Moradores, artistas e políticos lamentam vandalismo no Clube da Esquina
Ataque ao memorial no Santa Tereza provocou indignação e levantou suspeitas de motivação política às vésperas do segundo turno das eleições
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O vandalismo contra o memorial do Clube da Esquina, no bairro Santa Tereza, na Região Leste de Belo Horizonte, provocou indignação entre moradores, músicos e parlamentares nesta sexta-feira (23/10). O ataque, ocorrido dois dias antes do segundo turno das eleições, também levantou suspeitas de motivação política, embora a autoria e as circunstâncias do episódio ainda sejam investigadas pela Polícia Civil.
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A suspeita foi levantada por moradores e artistas que estiveram no local. Daniela Arruda Felício, de 61 anos, moradora do imóvel onde está instalada a placa, relatou ter ouvido um grito de "Fora, Lula" por volta das 7h desta sexta-feira. Imagens de câmeras de segurança registraram a presença de um homem nas proximidades do memorial por volta das 4h50, antes do relato da moradora.
O músico Yê Borges, irmão de Lô Borges, esteve na esquina durante a manhã e demonstrou tristeza ao encontrar o espaço vandalizado. Ele relembrou a própria relação com o endereço, onde acompanhou o surgimento do movimento musical que se tornaria uma referência internacional.
"Eu vi isso aqui sentado, tocando violão, vi nascer a música do Clube da Esquina. A gente jamais poderia imaginar que viraria uma referência no mundo", afirmou.
Para Yê, o ataque reflete o clima de intolerância e polarização política no país. O músico lamentou os conflitos entre pessoas com opiniões diferentes e defendeu o respeito ao resultado das eleições.
"É muito difícil um momento desse falar de amor, mas eu tenho que amar o cara que fez isso, eu tenho que tentar compreender que ele não tem uma razão, que ele não consegue imaginar outra coisa melhor do que fazer, do que discutir, do que argumentar, é fazer isso", declarou.
O artista também fez um apelo para que a indignação não provoque novos episódios de violência.
"Nós temos que semear o amor. Em qualquer circunstância", disse.
Artistas lamentam ataque à memória cultural
O músico e compositor Gabriel Guedes, filho de Beto Guedes, também esteve no local e associou o vandalismo à disputa política. Em manifestação gravada diante do memorial, ele afirmou que o Clube da Esquina tem uma trajetória ligada a valores progressistas e criticou tentativas de atribuir o episódio à esquerda.
"O Clube da Esquina, essencialmente, é um movimento de esquerda", afirmou.
Para reforçar seu argumento, Gabriel citou um trecho da música Nenhum Mistério, composta por Lô Borges, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes:
"Agora é nossa hora de viver
De enfrentar a fúria dos leões
Plantar a esperança pra colher
A paz que move nossos corações"
Segundo o músico, a mensagem da canção contrasta com a violência do ataque.
Gabriel também atribuiu o vandalismo à direita, interpretação que não foi confirmada pelas investigações, e incentivou o público a revisitar as letras do Clube da Esquina para compreender os valores que, segundo ele, marcaram a história do movimento.
O músico e compositor Tatta Spalla, que pretendia realizar uma gravação na esquina na manhã desta sexta-feira, também lamentou a depredação do memorial.
"Qual é o motivo disso aqui? Isso aqui é um templo sagrado da música", declarou.
Responsáveis pela revitalização lamentam danos
A arquiteta Bruna de Sá, responsável pelo projeto de revitalização da esquina ao lado do arquiteto Chico Casarões, lamentou os danos ao espaço, que passou por uma reforma em 2024.
Segundo ela, o trabalho buscou valorizar a importância cultural do Clube da Esquina e transformar o endereço em um ponto turístico mais acolhedor para visitantes.
"A gente quis valorizar todo esse movimento cultural que é o Clube da Esquina. A gente fez toda a calçada da fama, pintura da fachada, porque é um ponto turístico de Belo Horizonte muito importante", explicou.
Bruna afirmou que será necessário realizar novos reparos para recuperar o espaço.
"É triste essa não valorização da história que aqui já ficou registrada como o Clube da Esquina. A gente agora vai ter que reformar mais uma vez, para não deixar essas marcas aqui", lamentou.
Chico Casarões, proprietário do imóvel onde está instalada a placa, também demonstrou preocupação com a possibilidade de novos ataques. "Tenho medo de alguém retaliar a casa", afirmou.
Parlamentares apontam possível motivação política
A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) visitou o memorial e classificou o episódio como um ataque à cultura mineira. Questionada pelo Estado de Minas sobre a avaliação do prefeito Álvaro Damião (União Brasil), que disse não acreditar em motivação política, a parlamentar apresentou uma interpretação diferente.
"Eu respeito a posição do prefeito, mas todo atentado à cultura é um atentado político, sobretudo um atentado ao Clube da Esquina, que é, sem dúvida, uma das marcas do DNA da mineiridade", afirmou.
Para Duda, a tinta vermelha utilizada no vandalismo remete à violência e à intolerância política. A deputada também destacou a importância internacional do movimento musical.
"Isso aqui não é um picho, isso aqui é um atentado político à nossa cultura, a Minas Gerais, ao que o Clube da Esquina representa para a América Latina", declarou.
A parlamentar anunciou ainda a destinação de R$ 500 mil para valorizar a memória do Clube da Esquina. Segundo ela, a proposta inclui a possibilidade de instalar homenagens a artistas, discos e álbuns ligados ao movimento, além de fortalecer o potencial turístico do endereço.
"É para deixar esse espaço ainda mais importante do que ele já é", afirmou.
A deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG) também esteve no local e classificou o episódio como um ato de intolerância.
"Essa é a esquina do Clube da Esquina, que representa a cultura de resistência, a cultura progressista do nosso estado", afirmou. Bella associou o ataque ao contexto eleitoral e mencionou os relatos de gritos de "Fora, Lula" durante a madrugada. A parlamentar defendeu a mobilização de movimentos culturais para cobrar a responsabilização dos envolvidos.
"A gente está aqui chamando o movimento cultural de resistência para que isso aqui não fique impune, para que a gente consiga ter o respeito à democracia, o respeito à cultura mineira e o respeito ao Clube da Esquina", declarou.
Polícia investiga autoria e motivação
Apesar das suspeitas levantadas por moradores, músicos e parlamentares, ainda não há confirmação de que o vandalismo tenha motivação política.
A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) informou que recolheu uma luva e um invólucro plástico encontrados no local e analisa imagens de câmeras de segurança para identificar os envolvidos. A corporação também apura a possibilidade de motivação política levantada por testemunhas.
Já a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que investiga a autoria e as circunstâncias do ataque. A perícia oficial foi acionada para coletar vestígios, e equipes policiais realizam levantamentos para identificar os responsáveis.
O prefeito Álvaro Damião, que também visitou a esquina nesta sexta-feira, condenou o vandalismo, mas afirmou não acreditar que o episódio esteja relacionado à disputa eleitoral.
"Não acredito, não. Eu acho que a política ficou tão extrema que tudo tem um apelo político", disse ao Estado de Minas.
Ocupação artística na esquina
Desde o início da manhã desta sexta-feira (23/10), o cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro Santa Tereza, recebe moradores, artistas, políticos e fãs do Clube da Esquina que foram ao local lamentar o vandalismo.
Em resposta ao ataque, artistas e apoiadores convocaram uma ocupação artística e musical para as 17h30 desta sexta-feira, no próprio memorial. A mobilização pretende reunir músicos e admiradores do movimento em defesa da cultura, da liberdade de expressão e da democracia, transformando a indignação com o ocorrido em uma manifestação coletiva.
A “Abbey Road brasileira”
O Clube da Esquina surgiu dos encontros de jovens músicos, nas décadas de 1960 e 1970, na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte. O nome foi dado por Maricota Borges, mãe de Lô Borges, que chamava assim o lugar onde seus filhos e amigos se reuniam para conversar, brincar e fazer música.Dali nasceu um dos maiores movimentos da música popular brasileira.
Artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Fernando Brant e Ronaldo Bastos levaram a música feita em Minas para o mundo, conquistando reconhecimento internacional e vários Grammys para o Santa Tereza.
Uma espécie de "Abbey Road brasileira", a esquina se tornou uma referência cultural que atrai fãs e músicos de diferentes lugares. Ao longo das décadas, Santa Tereza também fez parte da história de outras gerações de artistas, passando por bandas como Sepultura, Skank, Pato Fu e 14 Bis, além de nomes como a cantora Marina Sena, que já morou no bairro.
Bares como o Clubinho do Rae e o Bar do Godofredo fizeram parte dessa história de encontros e apresentações musicais. Atualmente, o Bar do Museu Clube da Esquina mantém essa tradição, com apresentações musicais de terça a domingo. Além disso, a própria esquina segue como palco de ocupações artísticas, festivais e apresentações que movimentam o bairro e mantêm viva a história de um movimento que saiu das ruas de Santa Tereza para ganhar o mundo.
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