LITERATURA

'Vivíamos como jagunços', diz Bruna Lombardi, sobre sua saga no sertão

Atriz e escritora relança livro com o diário de sua jornada no interior de Minas para gravar a minissérie 'Grande sertão: veredas', que estreou na Globo em 1985

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Lá se vão 70 anos da publicação de “Grande sertão: veredas”, a magistral obra do mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa (1908-1967), e pouco mais de quatro décadas da adaptação do romance para a televisão. Dirigida por Walter Avancini, a minissérie protagonizada por Tony Ramos (Riobaldo) e Bruna Lombardi (Diadorim) estreou em 1985.

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Durante as gravações no interior das Gerais, Bruna escreveu um “diário de bordo”, conforme define, que ganha agora relançamento incluindo textos inéditos, fotos, desenhos e anotações pessoais.

“O livro está completo, com todas as partes que não entraram na primeira edição. Descreve, passo a passo, tudo o que vivenciei lá. Não tinha luxo, foram muitos desafios e obstáculos em condições precárias, áreas inóspitas, seguindo o percurso de Rosa no sertão. Vivíamos, de fato, como jagunços”, afirma Bruna sobre “Diário do Grande Sertão” (Editora Autêntica). A distribuição começa no próximo sábado (6/6), durante o evento paulistano A Feira do Livro 2026.

A atriz e escritora considera este livro a segunda etapa de sua vida. “A experiência foi tão forte e profunda que não é só uma questão de guardar lembranças. É o quanto carrego o sertão dentro de mim, essa marca do Brasil profundo”, diz.

Caos e aventura

Também poeta, roteirista, diretora e produtora, ela conta que escreveu durante as filmagens “para não enlouquecer”, para se orientar no caos em que estava vivendo, enfim, “para não me perder na força de toda aquela aventura”.

Diadorim foi um divisor de águas para Bruna. “Conhecia o livro de Guimarães Rosa desde a adolescência, obra fundamental na minha vida. Então, ao ser convidada, sabia da importância do papel. Mas nem poderia imaginar que, um dia, seria Diadorim, que iria me construir ou desconstruir para construir personagem tão icônico. Avancini não apenas me convidou, ele me intimou a fazer o papel. Antes, não me via como Diadorim, mas no sertão descobri que eu tinha audácia.”

A experiência trouxe mais mudanças pessoais do que profissionais, revela. “Fiz grandes descobertas no sertão. A pessoa que aprendi a ser, a visão de mundo, tudo isso foi marcante e está registrado no diário de bordo”, conta Bruna.

Tony Ramos e Bruna Lombardi estão lado a lado e olham para a câmera em cena da série Grande sertão: veredas
Tony Ramos (Riobaldo) e Bruna Lombardi (Diadorim) estrelaram a minissérie 'Grande sertão: veredas', rodada em Minas Gerais Globo/divulgação

O incentivo para a publicação do livro partiu do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), certo de que a atriz tinha em mãos um relato de bastidores e um documento raro sobre a experiência transformadora da literatura.

Durante a produção da minissérie, a Globo levou centenas de profissionais e milhares figurantes ao sertão mineiro, com vários meses de gravação e total imersão no universo rosiano. Em meio à travessia da região, longos períodos de gravação e o processo de construção de Diadorim, a atriz registrou impressões sobre paisagem, cotidiano da equipe, bastidores e impactos provocados pela convivência intensa com a obra de Guimarães Rosa.

“Brinco que escrevi o diário para conseguir me orientar, pois eram gravações com milhares de figurantes, comboio gigante de pessoas e maquinárias em lugares ermos do Brasil que, naquela época, não tinham televisão, luz, não sabiam nada daquilo que estava acontecendo ali... Parecíamos futuristas naquele cenário. Diadorim foi a minha experiência de atriz mais marcante. Considero esse papel um prêmio, pois é um dos personagens mais importantes da literatura mundial.”

Bruna escrevia todos os dias – no lombo do cavalo, entre armas, guardando os papéis no gibão, às vezes sujos de barro e depois de difícil leitura. “Todos os escritos eram registros daquele cenário”, resume.

Leitora da monumental obra desde os 15 anos, Bruna revela ter várias edições do “Grande sertão: veredas” em casa.

Um dos exemplares, conta, “está todo riscado, rabiscado, sublinhado, por mim, de tantas frases profundas que me acompanham até hoje”.

Ao escrever o diário, ela intercalou, no relato de cada dia de gravação, um pensamento, frase e ideia do escritor, unindo sensações, experiências, sentimentos ao trabalho. E, desse longo trato com as páginas rosianas, conclui: “Guimarães Rosa habita em mim, e carrego um pedaço do sertão para sempre.”

Três livros

O relançamento integra o projeto 3 Veredas para o Grande Sertão, preparado pela Autêntica para celebrar as sete décadas da obra-prima rosiana. Além de “Diário do Grande Sertão”, a editora publica “Para ler 'Grande sertão: veredas'”, de Ítalo Moriconi, que propõe uma travessia crítica e acessível pelo romance de Rosa, e “Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas”, de Jacques Fux, ensaio que investiga as relações entre Guimarães Rosa e a Itália a partir de suas viagens, diários e recepção internacional.

“Juntos, os três livros oferecem diferentes caminhos de aproximação com uma das obras mais importantes da literatura brasileira”, informa o material divulgado pela editora.


TRECHOS DOS DIÁRIOS DE BRUNA

• 15 de abril

“... o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

Atravesso o sertão e ele é mesmo do tamanho do mundo:

Tudo o que li me vem à cabeça, mas viver a coisa é diferente. Não existe nada mais bonito na vida do que ir ao encontro do desconhecido.

Uma caravana de carros, caminhões, camionetas, toda a maquinaria, a parafernália técnica de gruas, UPS, HMI e um gerador superpotente que levará pro fundo do sertão uma das últimas descobertas da tecnologia moderna: a Luz Elétrica.

No meio de estradas que não existem, abrimos caminhos onde caminho não havia e iniciamos a travessia dessas Gerais, levantando uma poeira densa, vermelha, mais de sete horas de viagem.

No vidro sujo de terra de um dos carros alguém escreveu:

“Viver é muito perigoso.”

• 16, terça-feira

O rio, o do Sono. O melhor banho de rio, o segundo melhor da minha vida. Só perde pro Tuatuari no Xingu, por causa do tesão da companhia, mas ganha do Negro no Amazonas, por essa correnteza que carrega a gente... eu me entrego, me deixo levar, sem o menor esforço, como se levitasse.

• 1º de maio

Carência é coisa a ser eliminada por enquanto, porque é feroz demais a dor. Saudade nem pensar. Não posso abrir espaço pra pensar em quem amo e não está comigo, e nem posso me dar ao luxo de me deixar invadir pela divisão dessa saudade. Aqui preciso estar inteira.

Aqui é tudo ou nada.

Nonada.

Se deixar pra trás qualquer pedaço meu, não sobrevivo.

Me concentro no que tenho.

Adotei um calango, um camaleão azul verde-turquesa que dorme comigo. Tem um rabo cinematográfico e eu me apaixonei perdidamente: encho ele de carinho, um excesso de beijos, expansiva como sou. Ele parece estar se acostumando, às vezes me olha entediado, mas sei que no fundo tá na maior dependência afetiva.

Calangos geralmente são muito discretos em sua afetividade.

Bruna Lombardi de cabelos curtos na capa de seu livro Diário do Grande Sertão
Autêntica

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“DIÁRIO DO GRANDE SERTÃO”

• De Bruna Lombardi
• Editora Autêntica
•160 páginas
• R$ 79,80
• Lançamento no próximo sábado (6/6), durante A Feira do Livro, em São Paulo (SP). A autora participará da mesa “Travessias do sertão: 70 anos de 'Grande sertão: veredas'” com Ítalo Moriconi e Jacques Fux. Mediação: Schneider Carpeggiani.

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