LITERATURA

Obra de Mateus Baldi revisita "Transa", de Caetano Veloso

No novo título da coleção "O livro do disco", da editora Cobogó, a escritora disseca o álbum lançado em 1972 que se tornou um marco na carreira do baiano

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O interesse pela obra de Caetano Veloso que acompanha desde a infância a escritora Mateus Baldi a levou a eleger o álbum "Transa" como objeto de estudo em sua dissertação de mestrado, defendida em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio.

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O resultado dessa investida gerou o novo título da coleção "O livro do disco", da editora Cobogó, que acaba de ser lançado, no qual ela disseca um dos trabalhos mais marcantes da carreira do cantor e compositor baiano.



Autora dos livros de contos "Os anos de vidro" (2025), vencedor do prêmio APCA 2025, e "Formigas no paraíso" (2022), Baldi estreia, com "Transa", na literatura ensaística.


Gravado em quatro sessões no segundo semestre de 1971, em Londres, capital inglesa, com Caetano acompanhado no estúdio pelos músicos Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza, o álbum é, conforme diz, uma espécie de mapa que recria o Brasil no exílio. Ela destaca que essa foi a chave de leitura para tratar de "Transa".



"Eu queria me debruçar sobre obras relevantes que haviam sido produzidas na ditadura e achei que 'Transa', pelo contexto do exílio e dentro da própria produção de Caetano, era muito instigante, então ficou meio difícil resistir a me embrenhar nele, descobrir como havia sido feito, os processos, os bastidores e tudo mais", diz.


Ela aborda desde a partida de Caetano para a Inglaterra até a recepção do álbum na imprensa, apresentando uma pesquisa de arquivos, aliada a entrevistas com alguns personagens que orbitaram a obra.


Suporte bibliográfico


"Busquei ler o máximo possível do que havia sido falado sobre o 'Transa' na época do lançamento, bem como os livros de Caetano e artigos e trabalhos de pesquisadores que se debruçaram sobre a obra dele", diz.


Ela destaca que dois títulos que deram especial suporte para sua pesquisa foram "It's a long way: o exílio em Caetano Veloso", de Márcia Fráguas, e "Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil", de Guilherme Wisnik.


Jards Macalé, Tutty Moreno, Angela Ro Ro e Péricles Cavalcanti foram entrevistados para a dissertação. Baldi diz que os quatro artistas foram generosos e que seus depoimentos somaram muito à obra.


"Eles falaram coisas importantes que ajudaram demais na pesquisa. Um aspecto interessante desse processo é que tudo se comunicava. Fui percebendo que livros, artigos e entrevistas se complementavam, formando também um grande mapa", diz.



A autora observa que "Transa" foi feito num momento em que Caetano transitava entre novas sonoridades e culturas sem, no entanto, perder a conexão com sua terra natal.


No álbum, há músicas em inglês e português que vão do samba ao reggae, passando pelo rock e por referências ao cancioneiro nordestino, criando uma sonoridade híbrida que reflete a condição de expatriado do artista, que transforma a experiência do desenraizamento em linguagem musical.


"É um disco impressionante pelo contexto do exílio e pela força criativa que Caetano punha nessa imensa colagem, esse imenso mapa acústico do Brasil, como eu chamo, que se desenha nas sete faixas", diz Baldi.


Operação cartográfica


Ela pontua que essa percepção de "Transa" como um mapa do Brasil surgiu durante o processo de escrita da dissertação.


"Sou uma pessoa que descobre muitas coisas quando já está desenvolvendo a ideia. É assim também quando escrevo ficção. Costumo dizer que, se tem começo, meio e fim, só tenho clareza de duas dessas três etapas antes de iniciar a escrita. Comecei a ter algumas intuições e uma delas foi de que, na verdade, Caetano estava fazendo ali uma operação cartográfica", diz.



A autora considera que "Transa" é um inventário musical do Brasil feito em oposição ao clima que a ditadura militar impunha. "Pelas citações, pela colagem, por tudo mais, penso nesse trabalho como um disco-mapa mesmo", ressalta.


Ela diz que essa ideia emerge a partir do momento em que se olha para o álbum como um todo, incluindo "Neolithic man" e "Nostalgia (That's what rock'n'roll is all about)", as duas últimas faixas, que muitas vezes são escanteadas nas análises e comentários.


A gravação do álbum "Transa" contou com as participações especiais de Gal Costa e Angela Ro Ro. A primeira atuou como backing vocal nas faixas "You don't know me", "Neolithic man" e "Nostalgia (That's what rock'n'roll is all about)". Esta última contém a gaita tocada por Angela Ro Ro, que viria a lançar seu álbum de estreia sete anos depois, em 1979.

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Serviço


Livro: "Caetano Veloso: Transa", de Mateus Baldi
Editora: Cobogó / Coleção "O livro do disco"
Número de páginas: 200 
Preço: R$ 82


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