Cantor, compositor e instrumentista, Rodrigo Borges foi o convidado desta semana do programa “EM Minas”, exibido pela TV Alterosa. Sobrinho de Lô Borges e filho de Marilton Borges, ele mantém vivo o legado do Clube da Esquina. O artista prepara para o mês que vem o lançamento do disco “Transverso”.


Na entrevista a seguir, ele fala sobre a importância do Clube da Esquina para as novas gerações, a convivência com os músicos da família e a perda do tio Lô Borges, que morreu em 2 de novembro do ano passado.


Como você definiria o Clube da Esquina para essa geração nova que está chegando agora e tentando entender o que foi esse movimento?
O Clube da Esquina tinha um pacto filosófico. Começou com meu tio Márcio Borges, que foi o primeiro parceiro do Milton Nascimento. Eles se conheceram no Centro da cidade. Meus avós tinham se mudado com os 11 filhos para o Centro, na Avenida Amazonas, enquanto a casa de Santa Tereza era reformada.

Eles moravam no 17º andar e, no quarto andar, estava chegando de Três Pontas Milton Nascimento. Meu pai [Marilton Borges] foi um dos primeiros amigos dele, levou para dentro de casa e ali nascia um pacto de amizade. Quando Milton descobriu que meu tio Márcio estava compondo, Márcio foi o primeiro parceiro dele.

Os dois assistiram a três sessões de “Jules e Jim”, de François Truffaut, e depois compuseram as três primeiras canções: “Novena”, “Crença” e “Gira girou”. Naquele momento, Márcio e Milton fizeram o pacto de ser originais e de que as músicas representassem a história deles.

Para quem está começando a fazer música, tem que ter amizade, amor pela música e falar do seu quintal, das coisas que acontecem na sua casa, na sua terra, no seu coração, na sua cabeça. Acho que eles tinham esse impacto por serem originais, por fazerem a melhor música possível de forma original e sem se ligar em mercado.


E aí nasce um dos maiores movimentos musicais do Brasil, inclusive maior que a Bossa Nova, não é?
É difícil falar isso. A Bossa Nova tem uma amplitude internacional muito grande por causa do Tom [Jobim], mas o Clube também, por causa do Milton. Talvez a Bossa tenha sido a nossa primeira embaixadora no mundo, e o Clube também representa a nossa cultura de uma maneira bem ampla mundo afora.

Basta ver o legado do Milton. Ele foi abraçado pela turma do jazz nos Estados Unidos. Logo depois do Festival da Canção, em 1967, quando ficou em segundo lugar com “Travessia”, explodiu aqui no Brasil e já foi convidado para gravar um disco nos Estados Unidos.


A gente tem, por exemplo, o Clube da Esquina para Minas Gerais, como a Bossa Nova é para o Rio de Janeiro, porque levou Minas Gerais nacionalmente e mundo afora.
Milton foi acolhido pela turma do jazz, pelo Wayne Shorter. Eles gravaram “Native dancer”, um álbum maravilhoso nos Estados Unidos. Então, Milton também é um embaixador do mundo.

A gente vê Toninho Horta viajando o mundo inteiro. Ele divulgou uma turnê mundial agora, passando pelos Estados Unidos e China. É uma das grandes referências que a gente tem da música brasileira mundo afora. Um exemplo disso é o Alex Turner, vocalista da banda Arctic Monkeys, que hoje talvez seja um dos maiores compositores do Reino Unido e é fã do Lô.


E quando você, Rodrigo, entendeu a importância da construção da musicalidade tanto de Minas quanto do Brasil?
Acho que muito novinho. A importância, talvez na adolescência eu tenha virado a chave. Cresci nesse ambiente musical. Meu pai trabalhava com jingle, publicidade, cinema, trilha sonora, um monte de coisas.

Eu já gravava umas trilhas sonoras para ele. Então comecei a ter essa dimensão de que tanto meu pai quanto minha família viviam disso e tinham a música como parceira de vida. Depois, fui entendendo o papel do Lô e do Márcio.

Cheguei a presenciar processos de composição do Lô e do Márcio na casa dos meus avós, onde meu pai mora, na Rua Divinópolis, em Santa Tereza. A partir dali, falei: esses caras levam a música de uma maneira muito carinhosa, muito amorosa e muito séria. Na adolescência, comecei a ter essa dimensão de que a música gerada na minha família extrapolava os limites de Belo Horizonte pela entrega deles.


E quando foi que você entendeu que a música seria a sua profissão ou você nunca pensou em outra coisa e já estava enraizado?
Eu já trabalhei com comunicação também, trabalhei em rádio. Trabalhei na Rádio Guarani como programador musical, produtor, então tive essa vivência de entender a música em outros contextos. Mas, desde moleque, já entendi que a música seria minha escolha de vida.


Você atualmente continua fazendo shows Brasil afora, levando o seu trabalho autoral e também levando o legado do Clube.
É um repertório que faz parte da vida das pessoas. Então, tenho circulado muito pelo Brasil inteiro, tocando e levando essas canções mineiras. A gente tem dois pilares desse trabalho. Um é o Novas Esquinas, para apresentar essa roupagem nova, preservando o DNA das harmonias dessas canções e dialogando com novas gerações da música brasileira. Estou lançando mais um disco de carreira, que se chama “Transverso”, nos dias 16 e 17 de novembro, no Teatro Feluma, aqui em Belo Horizonte. Depois, a gente parte em turnê. É um disco que tem homenagens ao meu tio Lô Borges, mas também traz a minha verve autoral.


Foi difícil encontrar a sua identidade musical vindo dessa família? Ou você entende que o Clube da Esquina, o movimento, está enraizado na sua identidade?
Ele está dentro da minha identidade. É óbvio que você devolve para o mundo uma interpretação que não tem a pretensão de ser a mesma coisa que eles fizeram. Cada um tem sua personalidade, seu jeito de cantar. Mas acho que a gente tem essa fidelidade às harmonias originais. Ao mesmo tempo, coloca toda a nossa carga, toda a nossa vivência naquela performance, no jeito de tocar.

Se tiver que escolher uma música do Clube da Esquina que mais te toque ou que te represente, qual seria?
Nossa, essa é difícil, viu! Pergunta difícil. Tem uma pela qual sou apaixonado, que é “Clube da Esquina nº 2”. Acho essa maravilhosa. É uma parceria entre Milton, Lô e Márcio Borges. Originalmente, no álbum “Clube da Esquina”, não tinha letra. Depois, a Nana Caymmi pediu para meu tio [Márcio Borges] fazer uma letra, depois que ela tinha sido gravada, porque Lô e Milton acharam que ela estava pronta. Aí nasceu essa letra.

Vai fazer um ano agora da morte de Lô Borges, e não teve um artista nacional que não o reverenciasse, que não fizesse homenagem a ele. Como é que foi isso? Essa morte tão repentina também para vocês da família?
Foi absolutamente inesperado. Foi um acidente, uma intoxicação por medicamentos, de confundir um medicamento que não podia ser tomado com o outro. Então, a gente ainda não acredita muito que ele tenha partido.

Parece que foi ontem. A gente esperava que ele saísse dessa, até pela própria imagem que o Lô passa para a gente e pelo ritmo de trabalho dele. Era um cara inquieto, acelerado, que gravava, compunha toda semana, ia para o estúdio, tinha uma rotina de caminhadas. Estava num momento feliz da vida, viajando muito, sendo muito procurado e muito homenageado pela genialidade das canções.

Ele tinha consciência do quanto era reverenciado, não só por outros músicos, mas também pela população que curtia o Clube da Esquina e o trabalho dele?
Eu não sei se ele tinha essa consciência do tamanho dele e da obra dele. Ele sabia o tamanho do talento dele, inegavelmente. Era um cara que sabia que era um craque, diferenciado na composição.

Isso pela própria história, pelo carinho que recebeu em vida das pessoas por onde quer que passasse. Mas essa dimensão mesmo, como um dos pilares da MPB e embaixador no mundo, como a gente disse pouco antes na entrevista, de um cara que transcende as fronteiras...

A morte dele foi lamentada nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Japão, aqui na América do Sul. Então, não acredito que o Lô tivesse essa dimensão de onde o trabalho dele chegou.

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