Minas Gerais recebe o Festival Gira da Palhaçaria Negra, idealizado pela Trupe Gira, neste mês. A iniciativa propõe um encontro entre artistas, públicos e territórios a partir da produção de palhaças e palhaços negros.
Com entrada gratuita e atividades acessíveis em Libras, a programação em Belo Horizonte acontece em dois sábados. O primeiro foi realizado no último fim de semana (10/10), no Centro Cultural Lamparina Maria Goretti.
O espetáculo terá a segunda apresentação em BH no dia 24, a partir das 14h, no Kilombo Manzo. O espaço, que fica na Rua São Tiago, nº 216, no Bairro Santa Efigênia, Região Leste da capital, é profundamente conectado à cultura e à ancestralidade negra, e receberá uma tarde de celebração e encontro.
Antes de voltar à capital mineira, no entanto, o festival vai a Divinópolis, fortalecendo sua proposta de circulação e descentralização. Na cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais, o Gira da Palhaçaria Negra será realizado no próximo sábado (17/10), a partir das 19h, no Quintal das Artes – Trupe Boba (Rua Joaquim Nabuco, 471 – no Bairro Porto Velho) —, um espaço de criação e encontro da Trupe Boba, para retomar oficinas e processos artísticos desenvolvidos junto da Trupe Gira com artistas do território.
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O festival amplia espaços de circulação à Palhaçaria Negra e evidencia uma produção artística que articula humor, identidade, ancestralidade, criação contemporânea e representatividade.
Origem do festival
Mariele Conceição, pedagoga e idealizadora do evento, conhecida também como Palhaça Mar, disse que o festival surgiu após ela e seus colegas terem criado um espetáculo em 2023, fazendo uma gira reverenciando o riso negro, as raízes circenses no riso, as raízes afrodescendentes.
A artista apontou que a palhaçaria também está presente no cotidiano das comunidades, nas formas de expressão e no jeito de lidar com a vida. Em entrevista, ela relembrou familiares que carregam essa comicidade, como o avô Manuel, conhecido como Manuel do Alface, que vendia verduras em Raposos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Mariele também falou de seu pai, músico, e da mãe, cozinheira, reconhecida pelo jeito bem-humorado de interagir com os clientes. A pedagoga destaca que a iniciativa nasceu de sua vivência como mulher negra, mãe e periférica, além da crença no potencial da arte, da ancestralidade e do afeto. Ela também ressalta os desafios enfrentados por quem trabalha com a produção cultural.
"A gente teve essa proposta a partir do espetáculo que a gente criou em 2023, com o edital Descentra, da Prefeitura de Belo Horizonte, onde a gente quis fazer uma gira reverenciando o riso negro, as raízes circenses no riso, as raízes afrodescendentes, africanas. E aí, a gente fez todo um trabalho de pesquisa, que contou com a presença da Ednalva Caldas, que é uma cigana calin, que mora em Contagem (na Grande BH), com a Isabel de Oyá, e também com profissionais da história, como o Daniel Lopes, que pesquisa o Benjamin de Oliveira", explica Mariele.
Idealizado pela Trupe Gira, o festival nasce da potência do riso como linguagem artística e também como possibilidade de construção de novas narrativas. Ao colocar artistas negros no centro da cena, a iniciativa contribui para ampliar referências no universo do circo e da palhaçaria, campo em que personagens, estéticas e tradições vêm sendo revisitados a partir de experiências e repertórios diversos.
Influência de Benjamin de Oliveira
Conhecido por ser o primeiro palhaço negro do Brasil, Benjamin de Oliveira também foi cantor, compositor e ator. Ele foi o idealizador do circo-teatro brasileiro e também é ponto-chave do festival que irá acontecer em Minas Gerais.
Mariele é pesquisadora sobre Benjamin de Oliveira. Ela explica que vem trabalhando com o acervo do palhaço e chegou a criar uma base de dados para catalogar documentos, fotografias e reportagens que estavam dispersos.
"Eu entendi que Benjamin não é o primeiro palhaço do Brasil, mas é o primeiro palhaço de reconhecimento, que consolida o circo-teatro. E junto dele tinham muitas pessoas negras que precisam ser faladas."
A idealizadora da iniciativa esteve no Museu Histórico de Pará de Minas, também no Centro-Oeste do estado, onde teve acesso às peças de Benjamin, que já estavam com a letra apagada devido à idade. Ela realizou a transcrição destas memórias históricas e também fez conteúdos narrados, que foram publicados no YouTube.
"A gente descobriu muita coisa, que Benjamin levou para o circo, o Jongo, a capoeira, fez espetáculos de ajuda, um deles para o Almirante Negro, que é o líder da Revolução da Chibata", aponta a idealizadora do festival.
Religião, representatividade e o circo
O Festival de Palhaçaria Negra conta com um forte vínculo com religiões de matrizes africanas. Mariele cita a pesquisadora Vanessa Rosa, que diz que um dos fundamentos do circo é a alegria. "A alegria é uma tecnologia ancestral negra. A gente tem a Pombagira, que vem com a gargalhada, o Exu, que vem com a gargalhada. A gargalhada deles reorganiza todo o nosso sistema, uma forma de regulação, de limpeza, de abrir o corpo, o chakra que fica o coração."
A pedagoga também ressaltou o poder e a magia do circo na sua representatividade, destacando o trabalho quilombola para a construção do espetáculo que acontecerá em Belo Horizonte e em Divinópolis.
"E a gente vai realizar uma das apresentações em um terreiro, que é o terreiro do Quilombo Manso. O Quilombo Manso merece ser também colocado, eu acredito, pela sua importância na cidade, com várias questões, seja ambiental, seja da educação. E o Quilombo Manso é um terreiro onde o pai Benedito, o Preto Velho, a força de Iansã, traz pra gente o que é resistir com prazer dentro dessa cidade."
O amor e a palhaçaria
Uma história curiosa surge no meio da palhaçaria. Mariele e seu marido, que também é artista do circo, descobriram que estavam inseridos no mesmo contexto circense e muito próximos um do outro, mas sem se conhecerem.
"Essa história também é uma história de amor, porque lá em 2020, eu entrei em contato com um palhaço do Rio de Janeiro, o Wilson França. Aí, eu falei 'Wilson, eu estou aqui na campanha da Unesco contra o racismo e preciso de uma pessoa negra, palhaça'. E aí, he me indicou o Vinícius, que mora há 10 minutos da minha casa. E eu não conhecia ele." A partir daí, a pedagoga começou seu relacionamento com Vinícius Luiz Queiroz, com quem tem uma filha.
Atrações do festival
O elenco da apresentação é, em sua maioria, composto de pessoas negras, LGBTQIAPN+, e também conta com pessoas de terreiro. O evento traz diferentes vertentes da palhaçaria, do hip-hop e do break até a arte de rua, de musicistas até aqueles que trabalham com facões e fogo. Sete artistas de cada vertente que sempre estão saudando a força da gira (Exus e Pretos Velhos) em suas apresentações. O espetáculo ainda contará com um casamento.
“O Teatro Negra e Atitude tem a presença do Marcos Carvalho, que é o palhaço Pinga. E aí, é muito interessante que ele carrega no nome do palhaço dele, a Pinga. E a sigla significa Palhaço Invisibilizado Negro Guardião de Ancestralidade, que dá Pinga”, cita Mariele.
O festival gera renda para 20 profissionais da arte negra em suas diferentes modalidades de atuação e gestão.
Serviço e informações do evento
Além do evento, a Trupe Gira também conta com instagram e um canal de pesquisa no Whatsapp. Todo o mapeamento do circo você pode conferir no formulário disponibilizado pela instituição.
Em Belo Horizonte
- Festival Gira da Palhaçaria Negra – BH em Cena
- Quando e onde: sábado, 24 de outubro, a partir das 14h, no Kilombu Manzo (Rua São Tiago, 216 - no Bairro Santa Efigênia)
- Entrada gratuita e acessibilidade em Libras
Em Divinópolis
- Festival Gira da Palhaçaria Negra – Divinópolis em Cena
- Quando e onde: sábado, 17 de outubro, a partir das 19h, no Quintal das Artes – Trupe Boba — Porto Velho (Rua Joaquim Nabuco, 471 – no Bairro Porto Velho)
- Entrada gratuita
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*Estagiário sob supervisão da subeditora Regina Werneck
