BÚZIOS - O inverno chega e, com ele, um exército de garrafas de vinhos marcham de Lisboa rumo ao Brasil. Para o mercado entendido do assunto, a crítica e os entusiastas da taça cheia, o veredito é cirúrgico: Lisboa já não é a promessa do vinho português. É uma grata e vibrante realidade enológica.
Diante de um cenário global muitas vezes saturado por aromas e sabores padronizados, a capital portuguesa entrega autenticidade, frescor e uma história rica em autenticidade. O que a sommelière e colunista Elaine de Oliveira cooptou há três edições do Vinhos de Lisboa, que começou no Rio, passou por Paraty em 2025 e aportou em Búzios este mês.
“O que mais se destaca é a diversidade, as novas sub-regiões produzem vinhos com estilos, personalidades, caráter completamente diferentes uns dos outros. Não é o mesmo estilo de vinho. A região tem com certeza uma assinatura, que é o Atlântico, é a influência marítima", aponta Elaine que, junto com a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, apresentou uma seleção de mais ou menos 50 rótulos para jornalistas e especialistas em viticultura.
Das castas brancas, os holofotes estão para Malvasia de Colares, Arinto, Vital e Fernão Pires. Das tintas, a Castelão se destaca pela elegância, além da Ramisco
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Vinhos brancos em alta
Para Carlos João Pereira da Fonseca, representante da comissão vitivinícola, há uma tendência para beber vinhos brancos
Para Carlos João Pereira da Fonseca, representante da comissão vitivinícola, há uma tendência para beber vinhos brancos. “Nunca se sabe o que é que o futuro nos traz, mas como região eu acho que nós temos muitas vantagens. As nossas vinhas não são regadas, o que é bom, temos tido até hoje umidade suficiente. As nossas vinhas são resistentes à seca, portanto mais capacitadas a resistir aos anos e a falta d'água. “
Outro modismo que os vinhos de Lisboa se encaixam são os rótulos com pouca graduação alcoólica, ou seja, vinhos com 9 ou 10 graus. Muito mais elegantes. “Nós chamamos vinho leve. Os de Lisboa têm condições para no futuro, independentemente daquilo que são as tendências do mercado e as modificações do clima, conseguirem superar as dificuldades", acrescenta João.
Se houve um tempo em que falar de vinhos portugueses no exterior significava, quase que exclusivamente, abrir uma garrafa de Vinho do Porto ou servir um encorpado tinto do Douro ou do Alentejo, esse cenário agora é outro. Uma revolução silenciosa, moldada pelas brisas do Oceano Atlântico e por uma nova geração de enólogos ousados, colocou a Região Vitivinícola de Lisboa no centro do mapa global do vinho.
Na opinião de Elaine, a assinatura que conquista mercados exigentes, com destaque absoluto para o paladar brasileiro. O Efeito Atlântico em favor da taça brasileira.
Diversidade em nove Denominações de Origem
O grande trunfo de Lisboa reside na sua geografia única. A região estende-se ao longo da costa norte da capital portuguesa, espremida entre o vigor do Atlântico e as serras que protegem o interior. O resultado é um mosaico de microclimas e solos (predominantemente argilosos-calcários) que dão origem a nove Denominações de Origem Controlada (DOC).
São três pilares: frescor no brancos minerais e salinos (Colares e Bucelas); tintos gastronômicos, macios e acessíveis e a reservação de castas nativas raras (como o Ramisco).
O Brasil no topo do consumo: um fenômeno
Os números não mentem: a Região de Lisboa produz cerca de 70 milhões de garrafas anualmente, e o mercado externo aprendeu a disputar cada lote. Enquanto o consumo global de vinho enfrenta oscilações e quedas históricas em mercados tradicionais, Portugal mantém-se firme como o líder mundial absoluto em consumo per capita (com médias impressionantes acima de 60 litros por habitante ao ano).
Nesse xadrez de exportações, o Brasil assumiu o papel de protagonista, consolidando-se como o terceiro maior mercado importador dos vinhos portugueses no mundo, atrás de França e EUA.
A facilidade de harmonização com a culinária brasileira e à excelente oferta de vinhos com DOCs ajudam e muito. Na cidade escolhida para esse “show room”, Búzios, o portfólio trazido de Lisboa honrou um tipo de gastronomia em alta em território nacional: a cozinha latino-asiática. Combinação que o chef João Ricardo, do Nami (“onda”em japonês) - no Porto da Barra, Praia de Manguinhos - domina bem.
Na ala das entradas, o ‘tiradito’ Nikkey (lâminas de atum ao molho japonês e peruano) e o taco de vieira (do Peru) sobre limão siciliano e aji amarillo vão bem, por exemplo, com a família de brancos Pim Pam Pum, de produção orgânica, da Quinta do Montalto.
Já o ceviche (incrível) com pimenta peruana casa com o Quinta do Sanguinhal, da sub-região de Óbidos, produzido por Carlos João. Segue com a paleta de cordeiro assado na brasa junto com o reserva Vingrand da Adega da Azueira, do produtor Bruno Ferreira, que veio a Búzios conferir a prova. "Buscamos alcançar vinhos frescos e frutados.”
Na sobremesa, sucesso absoluto é o fortificado Vinho de Carcavelos (o favorito da Elaine), uma raridade da Terrinha, cor topázio, aroma de frutos secos (amêndoas), acidez viva e longa capacidade de envelhecimento. Tudo aquilo que se propõe os frescos e diversos vinhos de Lisboa. Em nome dos patrícios, saúde!
Nami - Búzios
Av. José Bento Ribeiro Dantas, 2900 - loja 44 - Porto da Barra
Instagram: @namigastrobar
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