Empreender é, invariavelmente, um caminho arriscado. São muitas possibilidades, mas, ao mesmo tempo, já existe uma oferta ampla e variada no mercado. Encontrar um segmento ou produto pode parecer uma tarefa impossível. Às vezes, no entanto, quando menos se espera, a ideia surge na cabeça. Em outros casos, ela sempre esteve sempre por perto e apenas se revela como um percurso promissor a ser seguido.


Nesta matéria, você conhece quatro mulheres que “encontraram”, dentro das próprias casas, um modelo perfeito de negócio. Elas conquistam os clientes com receitas de família.

Gostinho de quero mais


Os biscoitos de massa de queijo com recheio de goiabada feitos pela tia-avó de Ana Laura Faria, Elizabeth Santos, a tia Beth (hoje com 97 anos), nunca eram suficientes. “Comia e sempre queria mais, parecia até que ela fazia só um pouquinho”, recorda a sobrinha.


A receita não fazia sucesso só com ela, não, era unanimidade em toda a família. As irmãs de Ana Laura começaram a pedir para ela fazer para vender e, assim, sem nem mesmo um nome, o famoso biscoito “estourou a bolha” familiar. Antes disso, entretanto, foi preciso convencer Beth a passar a “preciosa” receita. “Ela não é muito de compartilhar com todo mundo, mas insisti tanto que acabei conseguindo.”


Já com a receita “adaptada” – a principal mudança implementada por Ana foi a retirada dos ovos, que deixavam o produto mais perecível –, a mistura de queijo e goiabada foi conquistando colegas de trabalho das sobrinhas-netas da tia Beth e a clientela de Ana Laura, que já trabalhava com uma loja de bolos artesanais.

Chegou para ficar


Em 2019, a empreendedora repensou o investimento nos bolos – até porque já tinha uma alta demanda pelos biscoitos de sua tia-avó. “Achei que, com um monoproduto, poderia me dedicar e me especializar mais. Além de tudo, a vida inteira buscava, para os bolos, referências de fora. Com o biscoito, não, era eu sendo eu mesma.”

Ana Laura Faria ganhou da tia-avó, Beth, a preciosa receita que tanto amava na infância

Arquivo pessoal


Assim, nasceu a Julieta Biscoito. O nome, aliás, vem do clássico Romeu e Julieta. “Como boa feminista que sou, optei por deixar só Julieta, mas também pensei que, assim, não me limitaria apenas à combinação do queijo com a goiabada”, explica.


Hoje, aliás, ela já conta com uma gama maior de produtos – sempre a mesma massa, que, para Ana Laura, é a grande “estrela” do biscoito e pode ser recheada com itens diferentes. Doce de figo, chutney de cebola e geleia de pimenta (todos artesanais, sendo os dois últimos feitos por ela mesma) são os sabores que surgiram depois, além da goiabada diet, variação do tradicional.

Abraço à distância


A Julieta Biscoito começou os trabalhos oficialmente em 2020, pouco tempo antes da pandemia. Com apenas um mês de funcionamento, Ana Laura precisou refazer todos os seus planos. Ela pensava em vender para empórios, e não para o consumidor final, mas logo teve que montar seu e-commerce e atender pelo WhatsApp.


Num momento de tantos medos e incertezas, quando ela viu, os biscoitos de sua família tinham se tornado presentes que funcionavam como uma espécie de “abraço à distância”. “Os clientes compartilhavam histórias muito emocionantes comigo. Percebi ali que a Julieta tinha essa vocação como opção de presente”, conta.

Do outro lado do mundo


Talvez o fato que mais comprove o potencial – inegável, diga-se de passagem – dos biscoitos de Ana Laura foi a recente ida a Macau, na China. Ela foi convidada pela Belotur para representar Minas Gerais numa feira internacional de Cidades Criativas da Gastronomia pela Unesco. “Para mim foi o ápice, muito emocionante. Até hoje estou ‘boba’”, brinca, reforçando não imaginar que o biscoito que comia em casa poderia parar do outro lado do mundo.


Apesar da surpresa, a fundadora da marca sempre enxergou o produto como um símbolo mineiro. “As pessoas de fora comem e falam: ‘nossa, isso é muito mineiro’. Ao mesmo tempo, acho que não é óbvio.”


E essa não-obviedade defendida por Ana Laura vai além do produto em si. Ela reforça também a linha que segue nas embalagens. “As latas não trazem aquela rusticidade tão associada ao mineiro. Morei muitos anos no Rio e percebi que as pessoas sempre relacionavam o mineiro com coisas rústicas demais, sendo que a gente não se resume a isso.”


As latas com 180g de biscoitos são vendidas a R$ 48 (goiabada tradicional) e R$ 50 (diet). Com figada, chutney de cebola e geleia de pimenta, saem a R$ 52.


Suspiro recheado


Além da veia artística e da vocação para a cerâmica, Adriane Toledo, a Dizoca, “puxou” da mãe, Sônia Toledo, a habilidade e o apreço por uma receita: o suspiro recheado – que se tornou trabalho. A confeiteira e ex-arquiteta conta que nem sempre foi assim. Como uma pessoa “difícil para comer”, ela demorou muito até finalmente provar o tradicional doce recheado com brigadeiro de nozes feito pela mãe. “No dia em que finalmente experimentei, me lembro que ela estava com uma bandeja cheia deles e eu comi todos”, rememora.

Totalmente fora do comum, os suspiros da Suspirô são recheados com brigadeiros de vários sabores e cobertos com chocolate

Suspirô/Divulgação


A partir dali, festas e encontros com amigos eram adoçados com o suspiro recheado. Dizoca aprendeu todos os macetes quando ajudou a mãe em uma produção para o aniversário de uma tia. A ideia de investir no produto já germinava na mente dela há mais tempo, mas foi em 2020, para o Dia das Mães, em plena pandemia, que ela fez as primeiras vendas por meio de sua marca, a Suspirô.


A embalagem para a data, aliás, já dizia muito: era finalizada com uma foto do filho e da mãe, que muitas vezes estavam separados pelo distanciamento social. Naquele momento, enxergando um negócio com o doce, Dizoca pediu para a mãe não distribuir mais a receita para amigos e também passou a padronizar os preparos, pesando massa e recheio.

Novos brigadeiros


Ao longo do tempo, a filha passou a rechear os suspiros com outros brigadeiros, além do de nozes. Limão, banana, abacaxi com coco, pistache são alguns exemplos, fora a cobertura de chocolate, que também se tornou uma opção para os clientes. O pedido mínimo são 20 unidades e custa R$ 100.


Apesar de todas as novidades, a receita do suspiro em si continua a mesma da mãe. “Só aperfeiçoei a técnica. Ela, por exemplo, jogava todo o açúcar de uma vez, eu vou adicionando de pouco em pouco. A temperatura de forno da receita da minha mãe eram 100 graus, enquanto a minha são 84.”

Adriane Toledo herdou da mãe, Sônia, a habilidade e o apreço pelo doce que era tradição em casa

Arquivo pessoal

Outros doces


Hoje, ela também faz outros doces. “Às vezes, penso que devia ter ficado só no suspiro, mas, ao mesmo tempo, eu me canso rápido das coisas e preciso fazer novidades.” Quindim (receita da mãe de uma amiga), brownie, tortas e bolos diversos figuram entre os produtos vendidos pela confeiteira, que ainda usa muito o caderno de receitas da família como “fonte”.


Entre as tortas, por exemplo, algumas eram tradicionais na sua casa. Clássica do Natal, a de rum, brigadeiro de nozes, doce de abacaxi e doce de ameixa-preta é um dos destaques, segundo Adriane. A de massa folhada com doce de leite, noz-moscada, açúcar e canela, assinada por Sônia, também não fica para trás.

Clássico peruano


Magáli De La Flor e sua família saíram de Lima, no Peru, e aterrissaram em Belo Horizonte em 1977. Eles, que tinham o hábito de comer muitos doces no país natal, passaram a fazer o mesmo aqui – deliciando-se com os preparos feitos pela mãe, Olga De La Flor.


De todas as receitas, uma das que mais faziam sucesso em casa era um clássico do Peru: o alfajor. Diferentemente do argentino, ele não é coberto com chocolate, mas, sim, com uma fina camada de açúcar de confeiteiro, além de não levar amido de milho na massa.


Mesmo amando o doce, Magáli, que se formou em letras, não pensava em fazer dele uma profissão. Nas aulas de espanhol que ministrava, no entanto, começou a levar o alfajor para ensinar de forma diferente a língua para os alunos. “Todo mundo amava. Depois, quando meu irmão entrou na faculdade de medicina, começou a levar o alfajor para vender e também era um sucesso”, destaca.

O alfajor da De La Flor tem origem peruana, mas o doce de leite usado no recheio é mineiro; o mais vendido tem um toque de limão

De La Flor Alfajores/Divulgação


Percebendo que o doce estava conquistando corações – e com a chegada do Enem, em 2010, e a diminuição de questões em espanhol no vestibular –, Magáli decidiu investir no alfajor. Ela começou com pequenas quantidades para amigos e familiares, seguindo sempre a receita da mãe, que também a ajudava.


Um mercado importante que ela conquistou foi o de casamentos (as noivas são até hoje o principal público), que trocaram os tradicionais bem-casados pelo doce peruano, de mesmo formato. “Em 2016, meu filho criou um Instagram e ficou nos ajudando, mas depois ele foi morar fora do país e meu marido começou a me ajudar mais.”


Depois do falecimento do marido de Magáli, em 2023, seu irmão, Andrés De La Flor, fez uma proposta para montarem uma empresa juntos. Hoje, o De La Flor Alfajores funciona como uma fábrica, mantendo a tradição peruana e o legado da mãe, que sempre transmitiu afeto pelo doce. “Para nós, é uma maneira de manter viva a memória da nossa mãe [falecida em 2024]”, diz a filha.

Cítrico é campeão


A dupla usa doce de leite mineiro para unir os biscoitos peruanos. “Não acho que ele é muito diferente do que temos lá”, explica ela, além de enfatizar a questão operacional e a textura, que precisa ser mais pastosa para, de fato, uma base grudar na outra.

Os irmãos Magáli e Andrés preservam o legado da mãe, Olga, na cozinha

Arquivo pessoal


Além do clássico recheio, o de doce de leite com limão e doce de leite com nozes fazem sucesso por lá. Aliás, o sabor mais cítrico é o campeão de vendas. “Acho que pelo fato de o limão cortar um pouco o doce.” Magáli ainda diz não descartar a criação de novos sabores em breve e destaca o mais recente lançamento, o de creme de leite Ninho.


Os alfajores vendidos individualmente já na caixa e com laço custam a partir de R$ 6,50, enquanto a caixa para presentear com quatro unidades é vendida a R$ 30. Se a escolha for nozes ou Ninho, cobra-se um acréscimo de R$ 1 por unidade.


Mistura potente


Fabiana Martins, à frente da Polvilha, encontrou seu famoso bolo de pão de queijo na fusão de receitas da avós materna e paterna. Tudo começou, na verdade, quando a fundadora da marca estava assistindo a um programa de Edu Guedes na TV. Ele preparava um bolo de pão de queijo com a massa no liquidificador e picava pedaços de muçarela com as mãos mesmo.


“Vi aquilo e fiquei incrédula, porque sempre fazia pão de queijo com a minha avó materna [Maria Aparecida Costa, a avó “Bolota”, como era chamada], em Formiga (MG).” Apesar do susto, ela gostou do resultado que saiu do forno do apresentador.


“Hoje percebo que aquele incômodo que senti não foi por acaso. Precisava aprender algo ali”, conta Fabi. Até aquele momento, no entanto, ela gostava de cozinhar, mas sua profissão era distante daquela realidade – trabalhava com branding e moda.

O bolo de pão de queijo e o molho de tomate de Fabiana Martins, da Polvilha, são inspirados nas suas avós

Studio Tertúlia/Divulgação


Quando completou 30 anos e ganhou de presente o precioso caderno de receitas da avó paterna, a Terezinha, veio a ideia de tentar unir as receitas de pão de queijo das duas avós – mirando o famigerado bolo. Foi testando e levando para o pessoal do seu trabalho experimentar.


“Soube que tinha chegado ao ponto perfeito quando o bolo saía do forno e não murchava e quando vi que a massa não havia formado alvéolos como um pão de queijo, que o interior era mesmo parecido com um bolo”, explica.


A receita de Fabi seguiu a ideia de mesclar os dois polvilhos (doce e salgado), da avó Bolota, e de misturar dois queijos (minas artesanal curado e parmesão mineiro) da avó Terezinha Queiroz. Inclusive, a neta acaba de curar o queijo em casa, assim como ela fazia. “O queijo usado era sempre aquele de casa que já estava ficando mais curado, mais sequinho.”


Ela começou a vender o bolo de pão de queijo em 2016, mas teve problemas com a sociedade e se distanciou da cozinha. Foi em um dos últimos conselhos que recebeu da avó paterna que viu a chance de retomar o negócio. “Ela pegou na minha mão e falou: ‘minha filha, você ainda tá fazendo muito bolo?’, aí eu falei que não fazia muito mais e ela falou assim que eu deveria voltar a fazer, pois era um sucesso. Isso foi uma sementinha que ela plantou”, conta, recordando o que viveu no Natal de 2022.

Além do clássico


O primeiro recheio que Fabi implementou no bolo foi o de linguiça artesanal. A ideia veio de uma parada tradicional no caminho de Belo Horizonte para Formiga, que serve um famoso pão de queijo com linguiça. “Além do mais, Formiga, onde tenho família, é conhecida pela produção de linguiças”, explica.


Depois chegaram o lombo defumado e os doces: goiabada, doce de leite e doce de jabuticaba. Todos são vendidos em quatro tamanhos, do mini a G (de R$ 13,50 a R$ 94).

Ícone “subvertido”


Essa variedade reafirmou a marca como mineira, mas também exaltou a criatividade da fundadora. “Percebi que o bolo era uma base meio neutra, que tinha muitas possibilidades.”

Com o negócio, Fabiana Martins se aproxima das memórias das avós Bolota e Terezinha

Arquivo pessoal


A proposta de usar o pão de queijo de forma diferente, misturando, aliás, com outro preparo simbólico de casas mineiras, o bolo, foi motivo de orgulho para Fabi. “A Polvilha é essa marca de Minas que subverte, de forma respeitosa e amorosa, um ícone da nossa gastronomia. A gente propõe uma nova forma de comer o pão de queijo.”


Inclusive, outros preparos vendidos pela marca, como o molho de tomate (R$ 38), que também é receita da avó paterna, são pensados para acompanhar a massa. “Para ter um monoproduto, é preciso ter uma marca forte, um bom produto e saber fazer uma gestão da marca.”


Como uma empresa mineira que faz com que Fabi se conecte com mulheres de sua família (que já faleceram), a Polvilha vem conquistando seu público. Não por acaso, a celebração de dois anos da marca será reforçada com a abertura de um ponto físico, que deve ser inaugurado no fim de julho, no Bairro Sion, Região Centro-Sul de BH. A ideia é que os clientes peçam, retirem no balcão e se deliciem nas mesas.


Familiar, não menos profissional


Depois da ideia perfeita, para colocá-la em prática da maneira correta, é preciso estratégia. Quando tratamos de receitas de família, que são muito ligadas a um lar, entram questões singulares, conforme explica a analista do Sebrae Minas, Simone Lopes.


“De forma geral, em Minas a gente vê muitos empreendedores que decidem investir em um saber que passa por gerações. Nesses casos, é importante entender primeiramente se a receita tradicional é viável do ponto de vista econômico, até porque muitas vezes são itens muito perecíveis, pensados para o consumo em casa”, esclarece.

'Se o cliente não entender a verdade, o produto perde a credibilidade', alerta Simone Lopes, analista do Sebrae Minas

Sebrae Minas/Divulgação


O balanço entre adaptações necessárias, tanto para tornar o negócio rentável quanto para aumentar a durabilidade do produto, e a manutenção da autenticidade é outro desafio. “Não podemos vender algo como caseiro que, na verdade, é um produto industrializado”, ressalta a analista. Nesse aspecto, a própria narrativa também deve ser totalmente verdadeira. “Se o cliente não entender a verdade, o produto perde a credibilidade.”


A ficha técnica é destacada por Simone como uma ferramenta de suma importância, até para que o empreendedor ou a empreendedora possa precificar os insumos, delimitar as quantidades e saber quanto precisa faturar para pagar todas as contas.

Divisão calculada


“Quando o negócio começa em casa, a linha entre o empreender e o lar pode ficar muito tênue. Por isso, é importante desde o princípio tratar a produção de determinado item como uma atividade econômica”, ressalta Simone. Dessa forma, os insumos, a produção e o retorno financeiro devem ser separados. “O dinheiro que entra não é para pagar contas da casa, deve ser em benefício da própria empresa”, reforça.

Variedade de produtos


A variedade ou não de produtos deve depender de acordo com o perfil da empresa e do público. “Entendo que diversificar a gama de produtos aumenta o ticket médio, até porque muitos clientes vão atrás do carro-chefe e levam outros itens.”


Simone também chama a atenção para a relevância de campanhas, seja em datas comemorativas ou não. Elas funcionam como forma de usar a criatividade para o desenvolvimento de novos produtos e ainda deixar aquele “gostinho de quero mais” no cliente, justamente por trabalhar a sazonalidade em coleções limitadas.

Serviço


Julieta Biscoito
(31) 3654-3633
@julieta.biscoito

Suspirô
(31) 99804-2588
@sus.pirou

De La Flor Alfajores
(31) 99907-3344
@delaflor.alfajor

Polvilha
(31) 99516-1597
@polvilha.bh

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino

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