Caroline Jardim - Especial para o Estado de Minas

A popularização da inteligência artificial generativa transforma a forma como as pessoas buscam informações sobre saúde em ambiente digital. Aplicativos capazes de interpretar sintomas, responder dúvidas médicas e até analisar exames passaram a fazer parte da rotina de muitos usuários. No entanto, especialistas alertam que a tecnologia ainda apresenta limitações importantes e pode expor dados sensíveis quando utilizada sem os devidos cuidados.

Gabriel Barros é engenheiro de software com experiência em projetos de segurança de dados no Vale do Silício e cofundador da MYME, a healthtech brasileira com uma plataforma gratuita que centraliza digitalmente o histórico de saúde do usuário ou dependente. Segundo ele, os sistemas geram respostas com base em padrões identificados em grandes volumes de informações, o que pode resultar em conclusões genéricas ou até equivocadas.

“O usuário muitas vezes recebe uma resposta bem estruturada e passa a confiar nela como se fosse um diagnóstico. O problema é que a IA não compreende o contexto clínico completo de cada paciente”, afirma Barros.

O debate ocorre em um momento de expansão do uso da IA em diferentes áreas da economia, incluindo a saúde digital. Hospitais, clínicas e startups vêm adotando recursos de automação e análise de dados para otimizar processos, mas especialistas defendem que decisões médicas continuem sob supervisão humana.

Estudos apontam limitações dos modelos

Pesquisas recentes reforçam os alertas sobre o uso indiscriminado da tecnologia para fins de diagnóstico. O estudo Inteligência Artificial Generativa em Saúde e Medicina (2025), da National Academy of Medicine, destaca riscos relacionados à privacidade de dados, vieses algorítmicos, limitações de raciocínio e ocorrência de informações falsas geradas pelos modelos.

Outro levantamento publicado pela revista científica Nature apontou que modelos de IA utilizados para diagnósticos apresentaram acurácia média de 52,1%, índice inferior ao desempenho de médicos especialistas. A análise reuniu 83 estudos publicados entre 2018 e 2024.

Para especialistas em tecnologia, os resultados demonstram que essas ferramentas podem ser úteis como apoio informacional, mas não substituem a avaliação médica.

O desafio da privacidade dos dados

Além da precisão das respostas, cresce a preocupação com a segurança das informações compartilhadas pelos usuários. Exames, históricos médicos, prescrições e outros registros de saúde estão entre os dados considerados mais sensíveis pela legislação de proteção de dados.

Segundo Barros, muitas pessoas inserem esse tipo de conteúdo em plataformas digitais sem conhecer as políticas de armazenamento, uso e compartilhamento das informações.

“Quando você coloca exames, sintomas e outras informações pessoais em qualquer aplicativo ou chat, está criando um repositório extremamente sensível. Nem todas as plataformas possuem mecanismos adequados de segurança e governança de dados”, afirma.

A preocupação ganha relevância à medida que grandes empresas de tecnologia estudam modelos de negócios baseados em publicidade e personalização de serviços, o que amplia o debate sobre transparência e uso de dados pessoais.

Saúde digital avança com plataformas de gestão

Ao mesmo tempo em que surgem questionamentos sobre o uso de IA para diagnósticos, cresce o mercado de plataformas voltadas à organização do histórico médico dos pacientes.

Já existem ferramentas gratuitas para armazenamento de histórico médico que garantem segurança de dados, como a plataforma da MYME. É possível registrar sintomas, exames, consultas, prescrições médicas, medicação, vacinação e outras informações pertinentes sobre cada pessoa. O paciente consegue reunir os prontuários dos hospitais, clínicas e outras unidades de saúde e apresentá-los a qualquer profissional ou instituição do setor.

Segundo o especialista, esse tipo de ferramenta tem função diferente dos sistemas de inteligência artificial generativa. Enquanto os modelos de IA buscam interpretar informações e responder perguntas, as plataformas de gestão de saúde atuam na organização e disponibilidade dos dados para acompanhamento médico.

A tendência reflete um dos movimentos mais relevantes da economia digital: o crescimento das tecnologias voltadas à gestão segura de informações e à digitalização da jornada do paciente, sem substituir o papel dos profissionais de saúde.

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