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Uma resina de bétula mastigada há 5.700 anos preservou o genoma completo de uma mulher e micróbios que viviam em sua boca

Guilherme Araújo Por Guilherme Araújo
19/08/2026
Em Entretenimento
O material preservou informações que normalmente desapareceriam com o passar do tempo

O material preservou informações que normalmente desapareceriam com o passar do tempo

Há 5.700 anos, uma mulher mastigou resina de bétula no sul da Dinamarca e deixou ali muito mais que marcas de dentes. O pequeno pedaço atravessou milênios no solo. Preservado de forma rara, ele guardou um genoma humano completo, micróbios da boca e vestígios do que ela havia comido.

Como um material mastigado conseguiu guardar DNA por tanto tempo?

A peça foi encontrada em Syltholm, no sul da Dinamarca. Ela era feita de uma substância escura produzida pelo aquecimento da casca da bétula, material usado na pré-história como adesivo para prender peças de pedra a cabos e outras estruturas.

A resina de bétula endurece quando esfria. Mastigá-la poderia deixá-la maleável novamente. A própria composição do material e as condições de preservação no sítio ajudaram a manter moléculas de DNA presas em seu interior durante milhares de anos.

O DNA permitiu reconstruir detalhes raros sobre uma pessoa que viveu há milhares de anos

O que ficou preso naquele pequeno pedaço de resina?

O material funcionou como uma cápsula biológica. Aproximadamente 390 milhões de leituras de DNA foram geradas na análise, e mais de 30% puderam ser relacionadas ao genoma humano de referência.

A qualidade foi suficiente para reconstruir um genoma humano antigo completo. Também apareceram sequências de microrganismos e DNA de plantas e animais que estiveram em contato com a boca da pessoa.

Os principais vestígios recuperados foram:
1
DNA humano Material genético suficiente para reconstruir o genoma da pessoa que mastigou a resina.
2
Micróbios da boca Bactérias e outros microrganismos ajudaram a reconstruir parte do microbioma oral antigo.
3
Restos de alimentação Sequências de plantas e animais forneceram pistas sobre alimentos consumidos pouco antes.
4
DNA viral Entre as sequências identificadas havia material atribuído ao vírus Epstein-Barr.

Quem era a mulher que mastigou essa resina?

Os cromossomos presentes na amostra indicaram que o material havia sido mastigado por uma mulher. O perfil genético a aproximava mais dos caçadores-coletores do oeste da Europa continental que dos grupos da região central da Escandinávia daquele período.

Marcadores genéticos também permitiram estimar alguns traços físicos. A mulher provavelmente tinha pele escura, cabelos castanho-escuros e olhos azuis. Essas características são previsões baseadas no DNA preservado, e não uma reprodução direta de sua aparência.

O genoma permitiu chegar a algumas pistas:
  • O sexo biológico identificado foi feminino.
  • Os olhos provavelmente eram azuis.
  • A pele provavelmente apresentava pigmentação escura.
  • Os cabelos provavelmente eram castanho-escuros.

A análise também encontrou variantes associadas à não persistência da lactase na vida adulta, algo compatível com populações europeias que viveram antes da ampla expansão genética da capacidade de digerir leite depois da infância.

Até micróbios da boca ficaram presos no material mastigado e chegaram aos pesquisadores

O que os micróbios e os restos de comida acrescentaram?

O genoma humano contou apenas parte do que havia ficado preso na resina. Os pesquisadores também recuperaram DNA relacionado a avelã e pato-real, interpretado como possível vestígio de uma refeição recente.

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As sequências microbianas incluíram organismos comuns do ambiente bucal e outros capazes de causar doenças em determinadas condições. Também apareceu DNA atribuído ao vírus Epstein-Barr. A presença desse material, sozinha, não permite reconstruir sintomas apresentados pela mulher.

As diferentes pistas mostram o alcance da análise:
Vestígio O que indicou Resultado
DNA humano Material da pessoa que mastigou Sexo, ancestralidade e traços físicos prováveis Genoma completo
DNA microbiano Organismos presentes na boca Parte do microbioma oral daquela pessoa Preservado
DNA de alimentos Avelã e pato-real Possíveis alimentos consumidos recentemente Indício

Leia também: A mais de 2 quilômetros de profundidade, um navio de 2.400 anos ainda conservava mastro, lemes e bancos usados pelos remadores

Por que esse achado abriu uma nova porta para a arqueologia?

DNA antigo costuma ser procurado em ossos e dentes, mas nem todo sítio arqueológico preserva restos humanos. Em Syltholm, nenhum resto humano havia sido recuperado quando o estudo foi feito. Ainda assim, um objeto mastigado permitiu acessar diretamente o material genético de alguém que viveu ali.

Isso amplia o tipo de vestígio que pode revelar quem ocupou um lugar, suas relações genéticas e até parte de sua alimentação. Um pedaço de resina marcado pelos dentes acabou conservando informações que normalmente seriam procuradas dentro de um esqueleto.

💡 Curiosidade O genoma completo foi recuperado mesmo sem terem sido encontrados restos humanos no sítio arqueológico de Syltholm.
Tags: arqueologiaDinamarcaDNA antigoGenética

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