Água mineral costuma ser rótulo de supermercado, raramente o motivo pelo qual uma cidade existe. No sul de Minas Gerais, Caxambu cresceu ao redor de nascentes que brotam gaseificadas do próprio solo, cada uma com uma composição química diferente da vizinha. Foi essa raridade geológica que trouxe a família imperial, ergueu hotéis, deu nome à cidade e sustenta até hoje o turismo de saúde na Serra da Mantiqueira.
Por que um único parque reúne 12 fontes de águas distintas?
A resposta está debaixo dos pés. O subsolo da região combina rochas xistosas e quartzitos atravessados por veios diferentes, e cada caminho percorrido pela água dissolve um conjunto próprio de sais minerais antes de chegar à superfície. O resultado é um caso raro de concentração: segundo o Governo de Minas Gerais, o Parque das Águas Lysandro Carneiro Guimarães ocupa 210 mil metros quadrados e abriga fontanários que totalizam 12 fontes de águas gasosas e medicinais, cada uma com propriedades distintas.
Dentro do mesmo perímetro estão ainda um gêiser de água fria, que jorra pela pressão natural do gás carbônico e não por calor vulcânico, um coreto, esculturas e um conjunto arquitetônico que mistura ecletismo, art nouveau, art déco e neoclássico. O parque passa por uma etapa de recuperação: em visita técnica ao município, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) registrou que a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), gestora da área, tem projetos prontos para restaurar todas as fontes e desassorear o lago.

O que a princesa Isabel foi buscar nas águas do sul de Minas?
Ela veio atrás de um tratamento para a infertilidade. Conforme a Prefeitura Municipal de Caxambu, a princesa Isabel visitou as fontes ao lado do marido, o Conde d’Eu, engravidou depois da temporada e, em agradecimento, mandou erguer a Igreja de Santa Isabel da Hungria. O episódio virou propaganda involuntária: a fama das águas curativas se espalhou pela corte, e o arraial que servia de refúgio para doentes virou destino da elite do Império.
O restante da história vem em ritmo acelerado. O povoado se tornou distrito de Baependi em 1875, quando a qualidade das águas foi oficialmente reconhecida, e alcançou a categoria de cidade em 1915. De acordo com a Câmara Municipal de Caxambu, a igreja teve a pedra fundamental lançada pela própria princesa em 1868 e hoje é tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA). O nome da cidade, na versão mais aceita, vem do tupi e significa algo como água que borbulha, descrição literal do que acontece nos copos servidos no parque.

O que visitar na cidade das águas que curam?
O roteiro cabe em um fim de semana e gira em torno do centro histórico, onde as atrações ficam a poucos minutos de caminhada umas das outras. Confira abaixo os pontos que resumem a experiência caxambuense:
- Parque das Águas Lysandro Carneiro Guimarães: o coração da cidade, com bosques, jardins em estilo inglês, lago e os pavilhões históricos que abrigam os fontanários.
- Balneário Hidroterápico: construção do início do século XX em estilo neoclássico, com vitrais franceses, que oferece banhos com as águas das fontes Mayrink.
- Gêiser Floriano Mendes: o jato de água fria impulsionado por gás carbônico, um fenômeno incomum fora de áreas vulcânicas.
- Igreja de Santa Isabel da Hungria: o templo nascido da promessa imperial, tombado pelo patrimônio estadual.
- Morro de Caxambu: mirante natural coroado pelo Cristo de Caxambu, com vista panorâmica do vale e das montanhas da Mantiqueira.
- Praça Dezesseis de Setembro: o principal largo do centro, reconhecido pelo Governo de Minas como patrimônio mineiro.
A cidade integra o Circuito das Águas, roteiro que reúne vizinhas como São Lourenço, Lambari e Cambuquira, e dialoga com outras estâncias mineiras, incluindo a cidade das águas termais que nasceu dentro de uma cratera. No campo institucional, a Prefeitura de Caxambu anunciou a conquista do selo Safe Travels, do World Travel & Tourism Council (WTTC), que sinaliza a adoção de protocolos reconhecidos internacionalmente para receber visitantes.
Quem quer conhecer Caxambu vai curtir este vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, onde Tati Marmon percorre o Parque das Águas e outras atrações da cidade mineira.
Como é o clima de Caxambu ao longo do ano?
A altitude da Mantiqueira segura o calor e garante madrugadas frescas mesmo em pleno verão, enquanto o inverno traz um período seco e de amplitude térmica alta, com manhãs geladas e tardes agradáveis. Veja abaixo como cada estação costuma se comportar na estância mineira:
Temperaturas aproximadas. As condições podem variar bastante de um ano para outro por influência de fenômenos como o El Niño e a La Niña, então vale conferir a previsão atualizada de Caxambu no Climatempo antes de viajar.
Como chegar até a estância hidromineral
A cidade fica no sul mineiro, perto do limite com São Paulo e Rio de Janeiro, o que explica a força do turismo de fim de semana. São cerca de 290 km desde a capital paulista e aproximadamente 250 km do Rio, com acesso principal pela BR-267, que corta a região e liga o município às rodovias que descem da Mantiqueira. Quem sai de Belo Horizonte percorre por volta de 370 km, e há voos regionais até Varginha para quem prefere encurtar o trecho de estrada.

Vale conhecer a cidade que nasceu da própria água
Poucos lugares no Brasil conseguem transformar uma característica do subsolo em identidade urbana, arquitetura e economia ao mesmo tempo. Em Caxambu, beber água virou programa turístico, e cada fonte carrega um nome, uma história imperial e um sabor diferente do outro lado do jardim.
Você precisa subir a Mantiqueira e experimentar, copo por copo, a cidade onde a água que borbulha do chão fundou tudo o que existe em volta.




