IA avança no transporte público e muda gestão com uso de dados
Tecnologia permite prever demanda, reduzir fraudes e otimizar rotas em tempo real, ampliando eficiência e segurança na mobilidade urbana brasileira
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Caroline Jardim - Especial para o Estado de Minas
No Brasil, a expansão da IA aplicada à mobilidade urbana está permitindo que operadores e gestores públicos tomem decisões com base em análise massiva de dados, desde a programação de frotas até a prevenção de fraudes em bilhetagem. O movimento acompanha uma tendência global. Segundo a Precedence Research, o mercado mundial de IA aplicada a smart cities foi estimado em US$ 50,63 bilhões em 2025 e deve alcançar cerca de US$ 460,47 bilhões até 2034, crescendo a uma taxa média anual de 27,8%.
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No transporte coletivo, a IA encontra um enorme volume de dados operacionais. “Cada validação de bilhete eletrônico por cartão, cada localização de veículo via GPS e cada registro de viagem gera informações que podem ser analisadas para melhorar a eficiência do sistema”, comenta João Valle, diretor da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana e pioneira da bilhetagem eletrônica no Brasil.
No Brasil, o transporte por ônibus, principal modal urbano do país, movimenta um mercado bilionário. Foram R$ 45,67 bilhões em receitas só em 2022, respondendo por mais da metade do faturamento do transporte público nacional, de acordo com a Gitnux. Dados mais recentes, publicados em 2025 pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apontam que o país possui cerca de 107 mil ônibus dedicados ao transporte público urbano, dentro de uma frota nacional de aproximadamente 773,5 mil ônibus de todos os tipos.
Especialista em novas tecnologias para ônibus do transporte público, a Empresa 1 atende mais de 150 cidades brasileiras, mantendo 18 milhões de cartões inteligentes em uso para pagamento de passagens, realizando 20 milhões de certificações de crédito diariamente e gerando 218 milhões de imagens biométricas por mês para verificação da identidade dos usuários; tudo gerenciado em 90 datacenters espalhados pelo Brasil.
Da planilha ao algoritmo
Tradicionalmente, o planejamento de linhas e horários era feito a partir de levantamentos periódicos de demanda, muitas vezes com defasagem de meses ou até anos. Com a IA, os dados passam a ser processados continuamente.
Algoritmos de aprendizado de máquina (machine learning) conseguem identificar padrões de deslocamento, prever picos de demanda e sugerir ajustes operacionais quase em tempo real. Em vez de reagir ao congestionamento ou à superlotação, agora os operadores podem antecipar o problema. “Quando você cruza dados de bilhetagem, GPS da frota e histórico de comportamento dos passageiros, passa a enxergar o sistema de forma muito mais precisa”, afirma Valle.
Além da análise de demanda e operação, a inteligência artificial também amplia a capacidade de monitoramento da segurança dentro dos veículos. Com o apoio das câmeras embarcadas nos ônibus, é possível criar alertas automáticos para situações de risco ou não conformidade, como portas se fechando sobre passageiros, sinais de sonolência do motorista e outros comportamentos que exigem atenção imediata da operação. Na prática, isso permite uma atuação mais rápida das equipes e contribui para tornar a viagem mais segura para passageiros e condutores.
Para o diretor da Empresa 1, a IA muda a lógica da gestão do transporte público. “Antes, muitas decisões eram tomadas com base em média histórica. Hoje conseguimos prever padrões de deslocamento e agir antecipadamente”, explica. “Se os dados mostram, por exemplo, que a previsão de chuva costuma aumentar a demanda em determinadas linhas, o sistema pode recomendar reforço de veículos e redução do intervalo entre ônibus antes que ocorra uma superlotação”, diz.
Combate a fraudes e perda de receita
Outra frente em que a IA vem ganhando espaço é na proteção das receitas do sistema. A bilhetagem eletrônica, implantada em larga escala no país desde os anos 2000, já gera registros detalhados das viagens. Com ferramentas de análise avançada, esses dados podem revelar comportamentos atípicos.
Um exemplo é a tecnologia de biometria facial apoiada por inteligência artificial para reforçar os mecanismos de segurança e integridade dos benefícios tarifários. A solução permite verificar, no momento da validação, se o usuário que está utilizando gratuidades ou descontos — como tarifa zero, passe livre estudantil, benefícios sociais ou meia tarifa — é de fato o titular do cadastro. A partir da comparação biométrica com as bases registradas no sistema, a tecnologia contribui para coibir fraudes, reduzir a evasão tarifária e garantir que os benefícios cheguem corretamente a quem tem direito.
“Fraude no transporte público não costuma ser evidente. Ela aparece como pequenos desvios de padrão. A inteligência artificial permite detectar essas anomalias muito mais cedo”, comenta Valle. A redução de perdas financeiras tem efeito direto na sustentabilidade do sistema, especialmente em um contexto em que muitas redes urbanas enfrentam queda de passageiros desde a pandemia.
Planejamento urbano mais inteligente
A aplicação de IA no transporte público não se limita à operação diária. Os dados gerados também alimentam o planejamento urbano de médio e longo prazo. Com análise avançada de mobilidade, gestores conseguem identificar áreas com déficit de oferta de transporte, trajetos subutilizados ou regiões com crescimento acelerado da demanda.
Essas informações são extremamente úteis para as políticas públicas, desde a criação de corredores exclusivos para ônibus do transporte público até a revisão de subsídios tarifários. “As cidades mudam o tempo todo, e o transporte precisa acompanhar essas transformações”, diz Valle.
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