O debate sobre ultraprocessados costuma nascer na ciência, mas se revela, de fato, no prato. Entre a praticidade e o sabor padronizado, esses produtos ocupam um espaço cada vez mais central nas cozinhas urbanas – não apenas como solução rápida, mas como parte de uma cultura alimentar moldada pela indústria, pela publicidade e pelo ritmo acelerado da vida contemporânea.


Na gastronomia, a discussão ganha outras camadas. Chefs, pesquisadores e consumidores se veem diante de um dilema que vai além da dicotomia entre “comida de verdade” e “comida industrializada”. Há uma zona cinzenta em que técnica, memória afetiva e conveniência se cruzam – e onde ingredientes industrializados, em maior ou menor grau, também participam da construção de sabores e experiências.


É nesse território híbrido que a conversa se torna mais interessante e menos radical. Entender o papel dos ultraprocessados passa não somente por classificações ou rótulos. Trata-se da forma como eles dialogam com tradições culinárias, com o acesso aos alimentos e com o próprio prazer de comer. Afinal, o que está em jogo não é só o que se come, mas como, por que e em que contexto se escolhe cada prato.


Para o professor e especialista em gastronomia Eduardo Batista, a própria definição de ultraprocessados ajuda a entender o debate. “São formulações industriais compostas por ingredientes pouco utilizados na cozinha doméstica, como aromatizantes, emulsificantes, corantes e outros aditivos, desenvolvidos para oferecer praticidade e alta palatabilidade”, explica.


A rotina contemporânea, marcada pela falta de tempo e pela busca por praticidade, ajuda a explicar o avanço desses produtos. “Vivemos em uma sociedade que valoriza a velocidade. O objetivo não deve ser a perfeição, mas fazer melhores escolhas na maior parte do tempo”, observa Eduardo. Para ele, a alimentação saudável não exige radicalismo, mas consciência.


Segundo o gastrônomo, parte da polêmica envolve um certo exagero na forma como esses produtos são tratados. “Transformar qualquer ultraprocessado em veneno simplifica excessivamente uma questão que é complexa. A ciência trabalha com probabilidades, não com absolutos”, afirma. Para ele, o principal problema surge quando esses alimentos deixam de ser exceção e passam a ocupar o centro da alimentação cotidiana, substituindo preparações tradicionais.

Conjunto de hábitos


Essa visão é compartilhada pela nutricionista clínica hospitalar Iara Lelis, responsável técnica pelo Serviço de Nutrição Clínica do Hospital Municipal de Santa Luzia e especialista em Terapia Intensiva Adulto pela Santa Casa BH, que atua na prevenção e no tratamento nutricional de pacientes com doenças crônicas e de alta complexidade. “Existe a ideia de que basta eliminar ultraprocessados para que a alimentação se torne automaticamente saudável, o que não é verdade. A saúde é resultado de um conjunto de hábitos.”


Eduardo e Iara lembram que o padrão alimentar é mais importante do que escolhas pontuais. Uma dieta baseada em frutas, legumes, feijão, cereais integrais e proteínas de qualidade tende a reduzir os impactos do consumo ocasional de ultraprocessados. “Quando a base da alimentação é equilibrada, o consumo eventual dificilmente terá impacto significativo para uma pessoa saudável”, diz a nutricionista.


Entre mitos e evidências, o consenso entre especialistas aponta para um caminho menos extremo e mais sustentável. Comer continua sendo, antes de tudo, um ato de prazer, cultura e convivência. E, quando o equilíbrio entra no prato, a saúde tende a acompanhar.

Mudanças na rotina


Na prática, pequenas mudanças podem fazer diferença. Cozinhar mais em casa, manter frutas disponíveis para lanches, reduzir o consumo de bebidas açucaradas e planejar refeições são estratégias apontadas tanto por especialistas quanto por quem já mudou a rotina alimentar.

Para Eduardo Batista, a gastronomia ajuda a mostrar que comida de verdade pode ser prática e prazerosa

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


É o caso da professora Flávia Christiane do Nascimento Regis, de 47 anos, que optou por eliminar os ultraprocessados ao longo dos últimos anos. A decisão foi gradual, motivada pelo retorno à atividade física e pela busca por melhores condições de saúde. “Meu dia a dia alimentar é planejado. Procuro ter sempre fontes naturais de carboidratos e proteínas à mão, além de frutas, verduras e legumes em todas as refeições”, relata.


A mudança, no entanto, exige organização. “A maior dificuldade é estruturar a rotina para ter os alimentos preparados, principalmente para levar ao trabalho. Isso demanda tempo e planejamento”, afirma. Flávia também destaca impactos na vida social, como a dificuldade de encontrar opções adequadas fora de casa ou durante viagens.


Apesar da escolha pessoal, ela evita generalizações. Para a professora, ainda há muita desinformação sobre o tema, especialmente diante da oferta de produtos que se apresentam como “saudáveis”. “Muitos acreditam estar se alimentando bem, mas não sabem identificar ingredientes ou distinguir os diferentes tipos de alimentos”, observa.

Escolhas conscientes


Em meio a rotinas aceleradas, a presença de ultraprocessados muitas vezes está ligada à conveniência – o que não significa, necessariamente, que eles precisem ser eliminados por completo. “Comer deve continuar sendo uma experiência de prazer e convivência. O equilíbrio nasce da flexibilidade e de escolhas conscientes ao longo do tempo”, afirma o gastrônomo Eduardo Batista.


A nutricionista Iara Lelis reforça que abordagens muito rígidas tendem a ser pouco sustentáveis. Em vez de proibir, ela recomenda focar no que pode ser incluído na alimentação. “Quando incentivamos o consumo de frutas, verduras, legumes e preparações caseiras, naturalmente reduzimos o espaço dos ultraprocessados. Mudanças graduais são mais eficazes do que restrições radicais”, explica.


Essa lógica também aparece na experiência da professora Flávia Regis. Embora hoje não consuma ultraprocessados, ela diz que sua alimentação não é restritiva, mas baseada em variedade e combinações equilibradas. Entre os principais ganhos, uma mudança no paladar. “Passei a sentir o sabor real dos alimentos. Com isso, o uso de açúcar se tornou desnecessário e reduzi o consumo de sal”, relata. Além disso, ela constatou melhora na disposição, na composição corporal e no desempenho físico.


Para quem deseja reduzir – mas não necessariamente eliminar – os ultraprocessados, Flávia sugere começar pelos momentos mais vulneráveis do dia. “Um bom começo é substituir esses alimentos nos lanches intermediários, quando é mais comum recorrer a biscoitos, salgadinhos ou bebidas industrializadas.”

Receitas com itens fáceis de identificar fazem contraponto aos ultraprocessados, sem abrir mão da praticidade

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

Sem culpa


Outro aspecto que pode ser abordado no debate sobre ultraprocessados é o papel social e cultural da comida. Comer não é apenas uma decisão nutricional, mas também um ato atravessado por rotina, afeto, tempo disponível e acesso. Ao optar por não consumir ultraprocessados, Flávia Christiane, por exemplo, relata que sua escolha exige planejamento constante e uma reorganização da vida cotidiana – algo que nem sempre é viável para todos.


Eduardo Batista lembra que a indústria responde, em parte, à demanda por praticidade em centros urbanos, enquanto a nutricionista Iara Lelis reforça que a culpa não deve ser um elemento norteador das escolhas alimentares. Nesse contexto, pensar em alimentação saudável passa também por considerar desigualdades de acesso, tempo de preparo e educação alimentar, ampliando a discussão para além da composição dos produtos.


Além disso, ainda persiste a ideia de que uma alimentação equilibrada exige produtos caros ou sofisticados. Para Eduardo, isso pode afastar parte da população de escolhas mais saudáveis. “No Brasil, alimentos como arroz, feijão, ovos, frutas e hortaliças continuam sendo opções nutricionais acessíveis e culturalmente relevantes. A alimentação saudável não pode virar símbolo de status.”


No fim das contas, o consenso entre especialistas e consumidores aponta para um mesmo caminho: mais do que buscar fórmulas prontas, é preciso construir uma relação possível com a comida. Uma alimentação saudável, afinal, não é aquela que se sustenta por alguns dias, mas a que consegue se manter ao longo da vida, respeitando contextos, rotinas e preferências.


Atenção aos rótulos


O debate sobre ultraprocessados ainda é cercado por confusões e simplificações. Um ponto de atenção está na forma como a indústria se comunica com o consumidor. Termos como “fit”, “zero”, “light” ou “integral” nem sempre significam, na prática, uma melhor qualidade nutricional. “Muitos produtos continuam sendo altamente industrializados, mesmo quando se apresentam como saudáveis”, alerta a nutricionista Iara Lelis. O professor e especialista em gastronomia Eduardo Batista orienta uma leitura crítica dos rótulos, que listam os ingredientes em ordem decrescente de quantidade. “A lista de ingredientes costuma ser mais reveladora do que as frases promocionais.”


Trocas possíveis


Na rotina da agente comunitária de saúde Aline Fernanda Lima, de 48 anos, os alimentos ultraprocessados aparecem menos como escolha deliberada e mais como resposta prática às exigências do cotidiano. Mãe de Isadora, uma adolescente de 14 anos, ela relata que a correria do dia a dia influencia diretamente o que vai à mesa – e, sobretudo, à lancheira da filha. “Muitas vezes, os ultraprocessados acabam sendo a opção mais prática para mandar de lanche para a escola, como biscoitos, barrinhas, salgadinhos ou sucos de caixinha”, conta.

'Muitas vezes, os ultraprocessados acabam sendo a opção mais prática para mandar de lanche para a escola, como biscoitos, barrinhas, salgadinhos ou sucos de caixinha' - Aline Lima, professora e mãe de Isadora, de 14 anos

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


A durabilidade e a facilidade de acesso também pesam. “Eles costumam durar mais e facilitam muito quando não dá tempo de preparar algo em casa”. Entre praticidade, preço e hábito, a escolha acaba sendo uma combinação desses fatores. “É bem mais simples comprar algo pronto do que preparar todos os dias. O preço também acaba sendo um atrativo.”


Ainda assim, Aline afirma já ter tentado reduzir o consumo desses produtos. “No começo foi bem difícil, porque estava acostumada com esses alimentos. Depois que comecei a me organizar melhor, percebi que dava para trocar algumas coisas sem sofrer tanto.”


A preocupação com a saúde está presente. “Hoje já se fala muito sobre os efeitos do consumo frequente de ultraprocessados, e isso é algo que eu levo em consideração. O excesso pode contribuir para obesidade, pressão alta, diabetes e outros problemas ao longo do tempo”, diz. Ela conta que pensa nas consequências futuras e tenta manter um certo equilíbrio alimentar.


Ao mesmo tempo, Aline faz uma leitura crítica do debate público sobre o tema. “Tem informação boa, mas também tem muito exagero. Às vezes parece que qualquer alimento industrializado virou um vilão absoluto”, avalia. Para ela, parte das discussões ignora a realidade de parcela importante da população. “Tem gente que fala como se fosse simples comer saudável o tempo todo, sem considerar trabalho, cansaço, dinheiro e a correria da vida.”


Essa percepção se reflete também nas experiências pessoais. Aline diz já ter se sentido julgada por suas escolhas alimentares. “Isso é bem chato”, resume. Para ela, o planejamento é um fator chave para mudanças possíveis. “Quando consigo me organizar, preparar comida antes e planejar melhor, faço escolhas melhores. O problema é manter essa organização sempre.”

Tempo e dinheiro


Embora não enfrente exatamente falta de acesso a alimentos frescos, Aline aponta barreiras práticas. “Dependendo do lugar ou do horário, é muito mais fácil encontrar comida pronta do que uma opção fresca. E muitas vezes o alimento natural acaba saindo mais caro ou exigindo mais tempo.”


Ainda assim, acredita que o equilíbrio é possível. “Não precisa ser tudo perfeito. Pequenas mudanças já ajudam bastante, como ter frutas em casa, preparar comida antes ou escolher versões menos industrializadas quando dá.” Para ela, uma rotina menos apertada e preços mais acessíveis para alimentos frescos seriam fatores decisivos para mudanças mais consistentes.

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Ao refletir sobre sua relação com a comida, Aline a define como “complexa”. “Sou uma mulher acima do peso e, muitas vezes, as pessoas imaginam que eu como em grandes quantidades, mas essa não é a minha realidade. Isso me faz questionar vários fatores da minha rotina, como horários, qualidade da alimentação, sedentarismo e estresse. Gosto de comer, sinto prazer na comida, mas também convivo com a sensação de que meu corpo nem sempre reflete aquilo que eu acredito consumir no dia a dia.”

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