entrevista Afonso Borges

Fliparacatu reúne Mia Couto e Cármen Lúcia no Noroeste de Minas

Evento gratuito homenageia Guimarães Rosa e Milton Santos com debates, oficinas e show de João Bosco no centro histórico

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Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais e a 500 quilômetros de Belo Horizonte, volta a ocupar lugar de destaque no calendário literário brasileiro com mais uma realização do Fliparacatu, o Festival Literário Internacional da cidade. A quarta edição do evento começa nesta quarta-feira e segue até domingo, com programação gratuita no centro histórico da cidade, acessibilidade em Libras e transmissão pela internet.

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O tema desta edição é “Sertão em nós: meu lugar no mundo”, eixo que articula debates sobre território, identidade, memória, pertencimento e os desafios da vida coletiva. A proposta dialoga diretamente com dois homenageados: o escritor João Guimarães Rosa, lembrado pelos 70 anos da publicação de “Grande sertão: veredas”, e o geógrafo Milton Santos, celebrado no centenário de nascimento. “Os dois têm, em si, a força da brasilidade na veia”, afirma Afonso Borges, idealizador do festival e um dos curadores do evento.



A partir das referências deixadas por dois nomes incontornáveis da cultura brasileira, o festival pretende relacionar literatura, pensamento crítico e leitura do território, conectando o sertão mineiro a questões nacionais e globais.



Entre os eixos temáticos estão literatura e democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade, educação, cidadania e os impasses do mundo contemporâneo. A curadoria nacional é assinada por Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges. A programação local fica a cargo de Daniela Prado, enquanto a curadoria infantojuvenil é conduzida por Rafael Nolli. A composição inclui autores consagrados, pesquisadores, jornalistas, artistas, educadores, representantes da produção regional e atividades voltadas à formação de novos leitores. “O conceito de equilibrar gênero e raça persiste como uma bula ética”, lembra Afonso, também organizador de festivais em Araxá, Itabira e Petrópolis (RJ).



A lista de convidados do Fliparacatu reúne nomes de diferentes áreas da literatura, do jornalismo e das ciências humanas. Passarão pela cidade histórica nomes como Mia Couto, Bruna Lombardi, Cármen Lúcia, Jeferson Tenório, Míriam Leitão, Alê Santos, Eliana Alves Cruz, Cristóvão Tezza, Marcelino Freire, Paulo Scott, Paulliny Tort, Renato Noguera, Rita von Hunty, Sandra Menezes, Noemi Jaffe, Natalia Timerman, Jamil Chade, Bia Bracher, Geni Núñez, Ítalo Moriconi, Nina Santos, Mônica Meyer, Taiane Santi Martins, Fabiana Carneiro, Jeovanna Vieira, Ricardo Ramos Filho e outros convidados. A diversidade de perfis reforça a proposta de aproximar leitura, debate público, jornalismo, filosofia, ciência, educação e produção artística.



Além das mesas literárias, o Fliparacatu terá lançamentos de livros, sessões de autógrafos, livraria com milhares de exemplares, ações de formação de leitores, encontros com autores independentes e o tradicional Prêmio de Redação e Desenho, voltado a estudantes das redes pública e privada. A programação também reserva espaço para crianças e adolescentes, com contações de histórias, oficinas, espetáculos, atividades de criação e encontros com autores do segmento infantojuvenil. Entre as atrações anunciadas para esse público estão Gabriel Dearo e Manu Digilio, Alessandra Roscoe, Grupo Cênikas, Gleici Ribeiro, Mayron Engel e Paulo Victor.



O festival, que concentrará as atividades no centro histórico de Paracatu, pretende transformar ruas, praças e equipamentos culturais em áreas de circulação, leitura e convivência. A programação inclui ainda atividades no auditório do Fliparacatu e na Estação Literária da Praça, além de ações ao ar livre, como uma apresentação do cantor João Bosco com a Orquestra Sinfônica de Ouro Preto na próxima sexta-feira, às 21h, no Largo do Rosário.



Ao longo das três primeiras edições, o Fliparacatu reuniu mais de 150 autores, promoveu centenas de atividades e recebeu cerca de 75 mil pessoas. Toda a programação conta com tradução em Libras e transmissão ao vivo pelo YouTube. Leia, a seguir, a entrevista que Afonso Borges, criador do festival e presidente da Associação Cultural Sempre um Papo, concedeu ao Estado de Minas pouco antes de sair de Belo Horizonte em direção à cidade mineira.


Que conceito norteia a edição 2026 do Fliparacatu?
Em primeiro lugar, o conceito de equilibrar gênero e raça persiste, como uma bula ética. Em segundo, a sorte de ter dois homenageados, Rosa e Santos, que têm em si força da brasilidade na veia. Os 70 anos de um livro, “Grande sertão: veredas”, e os cem anos de Milton Santos compõem um conceito extraordinário, fácil de trabalhar. Por isso, “O sertão em nós – meu lugar no mundo”.


O que diferencia o Fliparacatu de outros festivais por você realizados?
O amadurecimento das ações estruturantes que compõem nossos festivais. Esta, em especial, a ideia de fazer uma ponte entre os livros que os autores estão lançando e o tema do Festival, de forma harmônica, é novidade. Além disso, Paracatu é a única cidade que realizamos eventos igual em Cartagena, o “Hay Festival”, onde temos diversas opções pela cidade histórica. Isso nos proporcionou a eleição de temas e convidados que fazem a gente sentar-se ali na quarta-feira e só sair no domingo.


Quais pontos de convergência consegue estabelecer entre Milton Santos e Guimarães Rosa, os patronos da edição deste ano?
Rosa disse que o sertão está dentro nós. E Milton Santos passou a vida mostrando a importância do lugar fora de nós, base da Geografia. Esta brincadeira filosófica nos permite que a gente coloque mais de 50 autores para refletir sobre a geolocalização interna e externa. E este é o grande pulo do gato dos nossos festivais – no fundo a gente quer é discutir o Brasil.


A mesa do sábado tem como tema “Grande sertão: veredas, 70 anos: a travessia continua” com a ministra Cármen Lúcia, o escritor Mia Couto e a jornalista e escritora Miriam Leitão. Como as visões dos três podem contribuir para amplificar a leitura da obra-prima de Rosa?
Eu acredito que o debate produtivo tem que trilhar caminhos convergentes. Existe uma falácia, uma coisa incômoda no mundo contemporâneo sobre pontos divergentes. Eu acho que a divergência não faz avançar. Os três convidados têm uma visão cosmopolita, democrática, ética e profundamente humana da literatura de Rosa. Isso só pode gerar uma reflexão incomum, em um encontro incomum.


Setenta anos depois do lançamento de “Grande sertão: veredas”, o que ainda o impressiona no livro? Qual a sua passagem favorita?
A hora da preparação do corpo de Diadorim, depois do combate no Paredão. Hora que Riobaldo descobre que Diadorim era Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, filha de Joca Ramiro. Hora que Guimarães Rosa faz, com maestria, uma construção lenta, demorada, para a revelação mais importante do livro. Épico.


Como será a participação dos autores da cidade e da região?
Sempre é fortíssima. Mais que isso, é nosso eixo de trabalho. Paracatu é a cidade de Afonso Arinos, escritor de “Pelo sertão”, que influenciou Rosa, Graciliano e tantos outros. E isso se reflete. A participação dos autores locais e regionais é tão importante que, desde o primeiro festival, eles abrem o evento.


Como se conseguirá criar um ambiente literário na cidade?
Propositalmente, nós não realizamos o festival em um teatro fechado ou um colégio. O festival acontece na Praça do Rosário, no meio de todo mundo. Livraria, atividades para crianças, empreendedores. E os escritores ali, andando entre o público, sem barreiras. Além disso, há o Prêmio de Redação, que hoje alcança 100% das escolas particulares e públicas da cidade.


Uma das mesas tem como tema “O sertão mineiro de Afonso Arinos”. O Brasil ainda deve um reconhecimento maior à importância da obra de Arinos? Por quê?
Hoje, eu sou uma pessoa obstinada com este propósito. Basta ler os contos de “Pelo sertão”, escrito ali no final do século 19, para entender a sua importância. De tudo que eu tenho a dizer, vou citar só uma: três anos antes da famosa Semana de Arte de 22, em São Paulo, no Theatro Municipal, foi exibida uma só ópera. Sabe qual foi? “O contratador de diamantes”, de Arinos. E, em 2024, recebeu uma nova adaptação por Fernando Mingone. Mas isso é só o começo.


Está mais fácil ou mais difícil realizar festivais literários no país?
Mais difícil por uma notícia boa: eles se proliferaram pelo Brasil afora. A concorrência aumentou muito!


Ainda há espaço para festivais em outras cidades mineiras?
Um espaço imenso. Eu penso melhor: um festival literário consegue abarcar todas as artes em sua programação e bojo. E mais: é o único evento cultural que consegue deixar um legado. E por um motivo muito simples: o livro é um bem durável, o livro é eterno, o livro é formador. O livro é o chão do festival literário. 

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Datas de festivais em 2027


Além do Fliparacatu, que em 2027 ocorrerá de 25 a 28 de agosto, os outros festivais organizados por Afonso Borges já têm as datas definidas para o próximo ano. O Fliaraxá, na cidade do triângulo mineiro, será realizado de 10 a 13 de junho. O Flitabira, na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, será de 28 a 31 de outubro. E o Flipetrópolis, na cidade serrana do estado do Rio de Janeiro, acontece de 3 a 7 de novembro de 2027.


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