Desejo de troca faz setor de eletrônicos crescer 11%
Em ano de Copa do Mundo, mercado de eletroeletrônicos segue aquecido após crescimento de dois dígitos em 2025, estimulado pelo desejo do consumidor de trocar os aparelhos antigos mesmo com juros e endividamento elevados
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São Paulo — O mercado brasileiro de eletrônicos mantém ritmo de crescimento mais acelerado do que o Produto Interno Bruto (PIB), na casa de dois dígitos, mesmo diante de um cenário econômico marcado por juros e endividamento das famílias elevados. Esse consumo, em grande parte, avança por conta da busca por novos produtos e novas tecnologias.
Conforme dados da Associação Brasileira de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), o setor comercializou 54 milhões de unidades, entre janeiro e maio de 2026, crescimento de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. A entidade destaca que o avanço consolida um novo patamar de consumo para a indústria eletroeletrônica.
Mateus Bando, líder de tecnologia da NielsenIQ Brasil, destaca que o setor vive um ciclo de substituição de produtos, impulsionado principalmente pela necessidade de troca de equipamentos antigos e pela busca por itens que facilitem a rotina dentro de casa.
Durante a Eletrolar Show, em São Paulo, Bando destacou que o mercado global de tecnologia e eletroeletrônicos movimenta cerca de US$ 216 bilhões e registrou crescimento de 8,9% em faturamento no ano de 2025, quando o PIB brasileiro cresceu 2,3%. Na América Latina, o avanço chega a 11% no mesmo período. No Brasil, o setor de tecnologia acumula 30 meses consecutivos de crescimento.
"Mesmo com depreciação da economia, juros muito elevados e número de famílias endividadas, quando a gente olha para eletro especificamente, temos crescimentos recorrentes ao longo dos últimos anos", afirmou.
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O presidente-executivo da Eletros, Jorge Nascimento, também ressaltou a força da indústria eletroeletrônica brasileira e o papel do setor na economia nacional. Segundo ele, os resultados mostram a resiliência das empresas mesmo diante de fatores, como juros elevados, pressão sobre a renda e desafios regulatórios. Engrossando o coro, o presidente da Eletrolar, Carlos Clur, afirmou que o mercado atravessa um período estratégico para a indústria, com transformação no comportamento do consumidor e fortalecimento da conexão entre fabricantes e varejo.
Na avaliação de Clur, a evolução do setor passa pela capacidade das empresas de acompanhar novas demandas, especialmente relacionadas à tecnologia, inovação e experiência de compra.
O mercado brasileiro de eletrônicos movimenta R$ 51 bilhões por ano em consumo. A categoria de telecomunicações continua como um dos principais motores do setor, com cerca de R$ 15 bilhões em vendas e crescimento de 7,1%. Ao mesmo tempo, categorias como linha branca, áudio e vídeo, notebooks, tablets e dispositivos conectados ganham espaço.
Entre os destaques estão os produtos voltados à praticidade. Segundo o executivo, equipamentos que tornam a rotina mais simples apresentam desempenho superior ao de categorias tradicionais. Geladeiras, máquinas de lavar, lava-louças, pequenos eletrodomésticos, relógios inteligentes e fones de ouvido apresentam crescimento de dois dígitos. "Os facilitadores crescem mais rápido. As categorias core crescem ou ficam ali empatadas com o ano passado", explicou Clur.
O movimento também está relacionado ao envelhecimento dos produtos adquiridos nos últimos anos. De acordo com a análise da NielsenIQ, grande parte das compras atuais acontece pela troca de equipamentos quebrados ou defasados. O ciclo médio de substituição dos principais eletrônicos varia entre seis e oito anos. "Existe um tempo de ciclo de vida. Em 2020, seis anos atrás, estávamos em plena pandemia. Categorias que não foram trocadas nesse momento agora começam a surgir com uma intensidade muito grande", afirmou Bando.
Mesmo com crédito mais caro, o consumidor continua comprando, principalmente por meio de parcelamentos. O comportamento indica uma demanda reprimida, com famílias retomando investimentos em produtos que ficaram mais tempo em uso.
Jornada de compra
Outro ponto destacado foi a mudança na jornada de compra. O comércio on-line ganhou relevância e já supera as lojas físicas em faturamento. Cerca de 44% dos consumidores que compram eletrônicos pesquisam apenas pela internet, e 71% deste grupo conclui a compra no ambiente digital. Apesar disso, a loja física continua importante. Segundo Bando, uma parcela dos consumidores ainda faz uma jornada híbrida, pesquisando on-line e finalizando presencialmente.
A Copa do Mundo também aparece como um dos fatores de estímulo para o mercado de televisores neste ano. A expectativa é que a categoria seja beneficiada pelo evento esportivo, especialmente com o avanço da Seleção Brasileira. "O início do ciclo de Copa começa antes. Em 2018, o aumento de vendas foi de 32,7% um pouco antes do torneio. Para este ano, estimamos que o volume de TVs esteja cerca de 15% acima", disse.
O crescimento, porém, não depende apenas de promoções. Segundo o levantamento, durante períodos de Copa o consumidor tende a buscar telas maiores e produtos mais tecnológicos, mesmo sem grandes descontos. Modelos acima de 65 polegadas continuam ganhando participação no mercado.
Necessidades de adaptações
Apesar do crescimento registrado pelo mercado brasileiro de eletrônicos, o setor enfrenta desafios relacionados ao cenário econômico, mudanças no comportamento do consumidor e necessidade de adaptação das empresas. Segundo Mateus Bando, líder de tecnologia da NielsenIQ Brasil, o avanço das vendas ocorre em um ambiente de pressão financeira para as famílias, com juros elevados e maior comprometimento de renda.
De acordo com o executivo, a expansão do setor não significa necessariamente um cenário econômico favorável em todas as áreas, mas o consumo de tecnologia segue aquecido, principalmente, porque muitos consumidores estão substituindo produtos antigos. "Boa parte do crescimento é de 'replace a fault product', ou seja, estão trocando um produto que já está quebrado", explicou.
Um dos principais desafios é equilibrar preços e demanda. Apesar de o faturamento crescer acima das unidades vendidas, o mercado observa uma mudança no perfil de consumo: produtos mais tecnológicos e premium passaram a ganhar espaço, mas com preços mais acessíveis.
De acordo com Bando, o chamado "premium acessível" tem impulsionado o mercado. Consumidores buscam equipamentos melhores, mas ainda atentos ao custo-benefício. Outro desafio está relacionado ao crédito. Com financiamentos mais caros, as empresas precisam lidar com consumidores que continuam comprando, mas com maior dependência de parcelamentos. "O crédito está mais caro e as pessoas estão parcelando muito, mas mesmo assim estão comprando", afirmou.
A transformação digital também pressiona o varejo. A expansão das vendas on-line e dos marketplaces muda a forma como consumidores pesquisam e decidem suas compras. Empresas precisam investir em presença digital, publicidade on-line e estratégias para encurtar a jornada de compra.
A reforma tributária, aprovada em 2023, também aparece como ponto de atenção para o varejo digital, de acordo com o advogado tributarista e empresarial José Lima Neto. Segundo ele, as mudanças podem alterar a gestão financeira das empresas.
A nova regra prevê a substituição de PIS/Cofins, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre Serviços (ISS) por um padrão dual de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), tributo estadual e municipal, exigirá adaptação dos negócios. "Isso pode ter uma variação das empresas com relação ao seu caixa. A empresa pode diminuir ou aumentar a disponibilidade financeira dependendo da operação", afirmou.
Um dos pontos citados foi o sistema de pagamento segregado, conhecido como split payment, que prevê a separação automática do valor do tributo no momento da operação. "O tributo é cobrado agora por fora. Você tem o valor do seu produto e o imposto vem por fora. Você vai saber exatamente o que está pagando de tributo e tem crédito dessas operações", explicou.
Para o setor de eletrônicos, a adaptação a novas regras fiscais, mudanças no comportamento do consumidor e disputa entre canais físicos e digitais estarão entre os principais desafios dos próximos anos. Mesmo com oportunidades de crescimento, as empresas precisarão equilibrar inovação, preço e eficiência operacional para acompanhar um consumidor mais conectado e mais criterioso.
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*A jornalista viajou a convite da Eletrolar