ARTES VISUAIS

Coletiva "A espessura do tempo" expande o conceito de pintura

Obras de Clara Salles, Camila Bicalho e Tassiane Matsubara, em cartaz na  galeria Mama/Cadela, ressaltam a materialidade e a relação das obras com o espaço

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Para as artistas Tassiane Matsubara, Clara Salles e Camila Bicalho, a pintura não se limita à experiência visual. Essa ideia compartilhada guiou a criação das obras que integram a exposição coletiva "A espessura do mundo", em cartaz na galeria Mama/Cadela até o dia 7 de novembro. 

São, no total, 42 trabalhos, entendidos como pinturas, mas feitos em diferentes suportes, com materiais distintos e que exploram formas variadas, podendo extrapolar o plano e chegar à tridimensionalidade.

O trabalho de Clara Salles é o que mais se aproxima da pintura tradicional. Ela apresenta quadros feitos em óleo sobre tela em que casas, ruínas, jardins, mares, montanhas e cavernas contêm elementos da literatura, do sonho e da experiência vivida. 

Camila tem a lona como suporte principal e o desenho como matriz do pensamento. Curadora da mostra, Júlia Maria Lia diz que ela parte de detalhes mínimos do cotidiano, como os números dos jogos de loteria que a mãe repetia, e os transforma em carimbos, camadas e sobreposições.

Tassiane, por sua vez, trabalha no campo entre a pintura e a escultura. "O interior vira exterior, e o esqueleto da obra se expõe. A grade é o elemento recorrente, e a linha deixa de ser só contorno para se tornar estrutura, relação, espaço habitável e tempo", explica Júlia sobre as criações da artista. 

Com trajetórias marcadas por uma amizade construída ao longo dos anos de interlocução na Escola Guignard, as três percorrem caminhos diversos que, em conjunto, estabelecem relações entre imagem, matéria, corpo e espaço.

PESQUISAS 

A curadora destaca que, no processo de seleção das obras, não se preocupou com nenhum elemento unificador. "Camila, Clara e Tassiane têm pesquisas muito distintas e não respondem a uma mesma pergunta. O que me interessou foi colocar esses trabalhos lado a lado e ver o que acontece entre eles, a densidade que surge desse encontro", diz. Clara Salles observa, no entanto, que o título da mostra indica o ponto de convergência, a despeito da assinatura que cada artista imprime no conjunto das respectivas obras.

"Essa espessura de que estamos falando tem a ver com a pintura para além dos olhos, porque existe a materialidade e a relação dela com o espaço. Cada uma de nós lida com isso de forma diferente", pontua. 

Júlia acrescenta que as três trabalham a pintura como experiência do corpo, e não só do olho. "Em Camila, a espessura está no suporte, no peso e no verso das lonas. Em Clara, no tempo e na memória. Em Tassiane, na estrutura oculta e no vazio entre os planos. Por isso o título funciona para as três", ressalta.

Além dos quadros que expõe no cômodo principal da galeria, Clara Salles também apresenta, em uma sala à parte, quatro cerâmicas, que resultam de uma investigação recente sobre a materialidade da terra e o tempo geológico. 

Sobre os quadros, ela diz que a inspiração parte de referências variadas, sobretudo de deslocamentos por espaços da natureza, mas também de leituras de autoras como Hilda Hilst e Clarice Lispector, de quem toma a frase "Noite alta é grande e me come" para batizar uma das pinturas.

MEMÓRIA

Júlia observa que, na pintura de Clara, a corporeidade é mais discreta, porém mais profunda. "Ela mora na espessura do tempo e da memória que a imagem convoca. O horizonte se desloca, aproximando o que está em cima do que está embaixo”, pontua. 

“Nos trabalhos mais recentes, os tons mais claros funcionam como uma luz que habita o interior de uma rocha, que está esperando ser escavada pelo olhar", acrescenta. 

Sobre o trabalho de Camila, ela chama a atenção para o fato de que o suporte está no centro da obra. "As lonas de material sintético ficam suspensas, mostram dobras, verso e peso, e pedem que o visitante se desloque, contorne e olhe por trás", comenta. 

No trabalho de Tassiane, a curadora destaca a reversibilidade, com a estrutura que normalmente sustenta a pintura por trás passando a atravessá-la e se tornando visível pela frente. "Ela constrói e dá corpo ao vazio com cortes, vãos, planos translúcidos e o óleo espesso que distorce a superfície como camadas físicas de tempo", observa.

"A ESPESSURA DO MUNDO"

Exposição coletiva de Clara Salles, Tassiane Matsubara e Camila Bicalho, em cartaz na galeria Mama/Cadela (Rua Pouso Alegre, 2.048, Santa Tereza), com horário de visitação às quintas-feiras, das 11h às 17h; sábados e domingos, das 9h às 15; e a possibilidade de agendamento prévio em outros dias e horários por mensagem direta no perfil oficial do Instagram. Entrada franca.

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