João Pombo Barile - Especial para o EM
O indisciplinador das almas: a expressão usada pelo crítico português Jorge de Sena ao escrever sobre Fernando Pessoa talvez possa nos ajudar a entender a trajetória de Italo Moriconi. Depois de passar os anos 1970 ao lado da turma da poesia marginal, a partir dos anos 1980 ele se tornaria um dos mais refinados críticos literários de sua geração.
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Em Italo convivem de forma rara e harmoniosa duas vocações contraditórias: de um lado, o intelectual interessado na elaboração teórica sofisticada; do outro, o criador, o artista que não tem medo de se jogar, se arriscar.
“Para ler ‘Grande sertão: Veredas’”, ensaio que acaba de chegar às livrarias, reflete esta dualidade. Dividido em duas partes, a primeira (subjetiva) é o diário de leitura de Moriconi. Nela, o escritor registra suas impressões sobre a obra-prima de Rosa e lança importantes questões dos rumos tomados pela nossa literatura nas últimas décadas. Na segunda parte (didática), Italo reconstitui o enredo da inesquecível (e triste) história de amor entre Diadorim e Riobaldo.
“Queria fazer uma leitura detalhada de um livro que li na juventude, de forma apressada”, afirma.
Como surgiu a ideia de escrever o ensaio? E por que só agora você decidiu fazer uma leitura sistemática do livro?
Em matéria de Guimarães Rosa, debruçar-me sobre o “Grande sertão: Veredas” era um projeto sempre adiado, face à preferência que eu tinha pelas narrativas de “Corpo de baile” e o prazer repetido de reler contos diversos de “Sagarana” e demais livros do autor. Apesar de ter estudado bastante da obra e alguma coisa da vida de Guimarães Rosa, eu tinha uma prevenção em relação ao “Grande sertão”.
Suas primeiras páginas não me seduziam, nem o que me parecia ser seu conteúdo misógino. Aposentado da universidade, resolvi partir para ocupar parte do tempo ganho com lazer intelectual produtivo através da leitura ou releitura de grandes clássicos. Quando vi a peça e o filme de Bia Lessa sobre o “Grande sertão”, fiquei impactado e achei que não podia mais adiar um corpo a corpo com a obra.
Acabou que me deu vontade de escrever alguma coisa sobre a experiência dessa leitura não encomendada, o que por sua vez levou à proposta, acolhida pela editora Autêntica, de publicá-la como forma de homenagem aos 70 anos do romance.
Gostaria que você comentasse sobre uma tragédia que parece ter se abatido sobre todos nós: a perda de concentração. E que, claro, afeta nossa capacidade de leitura.
A capacidade de manter a atenção e ler, em curto espaço de tempo, um ‘romanção’ com mais de 400 páginas está diretamente ligada à disponibilidade de tempo que se tem para lazer cultural, associada à disposição ou ao hábito adquirido de ocupar esse tempo com leitura de ficção.
Leitura de ficção exige concentração e isolamento ou capacidade de abstração do burburinho em torno. Mas outros fatores afetam essa capacidade. Desde o início do século passado, a necessidade humana de produzir e consumir histórias inventadas é atendida sobretudo pelo cinema e, cada vez mais, pela televisão em streaming.
Nesta, o consumo de ficção compete com a carga pesada do noticiário. Vivemos um tempo de multitarefas. Para as classes detentoras de poder, a multitarefa é exercício de controle e dominação do todo. Já para as classes trabalhadoras, a multitarefa representa dispersão e fragmentação radicais.
Outro comentário que gostaria que fizesse é sobre os rumos tomados pela literatura brasileira. Sobretudo a poesia, onde, a partir dos anos 1970, Oswald de Andrade parece ter ganho a partida, como gosta de repetir o crítico e escritor Silviano Santiago.
Como aluno e discípulo dos ensinamentos de Silviano Santiago, também fui e ainda sou marcado pela apropriação intelectual e estética do legado estimulante de Oswald de Andrade. No entanto, foi o próprio Silviano que chamou a atenção para o caráter incontornável da figura de Mário de Andrade, assim como para poéticas que de uma forma ou outra iam além da práxis modernista primeira-heróica, vanguardista, elíptica, de linguagem “ao rés-do-chão”.
A poesia brasileira contemporânea foi se diversificando de tal maneira que já não é mais possível falar de uma hegemonia oswaldiana. A meu ver, são dois os fatores principais. Primeiro, pela mudança nos paradigmas de referência, que deixaram de ser os grandes poetas modernistas brasileiros e passaram a ser poetas estrangeiros mais variados.
E no caso das referências nacionais das gerações mais recentes, poderíamos citar a poesia de Ana Cristina Cesar, que se tornou matriz inspiradora de tantas poetas mulheres. O segundo fator é a nova importância da poesia oralizada dos slams que abriu um oceano de aceitação para o cada vez maior diálogo entre poesia e prosa.
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Concordo com os que veem na frase o núcleo formal da poesia e não mais o verso, que, no entanto, subsiste como uma espécie de forma arquetípica, inconsciente presente-ausente da fala poética. A oralização da práxis poética articula-se à emergência revolucionária das novas subjetividades em processo de emancipação – as tais “identidades”, que a primeira coisa que fazem é estilhaçar as identidades nacionais e as identidades individuais do paradigma psi. Não tenho nada contra.
