ARTIGO

Canções de Renato Russo ainda traduzem o Brasil, 30 anos após sua morte

Interrogações, respostas e espanto com o país presentes nas letras do líder da Legião Urbana, morto em 11 de outubro de 1996, seguem atuais e pertinentes

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“Tudo passa, tudo passará.” Trinta anos depois da morte de Renato Russo, os versos de um sucesso popular dos anos 1970 citados em “Metal contra as nuvens” são desmentidos pela permanência da obra do líder da Legião Urbana.

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Suas músicas continuam a ecoar; são mais de 8 milhões de ouvintes mensais apenas no Spotify. Suas falas não param de reverberar; volta e meia, trechos de entrevistas viralizam e uma nova geração é impactada pelos posicionamentos incisivos do cantor, por exemplo, contra o fascismo.

Suas palavras ainda têm a capacidade de sintetizar e escancarar as contradições do Brasil. E diversas indagações por ele formuladas no século passado seguem sem resposta.


Que país é este? Como vou crescer se nada cresce por aqui? Por que você não me deixa em paz? Será que ninguém vê o caos em que vivemos? O que é que eu tenho a ver com isso? De onde vem essa indiferença temperada a ferro e fogo? Será que é tudo isso em vão? Vamos conseguir vencer? Quem é que vai nos proteger? Será que vamos ter de responder pelos erros a mais? Eu e você?


Para os questionamentos mais íntimos (“Hoje em dia como é que se diz eu te amo?”, de “Vamos fazer um filme”), Renato deixou a resposta na própria canção ou na areia molhada pelo mar (“Onde está você agora, além de aqui dentro de mim?”, de “Vento no litoral”).

Estas e outras letras, da esfera da intimidade, traduziram angústias e anseios de sua geração. Ajudaram jovens a decifrar desejos (“Daniel na cova dos leões”), superar desilusões (“Andrea Doria”), refletir precocemente sobre a finitude da existência (“Tempo perdido”).

São canções que nasceram atemporais — e não é coincidência o fato de que as três faixas mencionadas pertencem ao disco “Dois”, que completou 40 anos em 2026 e com lugar especial no coração dos fãs.


Já as reações ao estado das coisas observadas e vivenciadas na juventude do cantor e compositor — nascido no Rio de Janeiro e criado na capital da República, precocemente desviada da utopia de seus criadores pela ditadura militar — poderiam ter ficado datadas.

Mas, infelizmente, continuam atuais. Ainda mais quando antecedidas por constatações desencantadas (“Desses vinte anos nenhum foi feito para mim”, “Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel”) ou provocações (“Quando tem chacina de adolescente, como é que você se sente?”) como as de “Mais do mesmo”, música de 1987 que poderia ter sido escrita ontem à noite.


Muitas coisas mudaram no Brasil em que Renato Manfredini Junior nasceu, em 27 de março de 1960, e morreu, em 11 de outubro de 1996, em seu apartamento, em Ipanema, por complicações decorrentes da Aids. Outras tantas estão do jeito que o compositor rabiscou em um pedaço de papel no apartamento de sua família, na Asa Sul, em Brasília, ou no último endereço.

Permanecem a ausência de empatia com os invisibilizados que vagueiam pelas ruas das grandes cidades, “mendigos com esparadrapos podres” (“Música urbana 2”), parte imensa de “toda essa gente que só faz sofrer” (“Faroeste caboclo”).

O fetiche mórbido pelo consumo de crimes (“A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais”, em “Baader-Meinhof Blues”) ganhou o impulso dos algoritmos das redes sociais. A frustração pela impossibilidade do consumo, descrita em “Conexão amazônica” (“O que eu quero eu não tenho, o que não tenho eu quero ter, não posso ter o que eu quero”), se acentua com a ostentação dos influencers no Instagram e TikTok.

Não há mais constrangimento na defesa de uma pátria armada (“Cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio .38”), vislumbrada em “A montanha mágica”. E a celebração da estupidez e da desunião, o descaso com a educação, a exaltação do passado de “absurdos gloriosos de um Estado que não é nação” fazem as hipérboles enfileiradas em “Perfeição” soarem assustadoramente atuais.


Quando a esperança está dispersa e não há mais compaixão, sobra apenas uma certeza, lá do início dos anos 1980: “Sou brasileiro errado, vivendo em separado, contando os vencidos de todos os lados” (“Petróleo do futuro”, do primeiro disco da banda).

O contraste entre a inocência analógica e nostálgica do fim do século 20, refletida em parte das canções de “O descobrimento do Brasil”, e a atmosfera sombria do século 21, iniciada nos atentados de 11/9/2001 e antecipada pelo disco-epitáfio “A tempestade ou o livro dos dias” (1996), foi expressada em “Sereníssima”: “Antes eu sonhava, agora já não durmo”.


Sim, estes são dias desleais. Para ajudar a enfrentá-los, Renato ainda está aqui, dentro de nós.

• Carlos Marcelo é jornalista do Estado de Minas e autor da biografia “Renato Russo - O filho da revolução”

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