Caroline Jardim - Especial para o Estado de Minas

A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se consolidar como um fator central na transformação dos negócios. É o que revela o estudo “Tech Trends”, da consultoria Deloitte, que chega à sua 17ª edição mostrando como empresas líderes estão avançando da fase de experimentação para a geração de resultados mensuráveis a partir do uso estratégico da tecnologia.

De acordo com o relatório, as organizações que vêm colhendo os melhores benefícios da IA não se limitam à automação básica de processos existentes. Em vez disso, estão reconstruindo operações do zero, redesenhando modelos de trabalho e conectando investimentos em tecnologia a objetivos claros de negócio. Esse movimento tem ampliado de forma significativa a distância competitiva em relação às empresas que ainda utilizam a IA apenas de maneira incremental.

No Brasil, o avanço acelerado da inteligência artificial ocorre em um contexto marcado por desafios econômicos, incertezas regulatórias e uma necessidade crescente de eficiência, o que torna ainda mais essencial o investimento em inovação estratégica, escalável e orientada a resultados. Ao mesmo tempo, algumas empresas ainda estão em estágios iniciais de maturidade quando se trata do uso mais avançado da tecnologia.

“A inteligência artificial está mudando a lógica de funcionamento das empresas. Não se trata mais de automatizar tarefas isoladas, mas de redesenhar processos de ponta a ponta, com foco claro em eficiência, escala e impacto no negócio. No entanto, nas conversas com CIOs, ainda é comum ver os casos de uso muito concentrados em aplicações de IA generativa via chat ou na automação de processos existentes, sem explorar plenamente as possibilidades do agentic AI”, afirma Eduardo Rodrigues, líder do CIO Program da Deloitte.

As cinco grandes tendências que devem moldar o futuro das empresas e seus desafios

O estudo destaca cinco grandes tendências que estão redesenhando o ambiente corporativo. Entre elas estão os robôs inteligentes e a chamada IA física, que deixam de ser sistemas pré-programados para atuar de forma autônoma em ambientes complexos; os agentes de IA, capazes de executar tarefas, tomar decisões e colaborar com equipes humanas; a necessidade de evolução da infraestrutura tecnológica para sustentar o uso intensivo da inteligência artificial; a transformação dos modelos operacionais de TI; e o paradoxo da cibersegurança impulsionada pela própria IA.

Segundo o relatório, as organizações ainda enfrentam dificuldades para escalar agentes autônomos justamente porque muitas tentam apenas automatizar processos desenhados para humanos, em vez de redesenhar operações para um modelo orientado à IA. Esse desafio se soma a discussões cada vez mais frequentes sobre infraestrutura, custos e soberania de dados. O questionamento sobre o modelo tradicional de nuvem e seus impactos financeiros também têm ganhado espaço na agenda dos executivos de tecnologia no mercado brasileiro.

“O custo das soluções em nuvem e o impacto direto na linha de OPEX vêm aparecendo de forma recorrente nas discussões com CIOs, assim como a preocupação com soberania de dados. Isso reforça a importância de decisões mais estratégicas sobre arquitetura, combinando nuvem, ambientes locais e edge computing de forma equilibrada”, explica Rodrigues.

A adoção crescente da inteligência artificial também exige profundas mudanças organizacionais e novas formas de trabalho, marcadas pela integração cada vez maior entre humanos e máquinas. Funções, competências e estruturas tradicionais estão sendo revistas, enquanto surgem novos papéis ligados à colaboração humano-máquina, à governança de IA e à gestão de ambientes tecnológicos cada vez mais complexos.

“O avanço acelerado da inteligência artificial impõe decisões estratégicas importantes, especialmente em relação à infraestrutura, à governança e à segurança. Para extrair valor real da IA, as empresas precisam equilibrar inovação com responsabilidade, preparando suas estruturas tecnológicas e seus times para operar em um ambiente cada vez mais integrado entre humanos e máquinas”, destaca Ronaldo Fragoso, sócio-líder para a indústria de Technology, Media & Telecommunications da Deloitte Brasil.

Novos sinais no radar

No campo da cibersegurança, a pesquisa ressalta que a inteligência artificial cria um dilema. Ao mesmo tempo em que amplia a superfície de ataque e introduz novas vulnerabilidades, a tecnologia também oferece ferramentas avançadas para defesa digital, como detecção automatizada de ameaças, simulações de ataques e respostas em velocidade de máquina. Esse tema ganha ainda mais relevância no Brasil, que possui um dos sistemas financeiros mais digitalizados do mundo e uma população reconhecida pela rápida adoção de novas tecnologias, fatores que ampliam a exposição a riscos cibernéticos e tornam a segurança um elemento central da estratégia de negócios.

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Além dessas tendências, o relatório destaca ainda oito sinais emergentes que devem permanecer no radar dos líderes empresariais, como o desenvolvimento de chips neuromórficos inspirados no funcionamento do cérebro humano, avanços em autenticação biométrica, novas aplicações de IA na borda, impactos dos agentes inteligentes sobre privacidade e governança e a evolução da otimização para mecanismos generativos.

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