Caetano Veloso se diz preocupado com futuro do Brasil: 'Irrecuperável'
Em entrevista ao jornal espanhol El País, cantor contou estar preocupado com o ressurgimento de ideias autoritárias no Brasil
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Caetano Veloso disse se preocupar com o futuro do Brasil e o ressurgimento de sentimentos autoritários. "As coisas estão tão ruins hoje em dia. O Brasil parece irrecuperável. Mas, ao mesmo tempo, a sensação de que ele ainda pode dizer algo importante ao mundo persiste", declarou ao jornal espanhol El País.
O cantor brasileiro se apresenta em Madri nesta quinta-feira (4/6), como parte da turnê "Caetano nos festivais", que já passou por Portugal e virá ao Brasil no fim do mês. "Há pessoas que dizem publicamente que gostariam que a ditadura militar voltasse. E dizem isso como se não fosse nada", completou o artista.
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"Prisão, confinamento e exílio foram experiências muito dolorosas. Ficamos presos durante dois meses, depois confinados vários meses em Salvador e, em seguida, exiliados por mais dois anos. Isso até mudou minha perspectiva sobre o mundo", disse.
Expoente do tropicalismo, movimento musical que misturou rock e repertórios nacionais, Veloso é reconhecido pela postura crítica com que confrontou a ditadura militar. Segundo ele, a mistura entre diferentes culturas incorpora outras lógicas à luz da internet.
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"Essas ideias foram saudáveis para o Brasil por muitos anos. Mas hoje, com o mundo digital e mudanças tecnológicas, a situação é diferente. Muitas pessoas novas aparecem constantemente nas redes sociais, e é muito difícil saber quem é realmente especial", comentou.
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'Pureza cultural'
Segundo o cantor, apesar da velocidade caótica com que tudo acontece atualmente, ainda é importante reconhecer o Brasil como parte do mundo e absorver influências sem se subordinar a elas. "Não existe pureza cultural na América. Queríamos mais energia criativa, e foi por isso que não aceitamos a defesa rígida da tradição."
Questionado sobre a defesa da ambiguidade estética e sexual, ou seja, a diversidade de formas artísticas e a mistura entre convenções associadas aos gêneros masculino e feminino, Veloso afirmou que discussões do tipo parecem ganhar cada vez mais espaço.
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"Quando escrevi 'Verdade Tropical' [sua autobiografia de 1997], eu disse que a esquerda precisava prestar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje, vejo que há muita racialização, sexualização e ênfase em questões de gênero. Isso gera muita confusão", ponderou.