Cidade histórica muitas vezes rende apenas algumas horas entre igrejas e casarões. Mariana, na região central de Minas Gerais, oferece programa para um fim de semana inteiro: reúne o centro colonial mais antigo do estado, uma mina de ouro aberta a visitantes a 120 metros de profundidade e uma catedral onde um instrumento produzido na Alemanha no século XVIII ainda toca em concertos abertos ao público.
Como um órgão alemão do século XVIII chegou a uma catedral de Minas Gerais?
O caminho passou por uma sequência de mortes e heranças dentro da corte portuguesa. Conforme registro do tombamento municipal do Órgão Arp Schnitger, o instrumento foi construído na Alemanha na primeira década do século XVIII, permaneceu durante um período em Portugal e, colocado à venda em 1747, foi comprado pelo rei Dom João V. Ele pretendia enviá-lo a Mariana, mas morreu antes. Coube ao filho, Dom José I, transformar a peça em presente para a diocese, que já em 1748 mantinha organista e mestre de capela na Sé.
A importância da peça está principalmente em sua raridade. Segundo a Arquidiocese de Mariana, trata-se de um instrumento de 1701 sem equivalente fora do norte alemão e considerado o mais antigo em atividade no Brasil. A Câmara Municipal de Mariana descreve sua estrutura: são dois teclados, o Hauptwerk, responsável pelos tubos da parte superior da caixa, e o Brustwerk, ligado aos tubos posicionados diante do organista, formando um dos exemplares mais bem conservados da oficina.

Por que Mariana é considerada o berço de Minas Gerais?
A explicação está na ordem em que as instituições coloniais surgiram. O portal oficial de turismo de Minas Gerais registra que Mariana foi a primeira vila, o primeiro bispado e a primeira capital do estado, uma combinação de títulos que nenhuma outra cidade mineira reúne.
A história começou com ouro encontrado em um rio. Bandeirantes paulistas localizaram o metal em 1696 no curso que recebeu o nome de Ribeirão Nossa Senhora do Carmo, e nas margens nasceu o arraial elevado a vila em 1711. O desenho urbano seguiu um plano determinado pela Coroa, algo incomum entre povoados ligados ao ciclo do ouro, que normalmente cresciam acompanhando as trilhas do garimpo. Por isso, o centro de Mariana é mais plano e simétrico, diferente das ladeiras da vizinha Ouro Preto.

Onde está a maior mina de ouro aberta para visitação?
Ela fica no distrito de Passagem, a poucos minutos da área central. De acordo com o Portal do Turismo de Mariana, a descida pelas galerias da Mina da Passagem acontece em um trolley, por um trajeto de 315 metros que alcança 120 metros de profundidade.
Na parte subterrânea está um dos cenários mais curiosos do passeio. Quando as bombas deixaram de retirar água dos túneis, os aquíferos ocuparam as galerias e formaram um lago de águas cristalinas, hoje utilizado para mergulho por empresas especializadas. Durante a visita, o público passa por salões e colunas escavados à mão, marcas do trabalho escravizado que sustentou a extração durante o período colonial.

O que vale conhecer no centro histórico de Mariana?
O conjunto histórico é compacto e pode ser percorrido quase todo a pé, passando por casarões, igrejas e museus. Veja algumas das principais paradas:
- Praça Minas Gerais: reúne as igrejas gêmeas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, uma diante da outra, formando o cenário mais fotografado da cidade.
- Pelourinho: monumento de pedra localizado no centro da praça, ligado ao poder colonial e aos castigos impostos a escravizados.
- Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção: guarda o órgão histórico e recebe concertos regulares em dias definidos da semana.
- Museu Arquidiocesano de Arte Sacra: reúne pinturas, esculturas e peças de ourivesaria do barroco mineiro em um prédio localizado atrás da catedral.
- Igreja de São Pedro dos Clérigos: templo construído em uma parte alta da cidade, com vista para o casario colonial e uma planta pouco comum no barroco brasileiro.
Para completar o roteiro, a gastronomia pode ter tanto peso quanto a arquitetura, tradição que outros municípios mineiros levaram ao reconhecimento internacional. Mariana está a cerca de 120 km de Belo Horizonte, com acesso pela BR-356.
Quem deseja explorar melhor a primeira capital de Minas Gerais pode acompanhar este vídeo do canal Por onde andei, com Fernanda Götz, com mais de 63 mil visualizações, que percorre diferentes pontos de Mariana:
Como muda o clima de Mariana durante o ano?
A altitude das montanhas do Quadrilátero Ferrífero ajuda a amenizar o calor, enquanto o inverno seco costuma trazer manhãs com neblina baixa. Veja como o clima se comporta em cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a primeira capital de Minas e um som preservado há três séculos
Poucos lugares no Brasil permitem ouvir, em seu local original, um instrumento fabricado antes mesmo da fundação da cidade onde hoje está instalado. Mariana combina essa raridade com um centro planejado, duas igrejas posicionadas frente a frente e uma mina que ainda guarda marcas das galerias abertas à mão.
Reservar uma manhã para acompanhar o concerto na catedral e uma tarde para descer os 120 metros da mina é uma forma de conhecer duas das histórias mais marcantes de Mariana no mesmo fim de semana.




