O compartilhar está estritamente ligado à cozinha. A comida está no centro das mais diversas relações, que vão do romance à diplomacia. Ela é pretexto para conversa, além de símbolo de hospitalidade e generosidade.



Se muitas pessoas gostam de sair para comer, beber e compartilhar com amigos, a história muda por completo quando se sentar em um restaurante também significa dividir a mesa com desconhecidos. Em Belo Horizonte, as mesas coletivas são polêmicas. Há quem não aceite se sentar, mas também, pouco a pouco, os que topam a experiência e até se surpreendem positivamente.




Pioneira em muitas frentes, inclusive nas mesas compartilhadas, Paula Bonome, da Casa Bonomi, Bairro Funcionários, Região Centro-Sul da capital, celebra, em 2026, 30 anos do estabelecimento e de uma ideia ousada. Em 1996, quando abriu a padaria, não havia outro lugar em Belo Horizonte, segundo Paula, que trabalhava com uma mesa coletiva. “Me lembro que a Joyce Pascowitch [que escrevia na Folha de S. Paulo] nos visitou no início da Bonomi e me disse que era a primeira vez que via uma mesa compartilhada”, recorda.



Ela não nega que no começo foi difícil. Precisou ter paciência e insistência até que o mineiro abrisse seu coração e ocupasse aqueles lugares. “Demorou bastante tempo, creio que um ano, para o mineiro se sentar e se acostumar. Acho que valeu a pena, consegui sustentar isso e hoje não há nenhuma resistência. Muitas pessoas sentam sozinhas na mesa sem nenhum constrangimento”, destaca.


O bom projeto


Paula conta que viu pela primeira vez uma mesa coletiva na Le Pain Quotidien, padaria em Bruxelas, na Bélgica. “Me chamou a atenção porque isso não existia, era um conceito novo, uma proposta que não tinha visto em lugar nenhum.”


Pioneira em BH, a Casa Bonomi insistiu para que os mineiros se acostumassem com a ideia

Lucas Pederneiras/Divulgação



Em BH, quando abriu a Bonomi, ela quis revisitar esse conceito. No projeto, a própria arquiteta responsável, Freusa Zechmeister, pensou que aquilo não daria certo. “Ela me disse que achava que aquilo não iria funcionar em Minas. Falei que íamos fazer e que, se não desse certo, a gente serrava a mesa”, brinca.




Além do seu passo audacioso, Paula destaca o bom projeto assinado por Freusa, que é o mesmo até hoje. “Ela era muito boa em ambiente e circulação. A padaria está do mesmo jeito desde quando abriu. É um projeto em que não tive que mexer, muito mérito da boa arquitetura.”



A largura da mesa pensada por Freusa, nesse ponto, é de suma importância para Paula. “Ela preserva uma individualidade. Não é como uma mesa de casa.” Essa mesa fica na área interna e comporta 12 pessoas. Do lado de fora, existem outras duas com 16 lugares cada.


Unidos pelo pão


Muito além de uma escolha estética, uma imponente mesa coletiva tem relação com princípios que Paula Bonome carrega para a vida. “Me encanta essa questão de agregar, acho que tem tudo a ver com o pão”, reflete, enfatizando o simbólico gesto de repartir o alimento. Inclusive, traz como exemplo a palavra “companheiro”, derivado do termo em latim “companio”, que, basicamente, seria em português “aquele com quem se divide o pão”.


Segundo Paula Bonome, da padaria Casa Bonomi, a palavra companheiro vem de 'companio', que em latim se refere àquele com quem se divide o pão

Estúdio Ventana/Divulgação



Quem passa pela Bonome, além de degustar os deliciosos pães, você pode se sentar à mesa e experimentar sanduíches como o de baguete francesa recheada com rosbife e mostarda (R$ 54). Os famosos croissants também são ótimas opções e podem ser servidos com presunto e/ou queijo (R$ 26).


Máximo de ousadia


O único estabelecimento desta reportagem que funciona com uma única mesa coletiva é o Restaurante Agnes, dentro da Casacor 2026, no Lourdes, Região Centro-Sul de BH. Lá, aliás, o móvel é a grande estrela da casa. Todo revestido em azulejos coloridos, apresenta traços curvilíneos que se relacionam bem com o trabalho e a personalidade de Agnes Farkasvolgyi, chef e “musa inspiradora” do projeto.



“Primeiramente, recebi o convite do Eduardo Faleiro [diretor da mostra de arquitetura em Minas] para ocupar um restaurante na Casacor que falasse da minha história de 10 anos no evento. Como faço coisas inovadoras, ele perguntou se eu toparia que tivéssemos uma mesa única”, relembra.




A chef diz ter topado a ousada proposta na hora, sobretudo por estar inserida em um contexto de uma mostra temporária. “Falei ‘vamos’, mesmo sabendo que BH não é uma cidade que aceita tão bem esse tipo de coisa. Mas acho que, se tem um lugar para arriscar, é a Casacor.”


O galeto com páprica e galuska do Restaurante Agnes representa a origem húngara da chef

Natalia Campos/Divulgação
 



Fora de lá, a chef admite que não sabe se mergulharia em uma aventura desta magnitude. “Não sei se teria um restaurante com uma única mesa coletiva. Teria com outras opções de mesa”. Ela também reforça que no seu restaurante, A Casa da Agnes, no Santo Antônio, Região Centro-Sul da cidade, possui uma mesa compartilhada e que, em um projeto anterior, já chegou a funcionar com três delas.


Passos circulares


Algumas adaptações são necessárias em uma operação tão específica como a de Agnes na Casacor 2026. “Quando chega um casal, a primeira pergunta é se eles querem se sentar um ao lado do outro ou de frente. Se a resposta for a segunda, cada um é direcionado a um lado do restaurante até que cheguem a seus assentos”, diz, explicando essa especificidade de uma mesa de 26 metros de comprimento que não tem um espaço de passagem, ela é inteiriça.



Dessa forma, a circulação dos garçons também é diferente de um restaurante convencional – eles precisam caminhar em torno da mesa.



As grandes reservas também demandam atenção especial. Agnes costuma deixar eventos de até 20 pessoas em um dos cantos da mesa, até a primeira curva. Quando são grupos muito maiores, entretanto, ela precisa pedir autorização à Casacor e colocar mesas adicionais, afinal, a capacidade do restaurante é de 65 lugares, e o ideal é que menos da metade seja ocupada por eventos particulares.



Uma nova experiência


Para Agnes, fica bem claro o quanto pessoas mais velhas têm mais resistência em relação à mesa do que os mais jovens. “Minha mãe mesmo, quando falei que tinha topado a ideia, me disse que eu estava ‘doida’, que as pessoas não iam aceitar aquilo. Hoje, ela já acha super normal e convence os clientes disso”. Aliás, a mãe de Agnes, Lelete Mares Guia, é a anfitriã do restaurante, e está, todos os dias, ao lado da filha nessa missão.


'Minha mãe mesmo, quando falei que tinha topado a ideia, me disse que eu estava ‘doida’, que as pessoas não iam aceitar aquilo. Hoje, ela já acha super normal e convence os clientes disso' - Agnes Farkasvolgyi ao lado da mãe, Lelete Mares Guia

Marcos Vieira/EM/D.A Press



No geral, a chef vê que os clientes encaram o jantar naquela mesa como uma “experiência” – palavra que ela faz questão de enfatizar que não gosta, sobretudo pelo uso desenfreado, mas que exprime bem o que acontece. “As pessoas experimentam, testam para ver se, para elas, funciona. As mais velhas têm mesmo mais dificuldade”, diz, reforçando, ainda, o grande número de clientes que fizeram esse teste e retornaram ao restaurante depois.


A cara dela


Assim como todo o ambiente, assinado pela Balsa Arquitetura, o cardápio do Restaurante Agnes é inspirado na trajetória e na vida da chef. Tem referências de pratos que ela já serviu no passado, paixões pessoais, preparos ligados às suas origens etc.



Um dos grandes sucessos entre as entradas é o tiradito de atum servido com “bloody leche de tigre” (R$ 69). Inspirado no drinque Bloody Mary, é um leite de tigre com suco de tomate e, caso o cliente queira, vodca.



De prato principal, destaca-se o galeto com páprica, galuska – nhoque de farinha e sem batata de origem húngara, a mesma da família de Agnes, que, aliás, também é cônsul em BH do país no Leste da Europa –, sementes de papoula e alfavaca (R$ 106).



Diferenças culturais


Na Hofbräuhaus, casa alemã no Lourdes, Região Centro-Sul de BH, as mesas comunitárias têm o propósito de seguir à risca a tradição de Munique, sede da marca, na Alemanha. “É clássico, uma tradição na Alemanha, então trouxemos isso para o Brasil. Lá, as mesas compartilhadas estão nos restaurantes e também nos biergartens, amplos espaços abertos com mesas grandes em que os clientes interagem entre si, brindam etc”, conta Marcial do Lago Filho, gerente operacional da casa.


A Hofbräuhaus importou da Alemanha o projeto em que o salão só tem mesas para 10 pessoas

Hofbräuhaus/Divulgação



Justamente por remeter à outra cultura, a resistência não é tanto uma realidade enfrentada pela HB. “O mineiro entendeu a proposta. Muitos, inclusive, já conheciam essa tradição alemã.”



Essas grandes mesas de 10 lugares, segundo Marcial, também são um convite para uma interação que é estimulada pelo restaurante. “As pessoas trocam ideia, brindam e a gente convida os clientes, em dados momentos, a subirem nos bancos e brindar”, explica.



Para todos os gostos


Apesar de as mesas coletivas serem as mais representativas, também há opções mais altas e menores e de outras mais baixas de quatro lugares. “Existem grupos mais reservados que já chegam pedindo uma mesa menor, e isso também é possível”.



Aliás, assim como Agnes Farkasvolgyi, do Restaurante Agnes, Marcial percebe que os clientes mais velhos costumam preferir espaços menores e com mais privacidade. “O perfil mais jovem e de pessoas que já conhecem a tradição da Alemanha não tem resistência. Aliás, temos muitos casos de clientes que chegam sozinhos e pedem para se juntar a grupos em mesas grandes.”


Na cervejaria Hofbräuhaus não se compartilha só a mesa: o joelho de porco também é uma ótima opção para dividir

Victor Schwaner/Divulgação



Para os que já estão em grupos maiores, uma boa opção, também clássica da cultura alemã, é o joelho de porco (R$ 189). Lá, ele vai acompanhado de legumes, salada de batata e chucrute.


Inversão de lógica


Em 2018, quando foi inaugurado no Jardim Canadá, em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Mercado da Boca se propunha a ser algo completamente diferente do que os mineiros estavam acostumados. Um espaço com 90% de mesas compartilhadas, sem serviço de garçom e que funcionava com um mix de restaurantes e chefs operando.


A busca por privacidade levou o Mercado da Boca a reduzir o mobiliário que acomoda um número maior de clientes

Mercado da Boca/Divulgação



“O conceito que criamos inicialmente era baseado em uma experiência comunitária. Seja pela união de vários chefs de cozinha em um mesmo espaço ou pelo fato de várias pessoas se unirem em uma mesma mesa”, reflete Lucas Vereza, sócio à frente da operação que, hoje, tem unidades na Savassi e no Buritis, Região Oeste da capital mineira.




Com o tempo, ele foi entendendo que as pessoas gostavam do formato, mas desejavam mais privacidade. “Quando abrimos a unidade na Savassi, criamos o serviço de garçom que não tinha no primeiro projeto e entendemos que era melhor que a maior parte das mesas não fosse comunitária.”



Enquanto antes as mesas coletivas significavam 90% do total, hoje em dia a lógica foi totalmente invertida: elas representam cerca de 10% do mobiliário em ambas as unidades.



Apesar de a configuração das mesas refletir menos a proposta comunitária do projeto inicial, o menu ainda busca uma pluralidade no estilo dos pratos. As opções vão do imbatível filé acompanhado de risoto de funghi (R$ 139) ao chamado “Prato Fitness”, com tilápia grelhada, purê de batata e legumes (R$ 65).


'Por que a gente pode se sentar em uma mesa comunitária na França e não pode sentar em uma mesa comunitária na sua cidade?' - Lucas Vereza, sócio do Mercado da Boca

Uarlen Valério/Divulgação


Percepção decisiva


Algo interessante que Lucas destaca é como muitos clientes, quando estão viajando, se propõem a experimentar coisas que, em suas cidades, costumam não fazer. “Parece que quando a pessoa está fora, a turismo, está mais disposta a testar coisas novas, mas, quando está na sua própria cidade, na sua rotina, quer ir no que já conhece e busca algo mais reservado.” Segundo ele, essa percepção foi decisiva para a mudança no formato da casa.



Espaço é dinheiro


Tanto na unidade na Pampulha quanto no Bairro Olhos D’Água, Região Oeste da capital, o Bebedouro Bar e Fogo tem uma área de 1500 metros quadrados e 600 lugares. Na disposição do salão, as grandes mesas são indispensáveis – nos dois estabelecimentos, são cerca de 30 mesas de 14 lugares. “Temos um perfil de fazer muitas reservas de aniversário, confraternização, então fiz essas mesas pensando nisso também”, conta Diogo Manfredini, à frente da casa.



É em dias de muito movimento que essas mesas ganham a função de compartilhamento. “Quando isso acontece, há quem prefira aguardar uma outra mesa, mas hoje, de 10 pessoas para quem oferecemos a cadeira na mesa compartilhada, oito aceitam”, calcula.


Hoje a maior parte dos frequentadores do Bebedouro aceitam compartilhar a mesa com desconhecidos

Hector Duarte/Divulgação



Por trás desse número também está uma iniciativa da equipe, que, segundo Diogo, sempre que sente uma indecisão ou receio nos clientes, leva-os para que possam ver a mesa com os próprios olhos. “Sempre explicamos antes como é a mesa para que cliente tenha essa opção também”, conta, destacando a transparência da equipe com os fregueses.


Casais juntos


Uma das datas mais disputadas da casa é o Dia dos Namorados, quando muitos casais querem privacidade. Apesar disso, as mesas grandes sempre são usadas nesse dia, justamente para que possa comportar várias duplas.



“No início da operação, a gente trocava parte do mobiliário para o Dia dos Namorados, mas nunca era suficiente, acabamos usando as mesas grandes. Hoje, já não mudamos mais a composição do salão, apenas usamos arranjos ou outras decorações para fazer uma especia de separação”, explica Diogo.



Restaurante é negócio


No Bebedouro, as grandes mesas podem receber diversas composições, como dois grupos de quatro pessoas ou três de três clientes. Compartilhar mesas, no fim das contas, é uma boa estratégia para otimizar o espaço.


O cardápio tem uma seção destinada a clássicos boêmios, como a porção de croquetes de costela

Hector Duarte/Divulgação



“O aluguel está muito caro. Na Europa, por exemplo, os estabelecimentos já têm tempo para os clientes usarem a mesa. Em regiões mais concorridas, a gente entende que cada assento vale muito para o bar ou restaurante”, defende Diogo.



Por isso mesmo, quando precisam pedir cadeiras em algumas mesas que possam estar ocupadas, por exemplo, por bolsas de clientes, os garçons explicam essas dimensões do negócio.



Como Diogo destaca, o Bebedouro é um bar. No menu, não por acaso, há uma seção destinada a clássicos boêmios, como a porção de croquetes, que lá, são de costela (R$ 60).


Serviço


Casa Bonomi



  • Avenida Afonso Pena, 2600, Funcionários

  • (31) 99206-2772

  • De terça a sábado, das 7h às 19h

  • Domingo, das 7h às 17h

  • @padariacasabonomi


Restaurante Agnes



  • Rua da Bahia, 2020, Lourdes

  • De terça a sexta, das 17h30 às 22h

  • Sábado, das 12h às 16h30 e das 18h às 22h

  • Domingo, das 12h às 17h

  • @restauranteagnes


Mercado da Boca



  • Rua Levindo Lopes, 124, Savassi

  • (31) 3995-2798

  • De segunda a sábado, das 11h30 à 0h

  • Domingo, das 11h30 às 22h

  • Avenida Professor Mário Werneck, 1973, Buritis

  • (31) 3995-2409

  • Segunda a quarta, das 11h30 às 23h

  • Quinta a sábado, das 11h30 à 0h

  • Domingo, das 11h30 às 22h

  • @mercadodaboca


Hofbräuhaus

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  • Avenida do Contorno, 7613, Lourdes

  • (31) 3327-7613

  • De terça a quinta, das 18h à 0h

  • Sexta e sábado, das 12h à 0h

  • Domingo, das 12h às 19h

  • @hofbrauhausbh


Bebedouro Bar e Fogo



  • Rua Adriano Chaves e Matos, 100, Olhos D'Água

  • (31) 3191-9397

  • De segunda a sexta, das 17h à 0h

  • Sábado, das 11h30 à 1h

  • Domingo, das 11h30 às 20h

  • @bebedourobarefogo


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