservatório encher?

O levantamento revelou uma área urbana extensa ligada ao Império Mittani, que dominou partes do norte da Mesopotâmia e da Síria entre aproximadamente 1550 e 1350 a.C.. Os pesquisadores consideram que o local pode ser a antiga Zakhiku, mas essa identificação ainda é tratada como possibilidade.

Em pouco tempo, foi possível mapear construções grandes e diferentes entre si. Os principais achados foram:

1
Palácio A construção já havia sido parcialmente documentada durante uma campanha anterior realizada em 2018.
2
Fortificação maciça O conjunto incluía uma muralha e torres que ajudavam a proteger o centro urbano.
3
Grande armazém O edifício tinha vários andares e teria guardado grandes quantidades de mercadorias trazidas da região.
4
Área de produção Um complexo associado a atividades produtivas também apareceu durante o levantamento da cidade.

Leia também: Há 1,5 milhão de anos, ancestrais humanos já transformavam ossos de elefantes e hipopótamos em ferramentas de osso padronizadas

Como paredes de barro sobreviveram mais de 40 anos submersas?

A preservação chamou atenção porque boa parte das construções era feita com tijolos de barro secos ao sol. Mesmo depois de mais de 40 anos sob a água, algumas paredes do grande armazém continuavam com vários metros de altura.

Os pesquisadores relacionam isso a um desastre muito mais antigo. Por volta de 1350 a.C., um terremoto destruiu parte da cidade. As partes superiores das paredes caíram sobre os cômodos e acabaram cobrindo estruturas que permaneceram enterradas durante séculos.

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A sequência foi aproximadamente esta:

  • A cidade foi ocupada durante o período do Império Mittani.
  • Um terremoto atingiu o local por volta de 1350 a.C.
  • Partes das construções desabaram e cobriram níveis inferiores.
  • Décadas atrás, a área acabou submersa pelo reservatório.
  • A queda da água em 2022 expôs novamente as ruínas.

Quando os arqueólogos chegaram, os tijolos estavam encharcados, mas ainda podiam ser reconhecidos e escavados. Isso permitiu documentar paredes, cômodos e a planta de grandes edifícios antes de a água retornar.

As tábuas preservadas podem guardar informações sobre quem viveu e administrou aquela antiga cidade

Por que mais de 100 tábuas de argila surpreenderam tanto?

Dentro de cinco vasos de cerâmica, a equipe encontrou um arquivo com mais de 100 tábuas cuneiformes. Elas pertencem ao período médio-assírio, posterior à destruição que atingiu a cidade, e algumas ainda estavam dentro de seus envelopes de argila.

A surpresa aumenta porque várias eram de argila não cozida. A escrita cuneiforme era produzida pressionando um estilete sobre argila úmida. Material desse tipo pode ser frágil, principalmente quando passa décadas em contato com água.

Os achados ajudam a separar diferentes momentos do sítio:

Achado O que foi encontrado Período
Grandes edifícios Estruturas urbanas Palácio, fortificação, armazém e área produtiva Mittani
Paredes de barro Algumas com vários metros Trechos preservados mesmo após décadas submersos Bem preservadas
Cinco vasos Recipientes de cerâmica Arquivo guardado dentro dos recipientes Médio-assírio
Mais de 100 tábuas Algumas com envelopes Registros em argila, possivelmente incluindo cartas Após 1350 a.C.

O que aconteceu quando a água começou a subir novamente?

A escavação não poderia deixar as paredes expostas. Depois da documentação, os edifícios foram cobertos com lonas plásticas ajustadas às estruturas e receberam uma camada de cascalho. A proteção foi instalada para reduzir os danos durante uma nova inundação do sítio.

A água acabou voltando e cobriu novamente Kemune. O curto período de seca, porém, permitiu registrar uma cidade com cerca de 3.400 anos, recuperar seu arquivo de argila e revelar como partes de construções frágeis conseguiram atravessar mais de quatro décadas debaixo de um reservatório.

💡 Curiosidade Algumas das tábuas encontradas ainda permaneciam dentro de seus envelopes originais de argila depois de décadas sob a água.
Tags: arqueologiacuneiformeIraqueZakhiku

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