Em 27 de fevereiro de 1996, dois cartuchos para um console portátil deram início ao que viria a se tornar o maior fenômeno econômico da cultura pop contemporânea. Pokémon Red e Green nasceram discretos no Japão. Hoje, Pokémon é a franquia mais lucrativa do entretenimento mundial, à frente de gigantes do cinema e da música.

A trajetória da franquia envolve estratégia empresarial sofisticada, disputas por propriedade intelectual, reinvenções tecnológicas sucessivas e a conversão da nostalgia em ativo financeiro global.

Ao longo das próximas linhas, revisitamos as etapas que transformaram um jogo portátil em um império global. Dos bastidores corporativos à expansão transmídia, das crises da indústria às apostas tecnológicas mais ousadas, essa é a história de como Pokémon construiu um modelo de negócio capaz de atravessar gerações e redefinir a economia da cultura pop.

A aposta na palma da mão

Mais tarde, a Nintendo se interessou pelo conceito e, após algumas adaptações, os jogos Pokémon Red e Green foram lançados no Japão em 1996, para Game Boy

divulgação / nintendo

O sucesso inicial só foi possível porque a infraestrutura já estava pronta. Em 1989, a Nintendo lançou o Game Boy, consolidando o mercado de consoles portáteis com cartuchos intercambiáveis. O aparelho carregava no currículo uma das disputas comerciais mais emblemáticas da indústria, a batalha pelos direitos de Tetris, envolvendo negociações complexas com o governo soviético no fim da Guerra Fria.

Foi nesse ecossistema que o criador Satoshi Tajiri encontrou o terreno ideal para colocar em prática sua ideia inspirada na infância colecionando insetos nos subúrbios de Tóquio. Ao lado do ilustrador Ken Sugimori e do estúdio Game Freak, Tajiri transformou um conceito simples de captura e troca em uma experiência social portátil. O Game Boy oferecia a base ideal para a proposta de Tajiri. O cabo link transformou a troca de criaturas em eixo central da experiência e ajudou a consolidar o modelo social que sustentaria a franquia nas décadas seguintes.

Com Mario e Zelda dominando os consoles de mesa, a Nintendo precisava de uma nova linguagem para o portátil. Pokémon trouxe algo diferente: um universo expansível que cabia no bolso e incentivava a troca entre jogadores por cabo link. Era, em essência, uma rede social analógica antes da internet de massa.

Anos 1990: a explosão transmídia

Visual de Pokémon Red no Game Boy relembra o início do império em 1996

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A virada não aconteceu só nos videogames. O anime chegou à televisão aberta, o card game se espalhou pelas escolas e o personagem Pikachu virou símbolo global. A marca se organizou como um sistema integrado, no qual cada produto alimentava o outro.

No fim da década, foi criada a The Pokémon Company, estrutura dedicada exclusivamente a gerir a propriedade intelectual. Diferentemente de outras franquias, Pokémon passou a operar como um produto autônomo dentro do guarda-chuva da Nintendo, com gestão própria de licenciamento, marketing e expansão internacional.

Essa profissionalização foi decisiva para a longevidade.

Anos 2000: consolidação e sustentabilidade

Cartas clássicas de Charizard, Venusaur e Blastoise simbolizam a origem do mercado bilionário do Pokémon TCG

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A década seguinte foi de maturidade. A franquia precisava provar que não era uma febre passageira. Vieram os primeiros remakes, como Pokémon FireRed e LeafGreen, relançando a experiência original para novas gerações no console Game Boy Advance.

Também surgiram experimentos que conectavam portátil e console doméstico, como Pokémon Stadium e Pokémon Colosseum. A lógica era ampliar pontos de contato e manter o consumidor dentro do universo.

Nesse período, o card game começou a ganhar valor como item de coleção. O que era brincadeira infantil passou a ser tratado como investimento.

Anos 2010: crise, smartphones e reinvenção

Pokémon GO une realidade aumentada e espaço urbano, fenômeno que completa 10 anos em 2026

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A década de 2010 trouxe turbulência. O avanço dos smartphones pressionou o mercado tradicional de consoles. O Nintendo 3DS, portátil da época, enfrentou dificuldades iniciais e o Wii U, que sucedeu o Wii, que vendeu mais de 100 milhões de unidades, não alcançou as expectativas comerciais.

Nesse cenário, Pokémon foi pilar de sustentação. Títulos como Pokémon X e Y introduziram megaevoluções e gráficos em 3D. Pokémon Omega Ruby e Alpha Sapphire exploraram a nostalgia. Pokémon Sun e Moon reinventaram estruturas clássicas.

Mas o verdadeiro divisor de águas veio em 2016 com Pokémon GO, desenvolvido pela Niantic. Foi a primeira vez que uma grande IP da Nintendo entrou oficialmente no smartphone. A febre reorganizou o espaço urbano por algumas semanas e mostrou como um aplicativo poderia interferir diretamente na economia real. Praças lotaram, restaurantes se tornaram pontos estratégicos e milhões de pessoas experimentaram realidade aumentada pela primeira vez.

Em 2017, o Nintendo Switch marcou a retomada da empresa. O console vendeu 15 milhões de unidades no primeiro ano, número equivalente a toda a vida útil do Wii U. Pokémon foi peça-chave nessa recuperação.

Em 2018, Pokémon Let's Go Pikachu e Let's Go Eevee simbolizou uma estratégia clara de converter jogadores casuais do mobile em compradores de hardware. O jogo simplificou mecânicas, incorporou o sistema de captura de Pokémon GO e criou um ciclo de engajamento cruzado. O usuário capturava criaturas no celular, transferia para o console e desbloqueava recompensas exclusivas, como o mítico Meltan.

Era a lógica de plataformas de streaming aplicada aos games: manter o consumidor circulando dentro do ecossistema. Se a década anterior foi marcada pela realidade aumentada, a atual é definida pela convergência digital e pelo mercado financeiro informal.

Anos 2020: recordes financeiros

Parque temático dedicado a Pokémon amplia a marca para o turismo e a economia de experiências

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Durante a pandemia, cartas raras dispararam de preço e abriram espaço para um mercado colecionável robusto. Esse movimento de valorização continuou nos anos seguintes e, em 2026, um exemplar da carta Pikachu Illustrator foi vendido por US$ 86,5 milhões, recorde no mercado de colecionáveis.

Paralelamente, o jogo Pokémon GO celebra 10 anos desde seu lançamento em julho de 2016, com eventos aniversariantes e novidades dentro do aplicativo que reforçam seu impacto contínuo no entretenimento mobile. Novos títulos principais também sustentam a franquia: Pokémon Scarlet e Pokémon Violet impulsionaram vendas massivas em 2022, e Pokémon Legends: Z-A, lançado em 2025, representou o principal lançamento antes dos 30 anos da marca.

Em 2026, a celebração dos 30 anos de Pokémon ganhou destaque global com anúncios durante o Pokémon Presents do Dia de Pokémon. Entre as novidades estão os novos títulos da série de videogames, Pokémon Ventos e Pokémon Ondas, que serão oficialmente os primeiros a contar com o português do Brasil como idioma disponível. A apresentação também trouxe atualizações para PokémonXP, o Campeonato Mundial Pokémon 2026, Pokémon Champions, Pokémon Estampas Ilustradas e outros produtos da franquia.

Como parte da comemoração, Pokémon FireRed Version e Pokémon LeafGreen Version foram relançados em versão digital para Nintendo Switch, permitindo que novas gerações experimentem os jogos originais em português. Os lançamentos reforçam a estratégia da franquia de conectar nostalgia, inovação e acessibilidade linguística, consolidando Pokémon como fenômeno cultural e econômico capaz de engajar fãs de todas as idades ao redor do mundo.

Essa dinâmica de produtos físicos, digitais e experiências interativas ganhou novo impulso com Pokémon TCG Pocket, versão digital do card game lançada em outubro de 2024. O aplicativo faturou cerca de US$ 1,3 bilhão em seu primeiro ano, superando marcos anteriores como Pokémon GO e fortalecendo a economia do ecossistema. Expansões como Maravilhas de Paldea e a introdução de trocas entre amigos reforçaram o apelo comunitário e econômico.

Ao mesmo tempo, iniciativas como o app Pokémon Sleep exemplificam a convergência entre tecnologia e bem-estar, usando mecânicas gamificadas para engajar usuários. A expansão para aplicações vestíveis e a perspectiva de integração com inteligência artificial indicam um futuro no qual o universo Pokémon continuará influenciando consumo digital, dados comportamentais e experiências tecnológicas em larga escala.

Um estudo de caso da economia da atenção

Cidade de Kalos em Pokémon Legends Z-A marca a nova fase da franquia antes dos 30 anos

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Pokémon revela uma lógica que vai além das estratégias de jogo ao construir um sistema capaz de monetizar atenção, comunidade e nostalgia. A marca atravessou televisão aberta, cinema, streaming, moda de luxo e mercado de colecionáveis. Sustenta cadeias produtivas que vão de programadores e animadores a fabricantes de brinquedos e criadores de conteúdo digital. É um modelo empresarial que transformou cultura pop em infraestrutura econômica e se consolidou ao longo do tempo.

Três décadas depois, Pokémon deixou de ser apenas entretenimento infantil. Tornou-se linguagem global, ativo financeiro e laboratório de tendências tecnológicas.

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Enquanto houver desejo humano de colecionar, competir e pertencer, haverá um Pikachu por perto. E, com ele, uma engrenagem econômica funcionando a pleno vapor.

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