Para o presidente da abrasel, BH precisa ter calçadas mais amplas e os clientes têm que falar mais baixo para a convivência com os bares ser mais harmônica

 -  (crédito: Jair.Amaral/EM/D.A Press - 20/12/2023)

Para o presidente da abrasel, BH precisa ter calçadas mais amplas e os clientes têm que falar mais baixo para a convivência com os bares ser mais harmônica

crédito: Jair.Amaral/EM/D.A Press - 20/12/2023

 

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, reforçou que o setor ainda passa por um endividamento forte, como reflexo dos tempos de pandemia. Segundo Solmucci, o fechamento do comércio durante o confinamento fez com que 1/3 dos estabelecimentos fechassem. No entanto, o empresário também afirmou que o bom momento da economia contribuiu para um crescimento de 15% do setor em relação ao período pré-pandemia, uma vez que os consumidores passaram a valorizar mais os bares e restaurantes. Solmucci foi o entrevistado do ‘EM Minas’, programa da TV Alterosa, em parceria com o jornal Estado de Minas e o Portal UAI, exibido na noite de ontem.


O presidente da entidade patronal também comentou as recentes polêmicas envolvendo a Prefeitura de Belo Horizonte, que no final do ano passado havia promovido ações para retirar mesas e cadeiras de bares em calçadas na região central. “Esse é um desafio importante da nossa cidade, porque nós temos calçadas muito mal construídas”, disse. Em conversa com o jornalista Benny Cohen, Solmucci ainda comentou outros pontos importantes para o comércio, como o horário de verão, a reforma tributária e a compra parcelada sem juros. A seguir, confira a íntegra da entrevista com o presidente nacional da Abrasel.

A Abrasel encaminhou, meses atrás, uma solicitação ao presidente Lula (PT) para que adotasse novamente o horário de verão. Vocês tiveram uma resposta?
Esse é um assunto importante. O próprio presidente Lula fez uma pesquisa, assim que foi eleito, e deu quase 70% dos brasileiros querendo o horário de verão. Ele tem duas dimensões: a questão da economia da energia e a questão da economia real. Ele faz crescer de 15% a 20% o faturamento de bares e restaurantes. Até para o comércio é bom, o Luciano (Hang) da Havan me disse que cresce de 3% a 5% as vendas dele. O ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia), inclusive, disse que era preciso olhar não apenas a questão da energia, mas o benefício para a sociedade como todo. Infelizmente, esse debate está meio solto e não avançou. Acho que a gente teve uma bobeada no governo passado de ter olhado só a questão da economia de energia, que felizmente nossas represas estão cheias, mas é uma questão que vai e volta. Mexer no horário de verão para o nosso setor não foi bom, mas acreditamos que ainda seja possível. O tempo está passando e o horário de verão está ficando curto, mas seria muito positivo que ele voltasse.

O horário de verão parece ser uma medida que altera a vida de todo mundo. As pessoas aproveitam mais o dia. Como você vê isso?
É muito gostoso. Temos que lembrar que em Belo Horizonte nós estamos na cidade capital mundial dos bares e restaurantes, o mineiro adora sair do trabalho e tomar uma. Quando você tem o horário de verão, fica mais gostoso, você tem uma sensação quase que de praia. O bar é nossa praia.

A Abrasel, hoje, representa quantos estabelecimentos neste segmento da gastronomia?
O setor tem 1,5 milhão de CNPJs ativos, nós temos 5 milhões e 300 mil pessoas trabalhando diretamente e mais de 2,1 milhões de empreendedores. É o setor que tem o maior número de empreendedores no país, é muito estabelecimento, muita gente trabalhando. São mais de 7 milhões de pessoas trabalhando diretamente como empreendedor ou como trabalhador. É um setor extremamente capilar, está presente em qualquer município, desde aquele vilarejo das nossas Minas Gerais, na cidade mais distante tem uma luzinha de bar. É um setor que tem muita importância socioeconômica, e nós da Abrasel buscamos cobrir ele todo, representá-lo, de um modo geral, no Brasil inteiro. Nós temos unidades em todos os estados, aqui em Minas, por exemplo, nós temos 10 regionais, porque o nosso objetivo é apoiar todos. Nós trabalhamos com dois conceitos: aquele associado que paga a organização, mas o benefício que a gente trabalha é para o coletivo, para essa turma toda. São mais de 140 mil em Minas Gerais.

Parece que qualquer alteração nas 'regras do jogo’ afeta uma quantidade absurda de empregados e empreendedores. Qual a sua visão sobre isso?
Afetam a vida da gente como um todo. Vimos isso na pandemia. O brasileiro que saiu da pandemia, 93% deles valorizam mais o bar e restaurante do que valorizava antes, porque sentiu a falta que faz esse serviço para a sociedade.

Em alguns segmentos ainda há reflexos da pandemia. No segmento de bares e restaurantes isso está vencido?
Temos reflexos positivos e negativos. O que é duro e ainda continua aí? Estamos muito endividados. Belo Horizonte, por exemplo, teve o recorde mundial de dias fechados, nenhum outro lugar do planeta teve tanto tempo fechado. Para você ter uma ideia, nós temos cidades no Brasil que não fecham nenhum dia, a exemplo de Vitória. Aqui nós tivemos uma visão, na nossa opinião, inadequada do gestor público da época, então gerou essa consequência. Mas esse é um problema do Brasil inteiro, tá todo mundo endividado.
As margens estão apertadas porque a inflação veio forte, os juros vieram fortes. A dor que o consumidor sente ao pagar o alimento, nós também sentimos porque é um insumo básico nosso. Quando os juros sobem e apertam, apertam para gente, então a situação financeira está apertada. Agora, o faturamento está lindo, a população voltou com força ao setor. Faturamos hoje quase 15% a mais em termos reais do que faturamos na pré-pandemia. Na pandemia muita gente foi a zero, perdemos mais de 1/3 das empresas.

Depois de décadas de luta por uma reforma tributária, finalmente o projeto foi aprovado. O setor de bares e restaurantes ficou feliz?
A reforma é um desejo da sociedade há mais de 40 anos. A questão tributária no Brasil é um manicômio. Às vezes você tem que sair com um caminhão de um estado, ir para o outro, e voltar para o mesmo estado para pagar menos imposto. Então, nós temos uma perda de produtividade, guerra (fiscal), e a reforma foi muito positiva. A dificuldade é natural. Tem uma máxima, inclusive de Maquiavel, que falava: ‘quando você vai mexer em uma coisa que tá estabelecida há muito tempo, aqueles que vão pagar um pouquinho a mais esperneiam com muita força’. O benefício é difuso, ele é de longo prazo da sociedade. Eu ganhei, você ganhou, todo mundo ganhou com a reforma tributária. Só que a gente não foi lá para brigar, agora, quem perdeu um pouquinho vai com mais força. No setor de bares e restaurantes nós fomos com muita força, no sentido de nos alinharmos com a melhor prática mundial e conseguimos uma alíquota especial para o setor, como é em toda a Europa, quando você tem em torno de 40% da alíquota máxima pelo seu benefício sócio-econômico. Nós nos alinhamos com as melhores práticas do mundo e estamos satisfeitos.

Recentemente bares e restaurantes de BH foram alvos de uma operação da prefeitura porque estavam mantendo cadeiras e mesas nas calçadas depois das 23h. Como a Abrasel se posiciona diante deste cenário?
Esse é um desafio importante da nossa cidade, porque nós temos calçadas muito mal construídas. Calçadas estreitas e esburacadas. Temos uma população ainda pouco educada, a gente fala muito alto nos bares e restaurantes, a gente precisa tomar cuidado com essa questão. 80% dos belo-horizontinos preferem sentar num bar nas calçadas, então a gente quer e precisa harmonizar isso com a vizinhança. Agora, a questão é de dimensão urbanística. Por exemplo, o Buritis é um bairro recente em Belo Horizonte que poderia ter adotado as boas práticas de calçadas europeias, americanas, calçadas largas, boas para se caminhar, adequada para um deficiente e que permitisse o desejo da população de sentar na mesa do bar. Então nós precisamos, daqui para frente, olhar com mais cuidado para o nosso plano diretor. Nós como consumidores precisamos falar um pouco mais baixo, e a prefeitura precisa ser mais tolerante, compreensiva, adotar um papel mais de educação e para isso a Abrasel está disponível para fazer trabalho conjunto. Claro que a gente não pode impedir a passagem do cidadão, agora temos que lembrar que um bar aberto significa um ponto de luz, de segurança pública. As pesquisas apontam que todo morador prefere andar numa rua com bar aberto do que com ele fechado. É um desafio harmonizar tudo isso.

A prefeitura recuou muito rapidamente da operação. O senhor acha que isso se deve ao que?
É o bom senso do prefeito. Primeiro que o cidadão belo-horizontino foi massivamente contra a operação, ela foi feita foi com truculência, levando as cadeiras, fechando, multando. O 'bom princípio' que é adotado, especialmente para a pequena empresa, passou em lei federal, estabelece que a primeira fiscalização tem que ser sempre instrutiva, não pode ser punitiva. Isso vale para a questão fiscal e deveria também valer para as questões urbanísticas.

Tem uma outra questão também que costuma gerar polêmica, que são os artistas, a música ao vivo. Isso também gera um problema para bares e restaurantes que costumam ter atrações ao vivo?
Eu acho que isso gera um problema para toda a sociedade, porque foram os bares da vida que muitos artistas pegaram a sua primeira profissão. O bar e restaurante, no mundo inteiro, nos Estados Unidos, em especial muito forte na Europa, é onde o artista se apresenta para os pequenos públicos, é onde a gente abre espaço para amanhã ter os grandes ídolos que nós temos hoje. A cidade de Belo Horizonte foi enrijecendo as leis, endurecendo e esquecendo disso. Mas recentemente, acho que uns quatro anos atrás, um projeto liderado pelo ex-vereador Léo Burguês flexibilizou uma questão muito importante. Uma coisa é o som e violão, outra coisa é você ter que ter um regulamentação de casa de show. Nós tínhamos que ter dentro de um bar uma regulamentação de casa de show e isso inibiu a presença do músico dentro dos bares. Isso está voltando e aí a gente tá aprendendo de novo.

O senhor tem defendido as compras parceladas sem juros no cartão. Qual é a importância desse parcelamento e como é que essa restrição impacta no comércio?
Os grandes bancos, na minha opinião, oportunisticamente fugindo da concorrência que tá muito forte nas maquininhas, resolveram podar essa forma que é preferida de comprar e vender do brasileiro que chega lá com crédito pré-aprovado. Você não tem que pedir benção a ninguém, você decide se compra cinco ou sete vezes, ou se você vende. A população mostrou claramente a sua preferência por isso, o Parlamento foi muito firme, mas os bancos continuaram insistindo e aí nós fizemos uma defesa. Começou pela Abrasel e muita gente pergunta: 'bom, por que os bares e restaurantes que não parcelam defendem o parcelamento?’. Porque nós dependemos de um comércio ativo, das pessoas indo na rua para cortar cabelo, indo no dentista, indo comprar um celular. Isso é que gera o movimento de bares e restaurantes, que traz a vida para a cidade. Nós temos que sempre defender esse ecossistema e quando ele foi ameaçado nós fomos a campo. No final do ano o governo decidiu que não vai haver mudança, porque não há necessidade de mudança.

Uma decisão recente do STF permitiu que os bares e restaurantes possam ter acesso ao Programa Especial de Recuperação do Setor de Eventos (Perse), sem o registro prévio no cadastro dos prestadores de serviços turísticos. O senhor acredita que essa medida vai favorecer o setor em 2024?
A pandemia cobrou um preço muito forte de alguns setores. Eventos, bares e restaurantes pagaram um preço desproporcional para o bem coletivo. Essa questão precisa ser equacionada, nós estamos endividados, nós precisamos de alguma ajuda. Temos 40% dos bares restaurantes no Brasil com dívidas em atraso, metade daquele 1,5 milhão, é muita gente. Aqui em Belo Horizonte está em torno dos 38% dos estabelecimentos. O 'perse' foi um programa que isenta por cinco anos os impostos federais, porque ao invés de pagar esse imposto, a gente conseguiria pagar as dívidas, mas foi criado um cadastro burocrático que escolheu aqueles que podem beneficiar e os que não podem. Nós estamos lutando para que pacifique no Supremo e esse direito seja de todos. O segmento entrou na lei, mas veio uma portaria do então ministro Paulo Guedes limitando. Só poderia usar o benefício se tivessem feito antes um cadastro no Ministério do Turismo, quer dizer, uma coisa burocrática. Acho que no final das contas o ministro disse: 'olha, tem dinheiro demais aqui, vamos diminuir o número de beneficiários'. Olhou para o caixa e esqueceu de olhar para a questão da justiça que era compensar, em parte, aqueles que fizeram um esforço maior pela sociedade.

É um fato que BH é a capital dos bares e restaurantes?
Nós fizemos uma lei e nos autodeclaramos a capital mundial dos bares e restaurantes, agora o IBGE confirmou isso. Nós temos hoje, nos dois principais indicadores, que é o número de bares por habitantes e o número de bares por quilômetro quadrado, o primeiro lugar disparado no Brasil. Tem muita gente que acha que é São Paulo ou o Rio, eles estão em quinto e sétimo lugar. Belo Horizonte tem os dois pódios confirmados.

Sobre o projeto da prefeitura de BH de revitalizar o centro, tenho visto que o segmento de bares e restaurantes já tem feito uma tentativa de revitalização com estabelecimentos ocupando espaços importantes. Como você vê essa ocupação de vários espaços pelo segmento?
Eu acho que esse é um dos projetos da maior importância para uma cidade, principalmente, uma cidade como Belo Horizonte. Agora, é importante a gente saber o seguinte: não haverá revitalização se a gente não observar os pontos fundamentais que são as ruas vivas. Temos que cuidar para garantir que ali tenha um bom comércio, moradias, segurança e transporte público. Nós temos um bom transporte na região central de BH, os ônibus inclusive, infelizmente passam quase que todos lá, a gente tem pouca conexão bairro-bairro. A questão da segurança tem dimensões de força pública, mas também tem a questão mundialmente reconhecida que é ‘gente na rua’. Gente na rua é fruto de um comércio ativo e de bares e restaurantes. É impossível falar em revitalização do centro sem imaginar um reflorescimento dos bares e restaurantes e do comércio. Acho que o prefeito acerta com o projeto, agora há possibilidade de ser mais criativo. Por exemplo, na França, em Paris, criou-se uma empresa só para favorecer pequenos negócios no centro urbano, nós poderíamos talvez ter uma empresa aqui.

Revitalizar o centro com o comércio traz mais segurança?
No mundo inteiro isso já foi muito compreendido, especialmente na Europa. Os bares e restaurantes sentem isso, e são fontes de segurança. O imaginário do brasileiro presta pouca atenção a dados, mas, por exemplo, Copacabana acham que é um lugar bastante suscetível a violência, mas se fosse uma capital seria a mais segura do Brasil. Isso é estatística, o número de mortes em Copacabana por habitante é o melhor do Brasil. Quando a gente tem o adensamento da presença de gente na rua, como acontece em Copacabana e como a gente gostaria de ter no centro de BH, uma cidade com gente podendo andar a pé com segurança, bares e restaurantes, comércio noturno, tudo isso trariam ao centro uma segurança fantástica. Nós temos aqui um desperdício de imóveis.

 A região da Raul Soares, antes, era uma região quase esquecida, mas vem ganhando novos contornos com essa abertura de estabelecimentos. Mas acaba gerando uma controvérsia, tem gente falando dessa questão do encarecimento do custo de vida na região e até uma segregação dos moradores tradicionais. Como é que o senhor vê essa polêmica?

Na minha opinião a cidade tem que ter possibilidade de moradias mais baratas, mais caras, vários restaurantes mais baratos e mais caros, convivendo juntos, e comércio convivendo com moradores que eventualmente vão estar trabalhando na região. Nós temos um desafio urbanístico que está bem mapeado pelos bons urbanistas no mundo, então a gente precisa dar atenção a isso. Eu acho que muitas vezes o morador aqui tá posicionado assim, as vezes ele tá enganado. A gente precisa sentar com a prefeitura, com os nossos vereadores, e construir uma legislação que favoreça que você tenha estabelecimentos mais baratos ao lado de estabelecimentos mais sofisticados, que a gente tenha moradias mais acessíveis ao lado de moradias mais sofisticadas, e isso é possível. Você enxerga isso em Copacabana, você enxerga isso demais na França, você enxerga isso de certa forma em Belo Horizonte.

Qual é o bairro de Belo Horizonte com maior evolução nesse segmento de bares e restaurantes? Onde se abrem mais bares e restaurantes?
O bairro que eu tenho mais carinho e que está reflorescendo é a Savassi. Quando eu comecei a empreender no setor era o ponto central, depois ela passou por quase um abandono. A Savassi agora começa a retomar o seu papel de grande polo de turismo, hospitalidade, tem bons hotéis, com ruas boas e claras. Eu acho que esse é o lugar que vai marcar a nossa cidade de novo.
Nossa cidade tem essa fama e é a capital dos bares e restaurantes. Quem conhece o Rio de Janeiro, parece ter mais bares e restaurantes que Belo Horizonte, mas porque na região central é muito adensado, quando espalha se perde essa impressão. Belo Horizonte não, BH tem bares e restaurantes espalhados pela cidade inteira, daí o indicador de capital dos bares, é natural. Quando cresce o bairro Castelo, um bairro novo, começa a ganhar adensamento populacional, os bares crescem por lá, isso fica evidente na rua. Ali tem vários restaurantes que não perdem para nenhum lugar do Brasil. O turismo precisa de mais bares e restaurantes, seja o turismo entre cidades, entre países, mas também dentro da própria cidade.