“Quero ir para casa, papai.” “Onde é isso?” Este diálogo aparentemente banal reflete um mundo dividido – na esfera pessoal e pública. Em 1949, o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955) retorna ao seu país natal, depois de 16 anos no exílio. Palcos da divisão ideológica da Guerra Fria, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental querem para si o Nobel de Literatura. Este é o ponto de partida de “A terra do meu pai”, novo filme de Pawel Pawlikowski, que estreia nesta quinta (29/10).

É o terceiro longa do cineasta polonês rodado em preto e branco que aborda os traumas da Segunda Guerra – os anteriores são “Ida”, Oscar de Melhor Filme Internacional de 2013, e “Guerra fria”, três nomeações da Academia em 2018. Escolha da Polônia para a disputa do Oscar 2027, “A terra do meu pai”, prêmio de Melhor Diretor em Cannes, ficcionaliza os fatos.

No filme, Mann (Hanns Zischler) deixa os Estados Unidos com a primogênita Erika (Sandra Hüller) para receber o Prêmio Goethe em Frankfurt, sob domínio americano, e Weimar, sob o jugo soviético. No início da jornada, eles são informados do suicídio, em Cannes, de Klaus (August Diehl), o segundo filho. Na vida real, Mann fez a incursão com a mulher, Katia.

Adaptar a biografia ficcional “O mágico”, de Colm Tóibín (Cia das Letras) foi a proposta inicial feita a Pawlikowski, que remodelou o projeto.

“Deixei claro que não estávamos fazendo uma cinebiografia. Há uma irmã, um irmão e uma filha com seu pai. Juntos, formam uma mistura dramática muito rica: a fragmentação da família espelhando a fragmentação do país. A ideia era que esses dois elementos se potencializassem”, afirma Pawlikowski ao Estado de Minas.

Você criou um filme histórico que dialoga com a polarização atual. Isto te interessou desde o início?

Não era o objetivo central, mas o fato de que a história ressoa com o presente me levou a dar mais atenção. A fragmentação atual segue linhas um pouco diferentes e ocorre, em grande parte, no universo digital; algo difícil de capturar ou dramatizar. Ainda assim, essa é uma das camadas da obra.

Quando alguém tenta se posicionar buscando pensar por conta própria, sem se prender a uma narrativa rígida, é um desafio manter a independência. Foi algo que, de certa forma, aconteceu na Europa após a Segunda Guerra.

É interessante notar que, quando Klaus fala de um jeito bem descontraído sobre Mickey Mouse ou Stalin, isso representava um problema. Naquela época, a maior parte da intelectualidade europeia era marxista. Por si só, não seria um problema, mas, na prática, significava ser stalinista. Klaus não aprovava a União Soviética e detestava a Alemanha. O capitalismo também não lhe agradava. O fato de ele estar, logo no início do filme, em uma situação de decadência, tem a ver, de certa forma, com a dificuldade de pensar de maneira individual em um mundo dividido.

Não há uma só menção ao filme que não destaque a atuação de Sandra Hüller. Poderia falar como foi trabalhar com ela?

Sandra tem seu próprio processo, que é bastante intenso: ela precisa trabalhar a partir de dentro. Não adianta simplesmente pedir para ela olhar para lá sem considerar o que ela está pensando. Ela precisa estar, de fato, dentro da personagem. O ponto positivo é que ela não exagera na atuação.

Está imersa na personagem, mas sem recorrer a sinais óbvios de emoção. A forma como as emoções transparecem no rosto dela é extremamente sutil e orgânica. No início, Sandra levou um tempo para se acostumar com a ideia de que a imagem é tão importante quanto a interpretação – que o enquadramento, a iluminação também fazem parte da atuação. Foi a primeira vez que ela trabalhou com um diretor que não deixa as questões de câmera apenas a cargo do operador.

Mas logo estabelecemos uma sintonia incrível. O grande desafio era manter esse controle rigoroso sobre a imagem e a atuação, sem, contudo, esvaziar a vida que pulsa na interpretação.

A maior parte das filmagens ocorreu na Polônia. Poderia falar sobre a impressionante sequência em que pai e filha chegam à Alemanha?

A parte da viagem de carro foi filmada em um local que encontramos após meses e meses. Uma longa rua em Legnica, na Polônia, uma região que, antigamente, pertencia à Alemanha. A rua estava quase em ruínas, parecia que a guerra tinha acabado de terminar. Construímos o cenário a partir disso, adicionando elementos de direção de arte no primeiro plano. Tudo o que estava na altura da visão das pessoas era real; apenas alguns danos em perspectiva foram adicionados digitalmente.

Mas a maior parte foi filmada de forma analógica, com cenários reais. Também dediquei muito tempo à seleção dos figurantes. São excelentes, que realmente passam a impressão de serem pessoas que viveram antes ou depois da guerra. Criamos pequenas ações para os figurantes, já que eles acabaram se tornando parte da direção de arte do filme. Era uma forma de conferir autenticidade àquele universo e torná-lo expressivo.

Filmamos a cena em movimento sem usar movimentos de câmera como panorâmicas ou destacar elementos específicos. A maneira como realizo meus filmes, evitando excesso de closes ou movimentos de câmera, acaba condicionando o público a observar as coisas de um jeito diferente. Foi uma sequência cara: acredito que a maior parte do orçamento foi gasta nela. Como a filmamos logo no primeiro dia, representou um grande desafio para toda a equipe acertar o resultado.


“A TERRA DO MEU PAI”
(Polônia/Alemanha/Itália/França, 2026, 82 min.) – Direção: Pawel Pawlikowski. Com Sandra Hüller, Hanns Zischler e August Diehl. Estreia nesta quinta-feira (29/10), no Centro Cultural Unimed-BH (Sala 1, 15h e 18h40) e no Cine Belas Artes (15h10 e 19h).

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